O dia em que a turma escolheu — e eu não entendi

Entre frustração e surpresa, uma sala de aula revela o que significa escolher e aprender com isso

O gesto de levantar a mão marca o momento da escolha coletiva em sala de aula, onde aprender também passa por decidir. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
O gesto de levantar a mão marca o momento da escolha coletiva em sala de aula, onde aprender também passa por decidir. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
O gesto de levantar a mão marca o momento da escolha coletiva em sala de aula, onde aprender também passa por decidir. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

O gesto de levantar a mão marca o momento da escolha coletiva em sala de aula, onde aprender também passa por decidir.
Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

Hoje, descobri que o aluno Gregório de Mattos foi eleito representante de turma.

Em 10 de março, com as aulas tendo começado em fevereiro e com uns 10 dias sem aulas por conta do carnaval, Gregório, que não faz poemas satíricos, já tem registros de comportamentos capazes de escrever um livrinho.

Como debutante na arte da educação, procurei a direção da escola para falar sobre essa seleção, para perguntar como foi possível que a própria turma escolhesse o pior dos seus exemplares.

Falei que deveríamos ter dado uma explicação da história da humanidade, falado de Jesus e Barrabás, das condições dessas comunidades por conta da escolha de representantes que não moram nas comunidades etc.

A diretora, com a paciência de um monge (uma das funções da direção é ser paciente, já que parte do corpo docente não pode pagar um psicólogo), explicou:

Pois é! Mas o professor Morin fez tudo isso e até trouxe a situação para saber o que devemos fazer”

Minha cara deve ter expressado algum desespero porque ela parou um pouco para ver se estava acontecendo alguma coisa comigo, e seguiu:

Máximo, você já reparou nas pessoas que nós, enquanto estado, país, mundo, estamos colocando no poder?

Achei que ia ter um piripaque. Vi os últimos 10 anos da minha vida passarem em alguns segundos. Eram um tal de ministro da educação mandando filmar professor, pessoas se entupindo de vermicida, muita bandeira dos Estados Unidos e de Israel para defender o Brasil cristão…”Máximo, você está bem?”

Oi? Ah! Sim, sim. Desculpe! Acho que a minha pressão caiu. E temos alguma alternativa? Impeachment por incapacidade, por exemplo? Gregório não tem o comportamento…”

A regra é respeitar a vontade expressa da maioria. É nisso que acreditamos, né?”

Achei que tinha entrado numa rua de uma cidade estrangeira e, de repente, não dominava mais o idioma …

Vamos administrar as coisas e ver se eles aprendem com a experiência”.

Experiência… Sim! Eu conhecia essa palavra e pude finalmente falar alguma coisa.

Sim, experiência”.

Graças a deus, tocou o sinal. Deveria ir para outra turma. Estava tudo tranquilo na outra turma, mas não pude entrar porque o professor estava fazendo o registro de uma agressão entre dois alunos da sala. Tudo tranquilo.

Os alunos mesmos disseram ao professor que não precisa registrar que eles resolveriam isso entre eles, lá fora. Mas o professor insistiu.

Entrei e, logo, perguntei se eles já tinham escolhido seus representantes. Responderam: “não”.

Pensei: Finalmente aquela metade do curso de Ciência Política na Unirio vai me ajudar (Tive que abandonar porque surgiu uma dobra no estado – hora extra, para os não iniciados – de seis tempos, em Tribobó do Sul, depois de Campos, e eu achei que dava para conciliar com minhas 50 horas em Niterói. O curso é maravilhoso. Altos debates! Que professores! O problema é a minha memória!).

Então, vamos fazer isso agora”.

Eles se empolgaram! Democracia é tudo de bom! Íamos construir uma representação popular que aprendesse desde a base e o futuro começava. Nada como acreditar.

Mas era preciso a conscientização do eleitorado antes do voto, e esse é o papel incontornável da educação. Comecei:

…porque, no princípio, era o verbo, mas já havia os chineses, e o indianos. E aí, o verbo desceu da árvore, e aí Colombo descobriu a América. E tudo isso, com chineses e indianos. E começou a democracia, a revolução burguesa e sua filha rebelde, a revolução russa. E começaram as bombas… (vinte minutos depois) E teve o crime dos marginais do índio, e todos os assassinos passam bem. E teve a tortura e o assassinato do cachorro orelha, e os meninos mandaram fotos da Disney. E teve o caso com os criminosos e alunos do Pedro II. E tudo isso porque nós não sabemos escolher nossas lideranças que são quem faz as nossas leis”.

Os alunos me olhavam atentos – não é uma turma fácil de ficar quieta. Estamos falando de um 7º ano pós-pandêmico! Eles estavam comigo!

Faltava ainda uma parte fundamental: a autoconsciência (É a segunda vez nesses 20 anos de sala de aula que tento esse aprofundamento). Era importante! “Eu tenho medo do Trump – e dos nossos Trump”. Segui.

É importante que você que vai se candidatar faça uma autoavaliação, que você veja se você tem o perfil de dedicação, de comportamento, para representar o coletivo. Você precisa ter certeza, pois muitos meninos e meninas vão fazer o que você faz e isso pode comprometer, ou ajudar, a aula e o aprendizado de vocês. (Cinco minutos depois.) Porque tem Jesus, mas tem Mussolini, Hitler”.

Terminei. Eles ainda estavam comigo. Foi uma longa travessia (Estamos falando de um 7º ano pós-pandêmico, mas eles estavam comigo).

