Corporeando: aqui começa a história da primeira Maria, Maria das Dores.

Pensando a Amazônia pela Encantaria: uma crônica sobre o corpo como território vivo de memória, luta e permanência.

Maria das Dores carrega na pele o brilho da linhagem de Mansa Musa e o saber profundo de Jurema Preta. A pele que brilha é, antes de tudo, um ato de resistência, mesmo diante da violência colonial. Imagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Maria das Dores carrega na pele o brilho da linhagem de Mansa Musa e o saber profundo de Jurema Preta. A pele que brilha é, antes de tudo, um ato de resistência, mesmo diante da violência colonial. Imagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Maria das Dores carrega na pele o brilho da linhagem de Mansa Musa e o saber profundo de Jurema Preta. A pele que brilha é, antes de tudo, um ato de resistência, mesmo diante da violência colonial. Imagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Maria das Dores carrega na pele o brilho da linhagem de Mansa Musa e o saber profundo de Jurema Preta. A pele que brilha é,
antes de tudo, um ato de resistência, mesmo diante da violência colonial. Imagem: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Maria das Dores era uma mulher preta retinta, filha da junção de povos: os africanos que  se libertaram da escravização fugindo para a Floresta Amazônica, e de outro povo, os  originários indígenas, que gostavam de ser chamados de “povos da mata”. Sua mãe era  uma bela indígena, e seu pai, um garboso negro, elegante, alto, educadíssimo. O pai de  Maria contava como fugiu da fazenda que era escravizado, ele pretendia chegar no  Quilombo do Maracujá1Quilombo do Maracujá fica no nordeste do Pará.

A comunidade tem uma forte ligação com a vida fluvial e os recursos naturais da região amazônica. Comunidade Castanhalzinho (ou Castanhal), km 32 da Alça Viária, Igarapé Castanhalzinho, município de Acará, estado do Pará, Amazônia, Brasil.
, mas se perdeu e chegou a Castalzinho2O Igarapé Castanhal, localizado na bacia do Rio Acará, no Pará, é um afluente que contribui para o Rio Acará, que por sua vez deságua no Rio Moju, que finalmente desemboca na foz do Rio Guamá, próximo a Belém, fazendo parte do sistema de drenagem do nordeste paraense que se conecta ao Amazonas, sendo uma região de influência das maré. Dizia ele:  

Eu me chamo Mansa Musa, mas como era cativo me chamavam de José, porque não  sabiam chamar meu nome. Veja só, eles tem uma limitação de pronúncia e não conhecem  medu neter, do povo Kemet, os adinkras do povo Akans de Gana. 

Os nossos nomes não são respeitados quando se é cativo, mas nas rodas de capoeiras, nas giras de Exu das encruzilhadas, sou chamado pelo meu nome africano, Mansa Musa. 

Foi um mais velho  que me deu esse nome, quando ganhei a minha primeira corda de capoeira, nasci como  capoeira, foi em homenagem a um rei africano, que governou o Império de Mali no século  XIV. Era dono de minas de ouro que ninguém conseguia calcular a sua fortuna. 

A ginga da fuga: o boi e a liberdade

Planejei  há alguns meses essa fuga, não aceito ser cativo. A sinhazinha tinha olho cumprido pra  cima de mim. Ao perceber isso, vi uma possibilidade de fuga. Certo dia ela me chamou para acompanhá-la até o rio Uriboca. Eu fui. Quando ela começou tirar a roupa eu olhei para o lado e vi uma arara tão linda que fiquei olhando para aquela beleza da natureza. Nem percebi quando a sinhá entrou na água. Ela tomou banho, se vestiu e voltamos para  estrada. Ela vinha na coxia e eu puxando a carroça, como se fosse o cavalo dela. Ela me  perguntou se tinha visto ela sem roupa, respondi que não tinha olhado, que a respeitava, mas eu sabia que ela queria mesmo se mostrar, me seduzir, que eu a tocasse. Eu sabia do  caso dela com outros irmãos da senzala. Sou filho de quem matou um pássaro ontem,  com a pedra que jogou hoje e sabia jogar esse jogo, ginga não me faltava.  

Sabia, também, que depois dela usar meus irmãos, o senhorzinho marido corno dela mandava eles para o tronco, depois eram vendidos para outra fazenda. Quando ela pegava  barriga, a parteira que era uma preta velha já sabia que se nascesse meio escurinho, com qualquer coisa que identificasse o pai preto, tinha que dizer que tinha nascido morto,  enrolava em um lençol para enterrar e saía com a criança que nem poderia chorar para  acreditarem que tinha nascido morta.

