Fé amolada: o Círio de Nazaré como trincheira política e ancestral
Reunindo 2,3 milhões de fiéis no epicentro de um Brasil polarizado, a 234ª edição da maior procissão do país revela a força da cultura cabocla e ribeirinha contra os apagamentos coloniais

Na 234ª edição do Círio, a grandiosidade institucional cruza com a urgência das ruas, revelando a fé popular como
trincheira viva de resistência e soberania da identidade amazônida. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.
No último dia 11 de outubro, cerca de 2,3 milhões de pessoas se reuniram na procissão principal do Círio de Nazaré, realizado em Belém do Pará. A maior manifestação religiosa e católica do Brasil acontece em meio a uma acirrada disputa eleitoral presidencial, que pode definir novas rotas para o destino da região apadrinhada pela Rainha da Amazônia.
Em sua 234ª edição, o Círio de Nazaré se ancorou em um complexo calendário de 14 romarias. Nesse momento histórico, a festividade, reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN desde 2004, e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2013, se apresenta, mais do que nunca, como um ato de resistência.
Afinal, quando um evento de massa da proporção do Círio, que reúne multidões multiculturais e se destaca como uma das maiores concentrações de público a céu aberto do mundo, ocorre no mesmo semestre de um processo eleitoral presidencial altamente polarizado, as fissuras e os discursos de intolerância encontram eco nas ruas. Esse contexto exige das manifestações populares um duplo papel: o de exercício de fé e o de trincheira de coesão social comunitária.
Contudo, reduzir o Círio ao escopo da fé institucionalizada é ignorar a sua espinha dorsal histórica. Longe de ser apenas uma imposição passiva da catequese colonial — que tentou converter o sagrado originário em heresia —, a maior procissão da Amazônia opera, na prática, como um vasto espaço de ressignificação anticolonial.
Nas margens dos rios e nas ruas de Belém, a cultura cabocla e ribeirinha preserva, sob o manto católico, as matrizes ancestrais da relação com a terra e com as divindades femininas da natureza. O andor é, simultaneamente, o reflexo da liturgia oficial e o altar improvisado de uma espiritualidade popular que resiste aos apagamentos seculares. Não à toa, Nossa Senhora de Nazaré é reconhecida como protetora dos navegantes e das gentes das águas e das florestas.
Porakê Munduruku, autor do livro Por um estar no mundo originário (Editora Saberes da Mata, 2024), contextualiza que as memórias e resistência dos povos originários explicam a popularidade dos Círios na Amazônia:
No esforço para preservar o que podíamos de nossas culturas originárias, buscamos adaptar e resignificar esses ensinamentos através de símbolos cristãos […] O Círio de Belém é o maior deles, mas não é o único, nem sequer o mais antigo. Há o Círio de Vigia, o mais antigo da Amazônia, mas há também o Círio da Conceição em Manaus e Santarém, o Círio de Normandia em Roraima, o Círio de Porto Velho em Rondônia e o Círio de Macapá no Amapá. E, ainda que, o Círio mais antigo registrado no Brasil seja o de Saquarema, no Rio de Janeiro, é importante ressaltar que tanto Saquarema quanto Vigia são territórios ancestrais do Povo Tupinambá. O que não é por acaso.”
Neste cenário de 2026, em que o avanço do autoritarismo e a polarização tencionam o tecido social brasileiro, o Círio se sobressai como um espelho das contradições amazônicas.
É o momento em que a Amazônia urbana e a floresta profunda ocupam o espaço público. Longe de legitimar salvadores da pátria ou discursos de ódio, o Círio reafirma coletivamente a soberania de sua cultura, a força de sua identidade e a recusa radical ao esquecimento.
Esta fotogaleria de Oswaldo Forte é o registro visual de um povo que, entre a devoção e a urgência política do presente, transforma as ruas em um território intransigível de memória, afeto e resistência democrática.

A imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré brilha no altar da Basílica Santuário. O cenário iluminado marca o início e o refúgio espiritual para a grande demonstração de amor e fé do povo amazônida. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Erguida na escuridão da noite, a imagem sagrada brilha como um farol de esperança, cercada por mãos estendidas, flashes e corações que se elevam na penumbra. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Um mar de mãos erguidas, telemóveis e olhares marejados busca tocar a Berlinda, num instante em que a multidão e a fé se tornam uma só força nas ruas de Belém. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Na penumbra da madrugada, um grupo de romeiros caminha em fila pelo acostamento, com os passos iluminados apenas pelos faróis distantes e pela fé que os guia na longa jornada para Ananindeua. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Diante do Mercado de São Brás, iluminado para a festa, uma romeira se ajoelha sobre uma esteira, amparada e preparada para o pagamento de sua promessa com o auxílio de familiares.Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Uma romeira, com os joelhos e mãos protegidos por curativos, rasteja sobre papelões no asfalto. Em suas mãos, um terço e uma placa com um pedido comovente a Nossa Senhora de Nazaré pelo filho. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Nas cores e na simplicidade das bancas de rua, as fitas coloridas balançam ao vento carregando os pedidos, as promessas e a esperança de cada romeiro que passa. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Fieis sustentam sustentar a imagem peregrina e sua grandiosa coroa de flores vermelhas e orquídeas, num instante de intensa comunhão e esforço coletivo diante da fachada histórica da Basílica Santuário. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Romeiro é amparado e carregado com cuidado por membros da segurança e da Guarda de Nazaré, traduzindo o esforço físico que acompanha a fé. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

O auge da devoção e o limite do corpo: romeiro é carregado pelos próprios fiéis, com o rosto tomado pela dor e pela emoção, em um mar de gente que testemunha o sacrifício da promessa. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Unidos corpo a corpo e banhados pelo suor, devotos fecham uma corrente de proteção e acolhimento mútuo, encontrando na força coletiva o amparo para seguir na procissão. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Celulares erguidos formam uma nova paisagem na multidão, onde cada devoto se torna um repórter da fé, tentando eternizar o instante em que a procissão se aproxima. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

devoto ergue a imagem peregrina sobre os romeiros e mãos suplicantes. Pessoas de todas as idades participam do encontro íntimo entre o sagrado e a devoção popular. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Sob o arco monumental e em meio a uma imensidão de capacetes e motores, a Moto Romaria toma as ruas de Belém num ronco festivo, unindo a velocidade da cidade à cadência da fé. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

No coração da Trasladação, a fé veste-se de inclusão e afeto: o manto inspirado no símbolo da neurodiversidade, lembra que o Círio acolhe todas as lutas, cores e esperanças do povo. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Sob a arquitetura da Basílica e cercada por devotos , a imagem peregrina destaca-se em primeiro plano, abençoando a multidão reunida na solene apresentação do manto. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Na Baía do Guajará, navios da Marinha, lanchas e embarcações contornam a imensidão dos rios para conduzir a imagem sagrada em um cortejo que une a fé amazônida à força das águas. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

O traslado transforma a cidade em um imenso corredor de festa, onde o asfalto é tomado pela força da devoção e da alegria coletiva. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

A multidão se transforma em uma massa humana que segue a imagem peregrina. A foto captura a densidade, a emoção e a escala monumental da maior festa religiosa do Pará. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.

Devoto em sua bicicleta customizada, transformada em um andor móvel com uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Oswaldo Forte/Amazônia Latitude.
Fotografias: Oswaldo Forte
Texto, edição, montagem da página e finalização: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
