Com o Rio Negro na boca
Entre a lama da seca e o vômito da memória, um conto sobre o fim do mundo e o reencontro com a ancestralidade

“Vó Zefinha esperava a cobra-canoa com o Rio Negro na boca.” Uma narrativa sobre a morte, o delírio e a sede em um Amazonas
que virou sertão. Quando o rio seca, o que resta é o tremor da memória e o veneno da terra. Arte: Loan Bastos.
Quando olhei o rosto enrugado de mamãe sem vida, vi a irreconhecível fisionomia da terra. Sem compreender direito o que tinha acabado de acontecer, sem deixar cair uma lágrima, dei um beijo derradeiro em seu rosto, fechei seus olhos e desci do flutuante, procurando alguma gota das águas escuras do rio nas frestas do solo.
A terra está ocre, com cortes em grená, enrugada, ressequida, rachada, opaca, trincada, cheia de veredas fissuradas, fixa e trêmula, espessa e miúda ao mesmo tempo. Não parece que já foi o fundo brilhante e escuro do rio Negro.
Desci as escadas de casa com o eco das últimas palavras de mamãe na cabeça: “Teu pai empurrou Zefinha no rio, meu filho, no rio… num ataque de fúria… no rio…”, cof, cof… Mamãe aspirou uma rajada brusca de ar, arregalou os olhos, soltou uma pequena lufada e parou de respirar. Ainda tinha alguma coisa a perder?, pensei ao chegar no chão. Pisei na terra como se pisasse no rosto de mamãe. Ao olhar de perto a vastidão da seca, encontrei uma pequena rachadura com restos do rio Negro. Quando me abaixei para pegar um pequeno punhado de água misturada com barro morto para colocar na minha boca, senti uma picada na minha perna e, imediatamente, uma dor imemorial.
Ao voltar à palafita, comecei a ter uma vertigem inédita que desencadeou uma náusea. De repente, senti um peso secular no estômago. Mamãe estava errada, mamãe estava errada, não era possível, papai não matou a Zefinha. As pernas da palafita estão trêmulas como se ela é que estivesse nauseada. Me seguro na porta de saída da casa, com os pés no umbral do parapeito, frente ao horizonte alaranjado da terra ticada pela seca.
Agora, nosso lar é uma casa com pernas que pisam na terra desaguada e minguada, que grita na língua do silêncio. Não há mais um flutuante como antes, um lar andante nas águas. O rio virou sertão. Dessa vez, não foi o mar. Sinto um fluxo extenso retornar no estômago. Cresce um grande bolo na minha garganta. A vertigem flutua num abismo desconhecido. Falta reza, falta reza, muita reza, e chá, muito chá. Não sei benzer, nem fazer o chá como vovó fazia. Agora que vislumbro a gente pelo espelho da morte, o que vejo dentro é o que vejo fora: a terra ocre e desolada, de uma ocredade grená sangue. Zefinha poderia pedir para o rio Negro retornar, mas ela mesma não voltou. Com um grande nó na garganta, tento segurar um amontoado na minha boca.
Sou impelido a olhar fixamente para uma fresta da terra, como se aquela fissura vermelha-roxa fosse me contar algo, e, sem mais resistência, começo a vomitar. Só ela sabia benzer, só ela sabia fazer o chá, e só ela sabia coisas sobre o fundo escuro do rio Negro. Será que ela está vendo isso acontecer? Não, não, não, ela não suportaria. Antes, iria entabular com o rio, benzê-lo. Ela realmente me abandonou? Ela fugiu ou foi expulsa pelo meu pai? Por que ela sumiu? Qual foi o mal que a acometeu? Por que meu pai passou a odiar tanto ela?
Na época, não tínhamos um diagnóstico preciso sobre sua doença: “O mal da velha doida”, dizia meu pai. Alguns falavam em esquizofrenia, outros em demência, outros ainda em demônios, muitos demônios: “A benzedeira dos demônios da floresta”, murmuravam na comunidade. O vômito ganha mais força. Que tipo de doença ou demônio teria afetado minha avó? Por que ela desapareceu? Será que minha avó morreu? Depois fiquei sabendo que não sabíamos quase nada da vovó: seu nome, sua idade, sua descendência, sua família de origem, sua doença. Ela apareceu em casa quando eu tinha dois anos. Mamãe dizia que ela tinha vindo de Manaus, que trabalhava nas casas das madames, mas que era do interior e tinha sido trazida ainda criança para morar nas casas da cidade. Vovó era um mistério.
Algumas pessoas da comunidade diziam que ela era do alto rio Negro, outras falavam que era do médio Solimões. Ainda tinha quem dizia que ela era um ser da floresta, que não possuía corpo definitivo nem tempo, que era um espírito do rio vestido com a couraça de uma velha. De fato, para mim, vovó sempre tinha sido velha, a minha velha criadora. Continuo a vomitar um fluxo grande.