E as mães da senzala já estavam esperando para  amamentar e criar, mais um enjeitado pela sinhá, temente a Deus e de bons costumes. Em alguns casos eram irmãos dos seus filhos, ora por parte de mãe, ora por parte de pai da casa grande. Eram rejeitados pelos senhores e senhoras e acolhidos nos terreiros  das senzalas. 

A sinhá era tão desnaturada que nunca deu um carinho para o filho. Ele era  mais uma criado da Casa Grande. O menino era a cara da mãe, com a pele na cor de doce de leite, olhos azuis como o céu. E eu sabia do risco que estava correndo. Ainda assim, resolvi corrê-lo. Um dia trouxe uma flor de ticuã3Ticuã é um pássaro que no Pará é conhecido por seu canto triste, muitas pessoas o associam ao chamado miado de gato, entendido, no imaginário popular, como um mau presságio. A flor de ticuã, por sua vez, é uma flor trepadeira que nasce no mato, de cores amarelas e vermelhas, com pétalas adocicadas. Dizem que, ao florescer, ticuã se alimenta dela. Assim, entre o canto do pássaro e o florescer da planta, a natureza comunica seus avisos, entrelaçando vida, presságio e memória. para ela. É uma flor comestível. É amarela por fora e vermelha por dentro.  

Ela colocou a flor na boca, me olhando por cima dos olhos, olhando para o meu corpo, descendo o olhar lentamente da cabeça ao quadril, onde fixava o olhar, mordendo o canto  dos lábios. Suas bochechas ficavam coradas e seu peito se enchia e esvaziava de ar  lentamente. Parecia que estava pegando fogo. E o fogaréu começava em baixo das suas  saias. 

Me fiz de tolo e saí. Sabia que, enquanto ela tivesse me querendo, eu não ia para o trabalho pesado, ficava em volta da Casa Grande fazendo trabalhos mais leves.

Estava  pensando em fugir no dia do festejo de Santo Antônio, porque todos ficavam envolvidos. Segui simuladamente fingindo que não percebia que a sinhá me queria, ao mesmo tempo  jogando com os desejos sujos dela. A sinhá se achava esperta, via a gente como bicho que  ela usava para se satisfazer.  

A festa de Santo Antônio era uma festa colorida e muito animada. A fazenda recebia muita  gente de fora, e na senzala também fazíamos as nossas festas. Aqui no Norte, durante esse  período, tínhamos a festa do gado, para comemorar a fartura das fazendas de gado. Todos ficavam distraídos ao redor do boi. Foi aí que tive a ideia de como fugir. Eu tirei o couro de um boi malhado, coloquei para curtir bem escondido na mata. A mata é um portal de  encantaria. Era para esconder o couro, mas também para pedir proteção para o grande  feito. Ninguém faz nada sozinho. Nunca andamos só.

No dia da festa, joguei o couro do boi nas costas e saí andando lentamente. Depois corri. No escuro ninguém percebeu que era eu. Quem me via correndo achava que era um boi fugindo, o Boi Bumbá, Boi Garantindo, Boi Caprichoso, Boi Pavulagem. Era, na verdade, eu correndo para a liberdade, dois dias sem parar, nem para beber água parei. 

O encontro na samaumeira

De longe, avistei umas árvores enormes. Havia uma enorme, a samaumeira. Tão linda, tão imensa. Me sentei entre suas raízes, respirei fundo. 

Chegando no quilombo, agora sem o couro nas costas, continuei a  caminhar cambaleando, um pouco machucado. Avistei castanheiras, umas do lado das  outras, enxerguei também um igarapé, ouvi vozes e me escondi com medo: -Será que vieram  atrás de mim? Será que vou voltar a ser cativo? 

Mas ouvi um som. Parecia manso. Eram  três mulheres. Uma delas era linda, se destacava. O cabelo preto brilhava mais que o sol,  a pele dourada como o ouro das minas de quem me dá nome, um ouro de fundo preto,  pretolado, uma pele reluzente, como pode uma pele tão brilhante? Achei que tinha chegado em Aruanda. Ao me aproximar, desmaiei.  

