Utopias Amazônicas #11 | Carlos Nobre — A Amazônia viva
À margem do colapso climático, o episódio de encerramento da série discute como a floresta em pé e a ciência dos povos originários apontam a verdadeira rota de salvação

Carlos Nobre destrincha o conceito do “Ponto de Não Retorno”, alerta sobre os riscos da degradação e aposta na sociobioeconomia e na
ciência dos povos originários como a verdadeira rota de salvação para a floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O LatitudeCast, “Utopias Amazônicas: Conversa com os Autores”, chega ao seu episódio de encerramento com um convidado muito especial, o professor Carlos Nobre.
Há um número que ronda a obra de Carlos Nobre há quase uma década: 20% a 25%. É o percentual de desmatamento que, somado ao aumento de 2,5 graus na temperatura global, pode levar a Amazônia a um ponto sem volta. Um colapso que transformaria a floresta tropical em savana degradada de forma irreversível. Esse conceito do “ponto de não retorno” mudou para sempre a forma como cientistas, governos e o público entendem o que está em jogo na floresta.
Mas o capítulo que fecha o livro Utopias Amazônicas não é sobre o colapso; é sobre o caminho contrário. O professor Carlos Nobre, junto com as pesquisadoras Júlia Arieira e Natália Nascimento, escreve sobre a Amazônia Viva, não como metáfora, mas como a floresta entendida como um organismo vivo, que só sobrevive de pé se estiver conectada com seus rios, fluidos e limpos.
O capítulo propõe cinco caminhos concretos para essa utopia: da restauração de ecossistemas à bioeconomia, da demarcação de territórios indígenas à governança local. Tudo isso não é um sonho distante. É, nas palavras dos próprios autores, uma realidade possível.
Doutor em Meteorologia pelo MIT, engenheiro eletrônico pelo ITA, ex-pesquisador do INPA e do INPE, criador do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres, o professor Carlos Nobre é autor do conceito que redefiniu o debate sobre a Amazônia no mundo. Hoje pesquisador e colaborador do Instituto de Estudos Avançados da USP, ele traz para esta conversa não apenas o diagnóstico, mas a aposta de que a catástrofe ainda pode ser evitada. Professor Carlos Nobre, seja muito bem-vindo ao LatitudeCast.
Ouça a entrevista completa:
AL: Eu queria começar esta conversa partindo desse termo que o senhor cunhou, o conceito do Ponto de Não Retorno, lá em 2016, com um limiar entre 20% e 25% de desmatamento. Acelerando aqui quase 10 anos depois, com o desmatamento acumulado já passando de 17% e a degradação florestal alcançando outros pontos percentuais, ainda estamos do lado seguro dessa linha, ou o senhor acha que já cruzamos ela sem talvez perceber?
CN: Do meu ponto de vista científico, nós ainda não cruzamos o Ponto de Não Retorno. Se cruzarmos, aí a floresta vai se autodegradando, e os estudos indicam que em 30 a 50 anos nós perderíamos no mínimo 70% da Floresta Amazônica.
Só 30% permaneceriam ali ao longo dos anos, porque a Floresta Amazônica está numa região que chove muito, de 3 a 5 metros de chuva por ano. Então, mesmo diminuindo a chuva, mantém-se a floresta. Mas o resto — toda a parte da planície da Amazônia Central, Sul e Leste — se autodegradaria. Está bem na beira do Ponto de Não Retorno, mas, no meu ponto de vista, ainda não atingimos.
Como você falou, aquele estudo que nós lançamos em 2016 mostrou que com um desmatamento entre 20% e 25% e o aquecimento global chegando a 2 graus, nós passaríamos do Ponto de Não Retorno. Um estudo recente publicado em março deste ano por autores muito bons fez o mesmo cálculo e também chegou a um desmatamento de 23% a 27%, com o aquecimento entre 1°C e 1,9°C também passaria. Nós estamos chegando a 1,5°C de aquecimento. A ciência mostra que até 2030 teremos atingido permanentemente 1,5°C de aquecimento.
E o desmatamento, em 17%, 18%… se a gente continuar com esse ritmo, até 2050 a gente passa do Ponto de Não Retorno, porque tudo leva a crer que podemos atingir um aquecimento global de 2°C a 2,5°C até 2050 e podemos passar de 25% de desmatamento, se continuarmos com o desmatamento.