Olho de novo o horizonte amarelo morto da terra seca e rachada sobre a qual vomito sem parar. Sinto a violência atemporal do vômito rasgando meus lábios. Em casa, a situação piorou quando vovó Zefinha começou a profetizar: ver e ouvir coisas, conversar e benzer o rio. Papai dizia ser “alucinações da velha doida”. Eu não acreditava nisso. Embora hoje eu compreenda a perspectiva do meu pai, ainda conservo um ponto de vista diferente: vovó Zefinha sonhava de maneira profunda, um sonho desperto enraizado na vida, como se fosse um rio abrindo veredas sobre a floresta. Vovó profetizou o imprevisível sobre o rio Negro. E essa memória de um imponderável futuro presente hoje me enche o corpo de uma memória imemorial.
De repente, uma voz surge do fundo da sala da palafita e interrompe meu turbilhão de memórias: “O rio Negro atingiu sua menor marca em toda a história da medição, segundo dados medidos pelo Porto de Manaus.” O tom grave da voz vem do rádio de pilhas, o qual continua trazendo a notícia da fuga do rio: “Este é o menor nível do rio já registrado. De acordo com as projeções, os níveis podem reduzir ainda mais nos próximos dias.” O rádio quase não funcionava. Às vezes ele ligava sozinho quando as ondas do rádio sintonizavam com a energia restante das pilhas.
Olho fixamente a terra devastada, enquanto continuo a vomitar, e me pergunto: onde o rio Negro ainda não desapareceu? Em seguida, a voz do rádio velho consegue terminar a notícia: “Em áreas mais remotas, a terra está completamente seca em vastas extensões, sem opções de acesso por rios ou estradas. Muitas comunidades enfrentam sérias dificuldades para obter água potável e alimentos.” Nhéque, nhéque, nhéque. As pernas da palafita tremem sem parar. As minhas pernas também. Não há mais distinção entre as minhas pernas e as da palafita: sou minha própria casa sobre a terra moribunda. A realidade é um horizonte alucinatório. Tento conter o fluxo do vômito, mas é em vão; ao contrário, a força cresce, implacável.
De novo, sou impelido a olhar fixamente para outra fresta da terra. Será que ela realmente me abandonou? Ela fugiu e desapareceu? Ou foi expulsa pela fúria do meu pai e dos demônios? Na época em que mamãe estava preocupada com vovó, pouco antes de ela desaparecer, aconteceu algo curioso, ou seria grandioso? Eu era muito pequeno, tinha uns 10 ou 11 anos, não me lembro. A vovó começou a alucinar com frequência. “O mal da velha” dominava nossas noites. E eu adorava, me divertia demais com aquilo. Criança é o sonho encarnado em pessoa para brincar com a vida.
Num belo dia, enquanto dormia na rede, comecei a ouvir gritos: “Grande rio, Grande rio…, eu sei, eu vi a cobra-canoa, eu vi a cobra-canoa…, você vai desaparecer? Não, não nos abandone.” Na hora, eu pensei: “Oba! Hoje vai ter brincadeira com a vovó!” Acordei rindo. Levantei e fui direto à porta do meu quarto para ver o que estava acontecendo. Vovó cuspia ao falar, saíam águas escuras e brilhantes de sua boca, numa conversa intranquila com o rio na presença testemunhal da escuridão da noite. Vó Zefinha estava com uma trouxinha de roupa sobre o ombro e com o rio Negro na boca, esperando a cobra-canoa levá-la.
Então, meu pai e minha mãe chegaram, assustados, dizendo: “Que isso!? Calma, Zefinha!” Para manter a brincadeira com o rio, eu falei: “Não, não, peraí, peraí. Eu também ouvi o Grande rio e vi a cobra-canoa passar.” Corri para o parapeito de casa, peguei um punhado de água preta e marrom nas mãos, levei ao rosto e fiquei também com o rio Negro na boca, olhando para o encontro indecifrável entre as escuridões do céu e do Negro. Em seguida, gritei: “Grande rio, Grande rio…, cadê a cobra-canoa?” Abismados, meus pais me olharam e pensaram: “Meu Deus! Zefinha enlouqueceu nosso filho!”
Então, cheguei perto da minha avó e disse ao pé de seu ouvido: “Vó, eu também ouvi o Grande Rio.” Ela me olhou deslumbrada e respondeu: “Você ouviu, meu netinho?” “Sim, ouvi, vovó,” eu disse e continuei: “E a cobra-canoa não me levou também.” Ela me perguntou imediatamente, com severidade: “Por que o rio Negro fez isso? Por que não segurou a cobra-canoa?” Eu respondi com verdade e ternura: “Não sei… Vamos esperar um pouco mais para ver se a cobra-canoa vai aparecer!? Vamos… Senta aqui, vovó.” Coloquei vó Zefinha na beira da cama e deixei todas as portas abertas, de modo que pudemos ver o rio e seu movimento primitivo. Na medida em que a memória me vem cada vez mais forte, aumenta o fluxo do vômito, e minha garganta começa a arregaçar e sangrar.