Acordei em uma casa circular coberta de palhas, com um homem pintado esbaforando  fumo de Tauary4Em certas regiões da Amazônia, povos indígenas e comunidades locais utilizam a casca interna da árvore tauari, que é fina e tem uma textura que lembra a do papel quando seca, como invólucro natural (a “mortalha”) para enrolar o tabaco (fumo de corda). Esse tipo de cigarro, muitas vezes chamado de “cigarro de tauari”, é usado em rituais, cerimônias de defumação e para fins medicinais/espirituais por pajés e anciãos. em cima de mim. Quase não entendia o que diziam, mas vi que estavam cuidando das minhas feridas. Logo eu, que nunca tinha sido cuidado por ninguém, que nem  minha mãe conhecia. Diziam que a minha mãe viveu e morreu em uma senzala no  Remígio, na Paraíba, e teve 19 filhos, todos arrancados como ferramenta de trabalho para  escravidão. Um dia o capataz bobeou, ela estava em trabalho de parto, fugiu para a mata. Quando a encontraram, estava com uma vara bem fininha enfiada no útero, então ela e  meu irmão estavam livres. 

Fui ficando curado e o povo que me acolheu me deixou ficar. Nessa altura já estava apaixonado, um amor grandioso que fazia o meu coração pulsar  firme, meus olhos se enchiam de água para olhá-la, eram as lágrimas limpando a minha visão para vê-la com nitidez. Olhar para ela era limpar a vista, tava enamorado de Jurema Preta. Ela também gostava de mim. 

Quando eu me aproximava, o corpo dela pulsava e soltava um cheiro tão cheiroso, tão doce que molhava o ar. E não teve jeito, juntamos  nossas redes! Nosso amor era delicado e intenso, tive muita sorte ao me perder, pois me encontrei nos braços da minha Jureminha, ela beijava todas as minhas cicatrizes dos  açoites, adorava ouvir minha história de como consegui fugir, disfarçado de boi, era uma mulher que eu merecia e compensava toda falta de amor da vida dura que tinha tido.  

O sequestro de Jurema e o silêncio dos homens

Maria conviveu muito pouco com a mãe. Até os seis anos. Um dia, sua mãe, com  outra mulher do Kilombo/Aldeya foram para a roça plantar jambu entre as manivas, e ela  nunca mais voltou. Alguns contavam que, por sua beleza, foi levada por homens exóticos de pele muito clara, com roupas inusitadas sem cores. 

A amiga de Jurema, ao ver os sons de tiro, correu para se esconder. Não era a primeira vez que esses homens tentavam levar  uma mulher da Kilombo/Aldeya.  Jurema também correu, mas os cachorros a alcançaram. Jurema, mesmo muito machucada pelos caninos, lutava para escapar. Infelizmente  foi imobilizada.

O Kilombo/Aldeya tentou resgatar Jurema, mas os homens estavam muito  longe com seus cavalos e com suas armas de fogo, não alcançamos.  Maria passou então a ser criada por sua avó materna, que nunca superou o sequestro da  filha e se tornou amargurada. Até o benzimento passou a negar. Dizia que sua mãe do  corpo morreu no mesmo dia que levaram a sua filha para ninguém sabe onde. Dizia que as mordidas de cachorros que Jurema levou doíam nela.

O pai, Mansa Musa,  passou a dizer que seu nome era José, se jogou no álcool. Não aguentava ficar sóbrio e não ter Jurema ao seu lado. Nunca se perdoou por não ter conseguido resgatar a sua  companheira. Contam que ele se embrenhava nas matas todas as noites na esperança de  encontrar Jurema.  

O corpo como primeira morada

Os missionários sempre traziam pessoas de fora e arrumavam os casamentos. Diziam ter o poder de Deus, e com isso tudo podiam. Quem não aceitava era expulso da  Kilombo/Aldeya. Também não aprendia a ler nem a escrever. Era melhor aceitar a  chamada generosidade dos padres, porque sempre podia ser pior. 

Às vezes os casamentos até davam certo, quando o homem era bom, o que era raríssimo. E ainda não deixavam que se casassem entre si. Sempre empurravam os casamentos com colonos ou gente da  cidade, como se quisessem se livrar dos afro-indígenas aos poucos.  

As mulheres da comunidade ainda falavam da mãe dela. Lembravam do que gostava, do  cuidado que tinha com o próprio corpo; Dizia que o corpo era a primeira morada. Gostava  de ver a pele cor de ouro, com fundo preto. Misturava babosa com urucum, passava no  corpo, deixava agir e depois se jogava no igarapé. Era ritual de cuidado e de amor próprio,  reconhecimento de si. 