O ideal é que não fosse tudo tão rápido, que tivéssemos criado chapas, debatido projetos, aprendido História com um professor de verdade, mas o ideal é o horizonte, né, Galeano? Nós trabalhamos quase sempre com o “inédito viável”1Freire, Paulo. “Pedagogia do oprimido [recurso eletrônico].” Rio de Janeiro: Paz e Terra (2013). !

Chegou a hora. Bora ver. A turma tem 31 alunos. Perguntei quem gostaria de se candidatar e 20 levantaram a mão (Pensei que a última explicação foi muito apressada mesmo e que não houvera tempo para decantar. Pensei em tomar um café, mas mantive a calma. A gente não ganha 100% nunca. São 20 anos de sala de aula na rede estadual do Rio de Janeiro).

Começamos a votação. Logo, logo, os nomes de Cássia e Jimi estavam liderando o pleito. Foi tudo muito rápido, não consegui anotar a placa do Porsche que me atropelou.

Pior: vi boas alunas, repito: boas alunas, votando na Cássia e no Jimi. Por fim, eles empataram em 10 votos cada um. A terceira colocada, Elisa, teve 7 votos. Tereza e Francisco, ótimos alunos, ficaram com 3 e 5, respectivamente.

Rachel, uma ótima aluna, me chamou à sua mesa e, sem que eu pedisse, justificou baixinho o seu voto: “professor, eu votei na Cássia porque gosto da força dela”. Respondi que ela era só uma garotinha. Ela argumentou: “Sim, mas tem ajudado a turma a evitar brigas, tem se colocado nas discussões internas da turma para que as coisas não fiquem piores… Acho que ela pode nos ajudar, sim. E ainda pode ajudar a ela mesma” (De novo aquela sensação de que você se perdeu e que o mapa está desatualizado – aliás, o mapa e os manuais sempre estão desatualizados. Nossa fortaleza será aprender a lidar com a incerteza, a trabalhar com estratégias para adaptar o projeto a cada vez que o plano falhe2MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, v. 99, 2003.).

Meio tonto, acho que agradeci a Rachel – ou lhe sorri. A aula se encaminhava para o fim. Com algum esforço, depois de uma advertência escrita e três alunos convidados a chegar em casa mais cedo, consegui que se sentassem para arrumar a sala a fim de que fôssemos embora (Já escrevi que era um 7º ano pós pandêmico?). Me sentia derrotado.

Teria que falar com o professor Morin e a diretora sobre essa odisseia. Meu time estava perdendo de 7 a 0, mas eu já tinha feito uma live com o padre Júlio Lancellotti e já não esperava mais vencer. O placar é que me humilhava.

A informação da Rachel me deu um alento, pareceu que eu recebera uma bola e podia tentar alguma coisa.

Chamei os representantes eleitos à frente da turma e coloquei-os, um de cada lado virado, para a turma. E falei:

Cássia e Jimi, parabéns! Seus colegas encontraram valor em vocês e disseram com o voto que vocês vão representá-los bem. Disseram que vocês têm ajudado na tentativa de manter algum equilíbrio aqui. Eu, da minha parte, quero confessar algo: eu não votaria em vocês (A cara de Cássia se entristeceu e Jimi olhou para o chão). Mas quero logo pedir desculpas. Ser professor exige que eu tenha esperança e que, apesar de fazer a avaliação histórica, dê novas oportunidades. Eu não teria dado porque a versão de vocês, de 2025, foi terrível. Mas, aí, vocês venceram! Seus amigos escolheram vocês e uma aluna me disse que você, Cássia, tem se esforçado para ajudar todo mundo e para evitar que coisas erradas aconteçam entre vocês. Assim, queria dizer que estou satisfeito! Acho que a educação está dizendo que, lentamente, vocês vão crescendo e melhorando a si mesmos… E é justamente esse o papel da educação. Vocês têm 13 anos, têm todo o direito de fazer bobagem e aprender com elas… Eu é que estava esquecendo disso e, vendo adultos se comportando como crianças, acho que esperei que as crianças se comportassem como adultos. Queria agradecer a vocês e dizer que contem comigo para a fazermos dessa turma a melhor turma da escola”.

Quando olhei para os representantes, eles estavam emocionados – Cássia tinha os olhos marejados, Jimi sorria. Apertei a mão dos dois e disse: “Obrigado e vamos trabalhar”. Liberei os dois.

E, depois que a sala estava minimamente arrumada, liberei a turma e sentei uns minutos na minha cadeira para respirar e pensar. Uau! Que surra! Era como se eu tivesse entrado numa luta com profissionais e o que piso, só na minha parte, estava encharcado de sabão.

Por fim, porque, na realidade, é dessas complexas compensações que vive o educador, a emoção dos representantes me pegou. Algo tinha acontecido. Duraria muito tempo? Sei lá. Isso importa? A bola encontrou as redes. Há a possibilidade de, no próximo jogo, estarmos esses alunos, seus representantes e eu mais próximos e, quem sabe, no mesmo time?

E se eu, outra vez, estiver com essas esperanças de professor, que fazem que ele tome 200 ml de café antes das 7 para chegar à sala na pressão? Que importa? Estávamos perdendo de 7 a 0 e fizemos 3 no último minuto. Porque hoje a marcação é de basquete.

Máximo Heleno Rodrigues Lustosa da Costa é Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, Professor de Língua portuguesa da rede estadual do Rio de Janeiro.

Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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