Mulheres indígenas no poder: quando luto é verbo e resistir não é escolha

Protagonismo indígena está em mulheres como Célia Xakriabá, Juma Xipaia, Txai Suruí e Samela Sateré-Mawé. - Foto: Marcos Colón / Amazônia Latitude

No momento em que os olhos do mundo se voltam à tragédia humanitária e sanitária vivida pelos yanomami (570 crianças de até cinco anos de idade morreram de fome e falta de cuidados nos últimos quatro anos por descaso do Estado), é tempo também de celebrar a vida, a resistência de 523 anos e uma nova página da nossa história que começa a ser escrita com a pena dos cocares da mulheres originárias.

Pela primeira vez no Brasil, duas mulheres indígenas foram eleitas para ocupar cargos no Congresso Nacional. Célia Xakriabá (Psol-MG) e Sônia Guajajara (Psol-SP) chegam juntas à Câmara dos Deputados, espaço majoritariamente branco e masculino, para inaugurar também a primeira Bancada do Cocar.

O caminho foi aberto em 2018 por Joênia Wapichana (Rede-RO), a primeira mulher indígena a chegar ao Parlamento, mas começou a ser traçado muito antes, no chão das aldeias em lutas diárias por voz e representação.

Célia Xakriabá (Psol-MG) e Sônia Guajajara (Psol-SP) – Foto: Alessandra Roscoe

Combate à violência de gênero nas aldeias

As três foram empossadas nos últimos dias – além das parlamentares, Joênia assumiu a Presidência da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), que nunca havia sido comandada por um originário. Elas chegam com a força da ancestralidade e com inúmeros desafios pela frente.

Historicamente as mulheres indígenas (crianças, jovens e anciãs) enfrentam as mais diversas violências de gênero. Das coloniais e patriarcais, às psicológicas, físicas e sexuais.

O combate à violência de gênero dentro das aldeias é uma das bandeiras de luta.

Organização do movimento das mulheres indígenas

Para garantir esses espaços, elas se juntam, se organizam, como fizeram nas duas grandes Marchas de Mulheres Indígenas (2019 e 2021) e nos Acampamentos Terra Livre. Como fazem agora na pré-marcha que reuniu em Brasília mais de 150 lideranças indígenas femininas de todo o país para traçar as estratégias do movimento, marcado para setembro deste ano.

Vieram discutir, reivindicar e elaborar propostas, mas vieram também testemunhar a posse das parentas – que consideram uma posse ancestral.

Mulheres indígenas protestam em Brasilia, 2019 – Foto: Amazonia Latitude

Mulheres indígenas protagonistas de suas histórias

Com rezas e ervas, no ritmo dos maracás, no entoar das vozes, no rodar dos corpos pintados de jenipapo e urucum, ornados com as cores das penas e das miçangas, a chegança veio de muito antes –como tudo na trajetória delas, que há séculos tentam fazer com que suas vozes e seus gritos sejam escutados.

Célia Xakriabá, Sônia Guajajara e Joênia Wapichana não chegam ao coração político do País sem trazer consigo cada um dos corpos tombados em seus territórios. Segundo dados da Pastoral da Terra, 40 lideranças indígenas foram assassinadas em conflitos por terra só nos último quatro anos.

Essas mulheres guerreiras seguram o céu acima de nossas cabeças, mantêm o que resta das florestas de pé, mesmo diante do descaso do Estado. Isso porque são mulheres-semente, mulheres-onça que não se intimidam e que sempre estiveram prontas para assumir o protagonismo de suas histórias.

Conquista histórica

Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara comemora, mas sabe que a luta seguirá sem trégua.

Vivemos um momento de muita alegria, mas não podemos esquecer das tragédias que nos assolam. Só em janeiro foram três assassinatos e duas tentativas no meu território. E é por isso também que tenho coragem de seguir e dizer que a gente nunca chegou sozinha, porque ninguém chega sozinho, e a violência contra nossos povos vai continuar.
Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas

No Congresso, a deputada Célia Xakriabá promete reflorestar mais do que mentes e comportamentos.

Quando nos negaram o microfone no Congresso Nacional, nós cantamos todas juntas do lado de fora. Somos semente e não mulheres somente. Chegamos ao Congresso eu e Sônia, a bancada do cocar, mas levamos com a gente mais de 900 mil indígenas. […] Temos um pé no chão da aldeia e outro do lado de cá, porque nós somos o Brasil que resiste. Antes do Brasil da coroa, existe o Brasil do Cocar.
Célia Xakriabá, deputada federal

Ao lado de Sônia e Célia, no dia da posse, outras ministras se fizeram presentes e falaram também da importância do que estavam testemunhando.

‘Ser ouvida na casa dos surdos’

Para Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ter Célia no parlamento, Sônia na Esplanada e Joênia na Funai é a sinalização de que se inicia o tempo de reparar séculos de apagamento dos povos indígenas, assim como do povo preto. “Agora nós estamos aqui para abrir portas e não mais entrarmos por frestas”, disse a ministra.

Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, citou Célia Xakriabá para lembrar que, naquela casa de surdos, as mulheres indígenas de agora em diante serão ouvidas.

Outra que celebrou o feito das novas parlamentares foi Margareth Menezes, ministra da Cultura. Ela lembrou que dar voz e vez aos povos originários com um ministério é um direito ancestral e que veio pra ficar.

Txai Surui, jovem liderança da Amazônia, única brasileira a ter voz no salão principal na COP-26, acredita que este é o tempo de esperançar, “de parar de resistir um pouco para poder começar a sonhar, porque a gente merece sonhar também e começar a construir”.

Ativista indígena Txai Suruí – Foto: Marcos Colón / Amazônia Latitude

Alessandra Roscoe é jornalista, escritora e coordena o Uniduniler –projeto de mediação de leitura que desde 2013 percorre o Brasil levando livros e afetos onde nem sempre eles chegam. Mineira de Uberaba, vive em Brasília com o marido e os três filhos. Autora de mais de 40 livros para a infância, tem obras traduzidas em outros países e adaptada para o cinema. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2013.
Este texto não reflete, necessariamente, o posicionamento da Amazônia Latitude.
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