Um outro estudo do qual faço parte, liderado pela grande cientista do INPE, Luciana Gatti — que desde 2010 mede os ciclos de carbono na Amazônia —, mostrou que o sudeste da Amazônia (ali no sul do Pará e norte de Mato Grosso), a floresta ali está na beira do Ponto de Não Retorno, porque a floresta já perde mais carbono do que remove da atmosfera.
Todos os biomas do mundo removem gás carbônico, cerca de 21% a 25% de tudo que a gente joga de gás carbônico, todos os biomas removem. Na década de 90, a floresta removia entre 1 e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico. Ela ainda remove, mas caiu muito; hoje está em 300, 400 milhões. E nessa parte sudeste da Amazônia virou fonte de carbono. Isso mostra que a Amazônia está muito próxima do Ponto de Não Retorno.
Então, nós precisamos imediatamente zerar os desmatamentos, a degradação e o fogo, e dar grande escala a projetos de restauração florestal, como este artigo apontou muito bem. Muitos países amazônicos estão indo nessa linha. O Brasil também lançou, na COP28, em novembro de 2023, o projeto Arco da Restauração.
Fui eu que levei essa ideia para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. E o BNDES lançou e agora busca recursos e convencimento para fazer a restauração de 24 milhões de hectares — 240 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho do estado de São Paulo. Isso já começou. Outros países amazônicos também começaram.
Então, isso é essencial, zerar o desmatamento, a degradação, o fogo, acelerar a escala de restauração, principalmente em todo o sul da Amazônia, essa área que está na beira do Ponto de Não Retorno. A estação seca já cresceu 4 a 5 semanas, uma semana por década, [ao longo de] 45 anos. A estação seca está 20 a 30% mais seca, menos chuva na estação seca, 2°C a 3°C mais quente. Essas soluções são essenciais para impedir o ponto de não retorno. É lógico, alguém, e nós propusemos isso também, criar o que nós chamamos uma sociobioeconomia de saudáveis florestas em pé e fluindo. O Brasil tem a maior biodiversidade do mundo, 18% a 20% de todas as espécies de flora e fauna do mundo, e nós quase não utilizamos na economia brasileira os produtos da biodiversidade.
Nós temos que aprender com os indígenas, com os quilombolas, com os ribeirinhos. Os indígenas chegaram na Amazônia [há] 13, 14 mil anos atrás e nunca destruíram a floresta. Desenvolveram a ciência indígena, domesticaram centenas de produtos da biodiversidade e desenvolveram o sistema agroflorestal. É uma produção de inúmeros produtos mantendo a floresta. Então, é isso que nós temos que fazer muito rapidamente. E também culturalmente, todos os brasileiros têm que começar a valorizar muito mais os produtos da biodiversidade sem desmatamentos.
AL: Professor, um dos aspectos importantes da bioeconomia que eu queria trazer aqui, já que o senhor mencionou, é o tempo da floresta. E no artigo, vocês propõem a bioeconomia de floresta em pé como alternativa ao extrativismo predatório, por exemplo. Mas o próprio açaí, que já foi um alimento de subsistência de culturas ribeirinhas, hoje vira cada vez mais uma monocultura, plantado em fileiras para atender a demanda global. Mas quando o tempo da mercadoria entra no território — e eu estou me referindo a esse tempo acelerado de ciclos curtos da exportação — de alguma forma, não acaba destruindo o próprio tempo de reprodução da floresta, que é um pouco mais lento?
CN: O modelo que nós defendemos é a sociobioeconomia de saudáveis florestas em pé e rios fluindo. Não é nada a ver, [é] zero desmatamento. O que se mostrou ali é que a produção no estado do Pará de açaí levou a monoculturas de açaí, e isso não pode acontecer. Até porque a produtividade do açaí lá da monocultura caiu muito, porque os polinizadores praticamente só existem dentro da floresta. Caiu bastante a produtividade, mas independente de cair ou não a produtividade, não tem nenhuma justificativa para desmatar.
Eu sempre digo, vamos de fato começar a trazer para toda a economia brasileira, da América do Sul e do mundo, os inúmeros produtos da biodiversidade. Com isso, há várias cooperativas. Há cooperativas ali na Amazônia brasileira que produzem mais de 50 produtos da biodiversidade, todos de dentro da floresta, sistemas agroflorestais que os indígenas desenvolveram.