Desisto de reprimir o vômito. Em vez disso, começo a buscar sua força selvagem, como se esse desejo fosse a chave para resgatar a memória de Zefinha. Naquele dia, depois que vovó se sentou na cama, começou a chover. Sentei ao seu lado para observar a dança da chuva com o rio. Ficamos madrugada adentro contemplando a coreografia das águas. Na metade da madrugada, a chuva cessou. Nunca tinha visto, como naquela noite, a macia serenidade do rio depois da chuva. Vovó continuou o tempo todo com a trouxinha de roupa no ombro e com o rio Negro na boca. A cobra-canoa não apareceu. Então, eu disse, com sono: “Vô, tô achando estranho uma coisa. A cobra-canoa estava vazia. A senhora lembra? Acho que não era para pegar ninguém. Por isso, não estamos mais vendo ela passar.” Vovó me olhou pensativa e respondeu: “É… é verdade, não tinha ninguém dentro dela.” Na sequência, eu lembrei: “E o Grande rio não disse mais nada a noite inteira. Nada, vovó, nada.” Ela, então, respondeu resignada: “É, meu netinho, ele continua em silêncio, sereno.” Aproveitei a oportunidade e disse: “Então, vamos dormir, vovó?” Enfim, ela asseverou: “Vamos, caboquinho, passou da hora já.” Então, fomos dormir.
A memória da infância é um rio turvo com um movimento enigmático e inventivo. Será que vó Zefinha ainda está viva? Por que meu pai resolveu brigar com ela? O que isso tem a ver com o sumiço de vovó? Antes, a terra era a profundidade, o fundo brilhante escuro, o mistério inenarrável. O Grande rio era seu céu preto, o movimento da eternidade, a abundância da vida. Nosso lar balançava sobre a serenidade misteriosa do rio Negro. Uma casa flutuante era como uma criança brincando com o afável enigma da existência. Agora, vejo a terra ocre desaguada, ressequida e clivada, cheia de cortes profundos e bifurcados em grená sangue, como se fosse um mapa labiríntico do destino trágico dos humanos e dos não humanos na fisionomia da própria terra. Cada vereda das fendas me impele a uma memória diferente, algumas da minha vida, outras da vida da terra. A casa com pernas está tremendo. Eu estou tremendo. A terra está tremendo. Sou a casa-terra em seu tremor terminal. Agora, o vômito incorpora uma força sobre-humana que comanda quase completamente meu corpo e minha mente. Com uma frágil força, ainda consigo me segurar no parapeito de casa, enquanto jorram grandes fluxos.
O vômito ganha uma proporção descomunal. Antes de sumir, Zefinha me criou até a pré-adolescência, me ensinou quase tudo, inclusive a pescar mundos: “E os mundos”, ela dizia, “são aqueles lugares e relações para além da natureza e da cultura”. Suas frases eram vivas, pareciam sair por si mesmas da espiral de águas pretas de sua boca: “Quando olhamos bem de perto tudo ao nosso redor, vemos os mundos, vemos que cada coisa é uma pessoa: o rio, o céu, as árvores, os bichos, os peixes”, ela dizia com uma alegria indescritível. Quando eu ia trabalhar, após seu sumiço, eu pensava com saudade ao pescar: “Cada peixe é uma abertura para um mundo diferente”. O rio ainda vivia, não tinha secado. Eu era um pescador, um pescador de mundos, graças a vovó Zefinha.
Ela gostava de contar histórias, muitas histórias, principalmente quando meu pai viajava para trabalhar e ficava dezenas de dias ausente. Ele trabalhava, dependendo da época do ano, na fazenda Rebanho Amazônico, utilizando trator e fogo para aumentar terrenos e preparar pastos, ou na mineradora Eldorado, extraindo ouro e cassiterita. Meu pai era minha maior alegria, sempre trazia brinquedos inesperados, como aquele soldadinho do exército esculpido numa pepita de ouro, ou o carrinho feito de restos de uma sumaúma queimada. Mas o que me impressionava e impregnava mesmo eram as histórias de Zefinha.