Os padres diziam que cuidar do corpo afastava Deus, proibiam. Falavam que o tom avermelhado da pele não agradava, que Deus preferia as pessoas pálidas. Mesmo assim, ela fazia escondido. Não abria mão de ser quem era.  

Depois que a mãe foi sequestrada, ficou um vazio no mundo e no corpo da filha. Às vezes, ela também fazia escondido: misturava urucum com babosa, deixava agir no sol e lavava  depois. Fazia como quem chama, como quem tenta se aproximar, diziam que sua pele brilhava, ela respondia que não sabia porquê, mas sabia. Era lembrança da mãe.  

Ela, às vezes, se perguntava o porquê de Deus não gostar de quem eram. Por que parecia  gostar só de gente de fora? Pensava no problema de lavar o corpo, de fazer um carinho nele. Como se o corpo não sentisse, como se não precisasse de cuidado.  

As mulheres da Kilombo/Aldeya iam perdendo cabelo e, junto com o cabelo, iam ficando  tristes. A tristeza também cai da cabeça da gente, escorre pelo corpo e se espalha devagar.  Imagina não poder juntar a rede com quem se gosta — e pior ainda, não poder separar a  rede de quem não se gosta.

Antes dos padres, amarravam e desamarravam conforme o  sentir mandava, era o corpo que avisava. Agora havia regra, culpa e medo. Um Deus que  vigiava o corpo como se ele não fosse morada, como se não fosse delas.  

O peso do nome

Ela era fruto de um amor bonito e, ainda assim, cresceu sem amor nenhum. O pai não conseguiu enxergar além do próprio sofrimento. Poderia ter cuidado dela, devolvido amor ao que restou da mãe. Mas os homens, dizia-se, viam primeiro a si mesmos. Ela não foi deixada à própria sorte: sua sorte ficou nas mãos dos missionários — e eles não davam  sorte a ninguém.  

Aos dezesseis anos, um homem pediu sua mão em casamento. Se pudesse, teria dado só a mão e ficado com o resto do corpo. Ele era alto, dizia-se educado, a pele quase sem cor, um branco ralo, sem sol, sem vida. Falava pouco, com palavras curtas e secas, o silêncio  pesava mais que a fala.  

Casaram. Depois do casamento, ele levou ela para o mato, enquanto ele se esbaldava, ela se estranhava. Ficou parada por um instante e depois foi para o rio, onde preparou um extrato de juá bem grosso, deixou espumar e esfregou o corpo, primeiro devagar, depois  com força, como se pudesse arrancar aquilo de dentro. Ele sumia por semanas. Diziam que tinha outra família. Ela pedia em silêncio para que não voltasse. A ausência doía menos que a presença.  

Maria das Dores dizia:  

A doença passou pelo Kilombo/Aldeya como vento ruim. A rasga-mortalha pousava todos os dias sobre a minha casa. Quando eu voltava do cemitério, outro filho já estava ardendo em febre, com o corpo coberto de feridas. Eu corria para a mata e trazia folhas de  bananeira verdes de novas, um verde claro e estendia no chão para as crianças se deitarem. As folhas frias aliviavam a coceira, acalmavam a dor. 

Em uma semana, perdi cinco filhos,  não houve velório. Sozinha, com minhas próprias mãos, cavei e enterrei cada um deles. A terra ainda estava quente quando eu voltava para casa. Não pude ficar de luto, os cinco que sobreviveram precisavam de mim, precisavam do caribé, feito de farinha fina, bem  fervido, e das folhas de bananeira que eu escolhia com cuidado. Foi assim que  sobreviveram Benedito, Raimundo, Maria Evangelista, João e Maria do Livramento. 

Outras mães não tiveram a mesma sorte. Dona Beneca perdeu todos os dez filhos. O igarapé Castanhal ficou pequeno para tanta morte de criança. Mesmo assim, mesmo cercada de dor, de enterro, de cuidado com os moribundos, as surras não cessaram. O homem seguia frio, calado, violento, batia e se afastava, como se nada tivesse acontecido. Foi ali, no meio da morte e da violência, que eu entendi o peso do meu nome. 

Shirlene Santos é Doutoranda em Sociologia e Antropologia pela UFPA, Mestra em Educação Profissional e Tecnológica-PROFEPT, Bacharela e licenciada plena em Ciências Sociais-UFPA. Professora da rede estadual do Ceará. Sob o nome poético Arara Cantadeira, é versadeira da Amazônia e mulher de terreiro.

Arte: Fabrício Vinhas
Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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