E com isso, funciona, porque é uma enorme produtividade. Você tem uma média de 300, 350 árvores por hectare. Algumas dessas árvores produzem os produtos que têm valor econômico. Então, essa é a ideia. Mantém a floresta, sistemas agroflorestais, mas não fica num produto só. Começa a dar uma escala para ter dezenas, até centenas de produtos. E aí sim, como os indígenas criaram, [os] sistemas agroflorestais funcionam. Os indígenas utilizaram e utilizam mais de 2.300 produtos da biodiversidade da Amazônia, quase 1.500 plantas medicinais, 250 frutas, 350 óleos vegetais. E um estudo recente mostrou que dessas frutas, 26 delas não são só alimentos. Elas são essenciais para manter os indígenas com uma saúde muito positiva. Então, essa mudança cultural é um grande desafio que nós temos que vencer.
AL: No capítulo, vocês fazem uma pontuação muito importante quando dizem: “pensar em utopias para a Amazônia é pensar em rupturas com os modelos de desenvolvimento econômicos de infraestrutura e de uso de recursos naturais historicamente experimentados na região, é um exercício instigante e desafiador que nos força a mudar o modo de ver a Amazônia e os amazônidas, é o completo rompimento com antigos paradigmas que levaram gerações anteriores a considerar a riquíssima e única biodiversidade amazônica como o Inferno Verde”. No título do livro “Utopias Amazônicas”, e no próprio título desse capítulo que vocês assinam, Amazônia Viva: da Utopia à Realidade, temos aqui o eixo de utopias. Que utopias professor Carlos Nobre, nesse contexto que nós estamos falando aqui da Amazônia, ainda lhe dá esperança?
CN: Olha, eu tenho esperança porque, 500 anos depois que os europeus chegaram às Américas — eles trouxeram a cultura que eles tinham nos seus países europeus, trouxeram o gado, trouxeram vários outros produtos, e foram desmatando por séculos, primeiro a Mata Atlântica. E, infelizmente, quando começou a explosão dos desmatamentos na Amazônia, isso anos 70, já eram comunidades brasileiras, nós já tínhamos criado a independência em 1822 — 150 anos depois nos tornamos um país independente e não uma colônia portuguesa. Mas, ainda assim, culturalmente, ainda nós mantínhamos a cultura europeia daquele tempo, [de] não ver valor nos produtos, na nossa riquíssima biodiversidade, todos os biomas, e continuaram, sempre, expandindo cada vez mais aqueles produtos, como a pastagem para a pecuária. Então, o meu ponto de vista positivo agora é que, pela primeira vez, nós estamos valorizando mais os nossos biomas, a riquíssima biodiversidade, o conhecimento dos povos indígenas e outras comunidades locais.
Então, o meu otimismo vem [de] que, finalmente, e felizmente, nós estamos caminhando para essa mudança. Inclusive, nós temos que valorizar muito o sistema educacional dos jovens — Ensino Fundamental, Ensino Médio — para mostrar [que] isso é a riqueza do Brasil. A biodiversidade é a riqueza, a maior riqueza que um país tem no mundo. Então, vamos realmente (esse é o meu otimismo) mudarmos culturalmente tudo aqui no Brasil e realmente acelerarmos a criação da sociobioeconomia, mantendo todos os biomas e passando a fazer uma mega restauração florestal.
AL: Uma pergunta que eu não posso deixar de lhe fazer: no Japão, quando um tufão se aproxima, o alerta chega ao celular de cada cidadão com hora, intensidade e rotas previstas, e a população se prepara porque sabe que as previsões climáticas raramente erram. E a gente se volta para o Brasil onde, mesmo com um sistema de alerta que o senhor mesmo ajudou a construir, a resposta de gestores municipais, estaduais e federais continua sendo, muitas vezes: “ah, não vai ser assim, estão exagerando, é improvável que isso aconteça”. O que a gente percebe nesse processo é que o INPE, o INMET, já apontam para mais de 95% de possibilidade de um El Niño muito forte na segunda metade desse ano de 2026, com modelos sugeridos que podem ser comparáveis ao Super El Niño histórico de 82, 83, 97, 98, 2015, 2016. Diante do perigo, por que insistimos em fantasiar a realidade, mesmo quando a ciência fala tão alto? Até quando? Estamos mais preparados hoje do que estávamos em 2023, 2024, quando houve a pior seca na Amazônia? Ou vamos repetir os mesmos roteiros em escala talvez ainda maior?