Num dia de tempestade, vovó me contou a história de quando o mundo não existia, de uma mulher que apareceu por si mesma, “a Avó da Terra”, e depois criou cinco trovões, “os Avôs do mundo”, para ajudar a criar o mundo. De dentro da escuridão, eles ficaram responsáveis por criarem a luz, os rios e a futura humanidade. “A primeira coisa importante que eles fizeram”, contou vó Zefinha, rindo, “foi não fazer nada. Com isso, criaram a contemplação”. No entanto, após uma bronca da Avó da Terra, eles criaram os rios. Para criar a humanidade, resolveram fazer um grande dabucuri inaugural, mas os trovões beberam muito caxiri e, tontos, não conseguiram criar a humanidade. Além disso, um dos trovões vomitou na maloca da escuridão, o embrião do mundo. Os avós do mundo pareciam muito atrapalhados. “Mas, preste atenção, caboquinho, com isso, antes da criação da humanidade, eles criaram a festa e a ideia de que a festa é a vida”, contou vovó, rindo, com a boca cheia de rio Negro. O vômito segue ininterrupto, cada vez mais forte. Quase não consigo mais me segurar no parapeito.
A violência do vômito me satisfaz. O fluxo do seu conteúdo agora é o fluxo da vida. Naquele dia, quando vó Zefinha me contou a história da criação do universo, meu pai chegou na hora em que ela terminava o relato, num intervalo entre um trovão e outro, todo molhado. “Porra, velha doida, já tá falando merda para o menino de novo?”, disse meu pai, gritando ao entrar em casa, após ouvir parte da história.
Às vezes, a briga entre meu pai e minha avó parecia ter origem em outros tempos. “Não aguento mais o mal dessa velha doida”, ele continuou, enquanto procurava minha mãe, “Eu trabalho muito para que um dia possamos morar de vez em Manaus, sair daqui para viver no progresso, e a Zefinha fica aqui enfiando bodó na cabeça do Danilo”. Vovó ficou calada e saiu da sala. Na cozinha, murmurou algo como “Esse é um homem da destruição”. Fiquei sem entender o porquê. Então, papai fez um ultimato: “Ou essa velha doida vai embora daqui ou quem vai embora sou eu”. Mamãe tentou apaziguar: “Calma, meu amor, vou conversar com Zefinha”. Esse foi um dos piores dias da minha vida. Chorei duplamente, pelo papai e pela vovó. O que eu mais desejava era a amizade entre eles, a conversa entre os dois mundos. A vida não acontece sem sonhos impossíveis.
No outro dia, vovó desapareceu. Mamãe me disse, na época, que Zefinha tinha decidido ir embora como chegou: do nada. Parte da comunidade dizia que vó Zefinha tinha se afundado no rio. “Não, não era possível”, eu pensava e chorava. Corri para a beira de casa, peguei um punhado do rio Negro e coloquei na boca. Uma semana depois, quando consegui parar de chorar, veio outra notícia atroz, inesperada e irreal: “Meu filho querido, seu pai morreu”, disse mamãe, ao me abraçar. O corpo de papai havia sido encontrado boiando no rio. A polícia acreditava que ele tinha sido mordido por algum bicho e, em seguida, morrido afogado. Alguns diziam que ele tinha se matado, outros que a Zefinha tinha mandado o rio devorá-lo. Chorei, chorei, chorei, sem o rio Negro na boca.
Em espiral, a vertigem das memórias atinge seu ápice, com o espelho da morte se partindo, e, de forma abrupta, é substituída por uma imagem densa e escura de um quase esquecimento. Nesse instante, o vômito implacável, enfim, resolve cessar. Acelerado, meu coração dá os primeiros sinais de que vai parar. Antes de sucumbir de vez, penso, quase rindo, no veneno selvagem que percorre meu corpo e no bicho que sorrateiramente picou minha perna: “Será que, enfim, conheci a cobra-canoa, vovó?”
Sem força, totalmente desfalecido, seco e rachado, ocre com manchas em grená, fixo e trêmulo, espesso e miúdo ao mesmo tempo, precisamente como se encontrava a terra, começo a cair do parapeito da palafita e, antes de desabar sobre meu próprio vômito na terra, olho maravilhado para o seu volumoso conteúdo marrom e preto, e vejo, exuberante, a vovó. Caio de braços abertos sobre o Grande rio. Tchibum. Fecho meus braços como quem aperta os mundos: um abraço assombroso. A morte não é o fim, mas uma nova vida. Os mundos riem da natureza e da cultura. Agora entendo por que Zefinha, nossa avó ancestral, vivia com o rio Negro na boca.
Thiago Roney é doutor em Literatura (UnB), mestre em Letras e Artes (UEA), e possui licenciaturas em Letras (UNESA) e em Matemática (UFAM). Atualmente é professor substituto de Estudos Literários da UFAM, professor visitante do PPGLA/UEA e professor e elaborador de avaliação de larga escala na Divisão de Avaliação e Monitoramento da SEMED.
Arte: Loan Bastos
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Diretor de redação: Marcos Colón