CN: Me parece que estamos um pouco mais preparados. Ainda, a gente corre um risco com o setor da agricultura. Eles ainda são negacionistas de mudanças climáticas, e isso é no mundo inteiro. O setor econômico mais negacionista de mudanças climáticas no mundo é o setor de agricultura. Então, eles não querem tomar ações para proteger a produção agrícola em função de todos esses eventos climáticos extremos que o aquecimento global está batendo o recorde em todo o mundo. Por exemplo, a ciência, o CEMADEN e outros órgãos determinaram aquela mega seca no segundo semestre de 2023 e todo 2024 na Amazônia, [que] pegou uma parte do Cerrado e foi a pior safra de soja da história, e os agricultores não levaram muito a sério isso.
Mas eu julgo que, após aquele evento, agora eles vão prestar mais atenção. Essa é a minha expectativa, porque a ciência hoje já prevê muito bem esses eventos extremos de secas, ondas de calor, incêndios florestais e superchuvas, como foi no Rio Grande do Sul, em 2023, 2024. Então, vamos torcer [para] que o setor da agricultura agora deixe de ser tão negacionista como tem sido.
AL: No capítulo, vocês evocam o conceito andino do bom viver, o buen vivir, como base filosófica para a utopia amazônica. E chegar a essa conclusão de que a saída para a crise passa por uma cosmologia indígena milenar eleva o conhecimento indígena a um outro patamar. Professor, pode falar um pouco desse achado, dessa perspectiva indígena, como você mencionou no início da nossa conversa, da relevância de ouvirmos as cosmovisões, as perspectivas dos povos originários que já habitam há mais de 13 mil anos essa região?
CN: Olha, eu acho que, como eu falei, pela primeira vez, de fato, agora nos últimos anos, já se começa a valorizar mais os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos. São vários projetos de lei que os protegem, por exemplo, O projeto do BNDES, do Arco da Restauração, já está restaurando gratuitamente áreas desmatadas em territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos, áreas desmatadas não por eles, não, pelo crime, pelo crime organizado. Eles vão receber a restauração, então já começa a ter uma valorização cultural, social e também política e econômica dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e valorizar muito o conhecimento dessas comunidades. O meu otimismo é que a gente avance nessa direção e, lógico, aí tem um segundo risco grande, mas vamos torcer que isso não aconteça no Brasil, que é nas eleições democráticas não vamos eleger políticos negacionistas.
É um absurdo, com a crise mundial da mudança climática, nunca tivemos uma situação tão crítica, com tremendo risco, que se eleja políticos negacionistas como o presidente dos Estados Unidos, da Argentina e vários outros em todo o mundo democrático. Porque é inaceitável políticos que sejam negacionistas do risco enorme que as mudanças climáticas trazem para o planeta e trazem para nós também. Então, aqui no Brasil, eleições de outubro e novembro, independente da ideologia dos eleitores de centro, direita ou esquerda, não elejam políticos negacionistas.
AL: No capítulo, professor, vocês mencionam o período de 2004 a 2012, quando o desmatamento caiu mais de 80% como prova de que zerar o desmatamento é possível. Isso fica muito claro no capítulo que vocês assinam. Mas esse mesmo período, 2004-2012, também mostrou um rápido avanço desse poder, como a gente está falando aqui, político. Quando a vontade política muda, muda toda a política para a região. E aí eu acabo de regressar da Amazônia, estive ali na Tríplice Fronteira, Peru, Brasil e Colômbia, viajei por todo o Rio Javari. E a gente fica sempre se perguntando, no artigo vocês chamam de Amazônia Viva, o que impede que a Amazônia Viva, como a gente conhece, como o senhor conhece, fique nessa dependência de anos após anos de quem está no poder e não se torne, e finalmente faça uma política de estado para a região.
Como que o senhor observa esse momento, como a gente já mencionou aqui brevemente, [de] eleição, o que precisa ser verdadeiramente feito desde o ponto de vista, porque a gente sabe que as decisões são todas no amplo da política que revertem que podem ser revertidas. Mas, na sua perspectiva, professor, como conhecedor dessa dinâmica que a gente tem no país, como é que a gente pode avançar, digamos, para realmente ter uma política de proteção e de defesa desses territórios?
CN: Sem dúvida, o que nós observamos naquele ano, quando um governo não negacionista — ministra Marina Silva —, depois também, depois até de 2003 até 2016, quando a presidente Dilma foi eliminada, ali nós conseguimos, né? 2012 foi o menor desmatamento e até o período em que a presidente Dilma ficou, ainda não aumentou muito, não passou de 5 mil quilômetros quadrados. Mas, depois, foram políticos que sempre foram a favor do desmatamento, da expansão da agropecuária. E as eleições na Amazônia têm representado uma eleição de muitos governadores, prefeitos, senadores, deputados, federais, estaduais, muitos são populistas e muitos são negacionistas. Nós tivemos, na presidência anterior ao presidente Lula, um presidente totalmente negacionista, amigo direto do Trump etc.
Então, esse é um risco muito grande. Então, nós temos que capacitar muito os jovens para que, independente da ideologia política de centro, direita ou esquerda, não votem em políticos negacionistas, não votem. Porque isso é o que a gente chama de ecocídio, é um suicídio ecológico do planeta se a gente continuar elegendo esses políticos. Por exemplo, as emissões de gás de efeito estufa aumentaram 2,5% nos Estados Unidos no ano passado e continuam aumentando muito esse ano, aumentaram na Argentina também. Então é isso, nós temos que ter uma consciência de não eleger políticos negacionistas.
AL: Eu estou conversando aqui com o professor Carlos Nobre, que assina o artigo Amazônia Viva: da Utopia à Realidade Possível, junto com a Nathália Nascimento e a Júlia Arieira. Professor, o capítulo projeta mais de 2 milhões de empregos até 2030 com a bioeconomia de floresta em pé. São números muito otimistas, mas eu tenho que lhe perguntar — a gente tem uma competência aí, o agronegócio, a mineração ilegal, que geram também empregos e rendas imediatas hoje para milhões de famílias na região. Eu saí de Tabatinga, fui até Manaus, pelo Solimões, e você vê todas aquelas comunidades que dependem de um recurso que, digamos, no final do mês, até o dia 10, acaba a renda daquela população e ficam ali à mercê, de alguma forma. E essa projeção que o capítulo faz, que é muito importante, a pergunta que talvez eu queria trazer para o senhor é: como uma bioeconomia ainda em construção pode competir na prática com uma economia extrativista já tão consolidada e financeiramente poderosa como a mineração ilegal, como o agronegócio?
CN: Olha, também realizamos um estudo, e esse número é parte desses estudos, que mostram que a pecuária é de baixíssima produtividade na Amazônia e ela emprega somente de um a dois empregados por 100 hectares. A soja mecanizada, ela emprega de meio a um empregado por 100 hectares e o lucro máximo da pecuária é US$ 100 por hectare por ano. Da soja, no máximo US$ 300. Quando comparamos com várias cooperativas, os lucros das cooperativas são US$ 300 a US$ 700. Isso é um grande número. Tem algumas cooperativas que têm um lucro de mais de mil dólares por hectare por ano, mas na média de mais de 100 cooperativas, 300 a 700 [dólares]. E elas empregam 20 a 40 empregados por 100 hectares. E olha que boa notícia, os cooperados atingiram a classe média B, e os fornecedores ali, que moram nas comunidades e que fornecem os produtos da biodiversidade, essas cooperativas têm 1.800 até mais de 2.000, dos que levam os produtos da biodiversidade e eles atingiram a classe média C, enquanto os empregados da pecuária e da soja, eles são da classe média E e D, são paupérrimos.
As cooperativas empregam 20 vezes mais empregados [do] que a pecuária e a soja. Então, essa sociobioeconomia vai realmente transformar as populações amazônicas em populações de classe média, o que não é o caso hoje das populações rurais e de grande parte também das populações urbanas.
AL: Professor, o capítulo é riquíssimo em detalhes, em números, em informações e também em proposições. E o capítulo propõe caminhos. São cinco ações que o capítulo propõe de ecossistemas amazônicos protegidos e restaurados, a expansão estratégica de áreas protegidas e a transição de uma economia centrada em commodities, como a gente falou aqui, para uma bioeconomia de floresta em pé, de rios fluidos e saudáveis. E, claro, falando da conectividade ecológica e sociocultural da Amazônia. E, para finalizar, entre as propostas, esse compromisso local, regional e global pelo bem-viver de governança. Qual delas o senhor considera mais urgente agora, em 2026? E qual está mais distante de se tornar uma realidade no Brasil de hoje?
CN: Olha, é muito urgente que possamos conseguir zerar o desmatamento, a degradação e o fogo e dar uma grande escala para a restauração florestal. A Amazônia está tão perto do Ponto de Não Retorno que isso é essencial. Temos que fazer ontem. Então, isso é essencial. E, lógico, começarmos a fazer muitos investimentos para a sociobioeconomia e industrialização.
Eu, alguns anos atrás, criei o projeto Amazônia 4.0 e nós construímos um laboratório para industrializar o cacau e o cupuaçu para fazer chocolate e o chocolate do cupuaçu — cupulate. Já capacitamos cinco comunidades produtoras de cacau e de cupuaçu e a boa notícia, estamos finalizando a construção de uma biofábrica de chocolate para a comunidade indígena Paiter Suruí, a primeira comunidade indígena da história da Amazônia que terá uma biofábrica. Eles sempre produziram cacau, mas vendiam a semente para a fábrica de chocolate. Agora eles vão produzir o chocolate.
Então, essa industrialização dos produtos da biodiversidade é essencial para transformar as populações amazônicas em classe média, e é isso. E vamos também construir agora um laboratório para a industrialização da castanha-do-brasil, e queremos dar escala para isso, e eu e o professor Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas, o INPA de Manaus — um grande cientista, o maior cientista do mundo sobre os peixes amazônicos —, nós estamos finalizando um estudo para criarmos na Amazônia um Instituto de Tecnologia da Amazônia. Como você até falou, eu fiz o ITA, depois eu fiz o MIT. Estamos na Amazônia, Pan-Amazônica, em toda a Amazônia, um Instituto de Tecnologia da Amazônia, que vai capacitar mais de mil estudantes por ano para isso, para salvar a floresta, para proteger, para restaurar, para fazer a nova sociobioeconomia. E durante a COP30 lançamos o estudo Saberes, que nesse Instituto de Tecnologia da Amazônia, nós queremos trazer para dentro professores indígenas, quilombolas, ribeirinhos, que vão trazer para dentro do Instituto o seu conhecimento que sempre manteve a floresta em pé.
AL: No capítulo, o senhor termina falando sobre um tema que, eu diria que é uma exigência que parece simples, mas que na prática é um pouco mais difícil de cumprir. Vocês falam que os povos tradicionais, ribeirinhos, indígenas, têm o poder real de decisão. Não consulta protocolar, não audiência pública que ninguém ouve, mas voz de peso, com peso. E aí vocês mencionam o movimento dos atingidos por barragens que existe há décadas na região. Os povos Munduruku, por exemplo, foram às ruas contra a hidrelétrica no Tapajós. Na época ganharam a batalha jurídica. Mas, ainda assim, os mecanismos de consulta seguem sendo descumpridos, contornados, às vezes esvaziados. Quando o senhor fala da Amazônia viva, em utopia possível, em realidade alcançável através da bioeconomia, essa realidade inclui de verdade que um ribeirinho do Tapajós ou uma liderança lá do povo Munduruku tenha o mesmo peso de decisão que um ministro em Brasília ou um executivo de uma mineradora em São Paulo. E aí como o título do livro chama-se Utopias Amazônicas, essa parte da utopia ainda tem endereço?
CN: Nós temos sim, todos nós vamos juntos, realmente. Parabéns por esse esforço também, além do livro. É a comunicação, nós temos que comunicar como salvar a Amazônia, salvar todos os biomas brasileiros e vamos nessa direção.
Eu sou otimista que as novas gerações, os jovens, eles estão cada vez mais preocupados com a emergência climática, e também com a perda dos nossos biomas. Vamos de fato capacitá-los a criar todas as soluções, inclusive o meu sonho, a sociobioconomia de floresta em pé e rios fluindo para todos os nossos biomas no país com a maior biodiversidade do mundo.
AL: Professor Carlos Nobre, muito obrigado por essa conversa.
A Amazônia não pede para ser salva, pede para ser deixada inteira. Suas florestas de pé, seus rios soltos, seus povos com poder de decisão, sobre o próprio destino. O professor Carlos Nobre passou a carreira inteira medindo a distância entre o colapso e essas possibilidades.
E mesmo diante de um El Niño que pode ser o mais severo em quase 150 anos, ele ainda escolhe chamar isso de utopia possível, não impossível. Talvez essa seja a diferença entre quem apenas mede a catástrofe e quem ainda acredita que pode evitá-la.
Esse foi o último episódio do LatitudeCast da nossa série especial Utopias Amazônicas – Conversa com os Autores. Para ler esse capítulo completo dos professores Carlos Nobre, Júlia Arieira e Nathália Nascimento, basta adquirir o livro Utopias Amazônicas lançado pela Ateliê Editorial.
Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
