Pássaros Juninos: uma contribuição indígena para a cultura popular na Amazônia
A resistência indígena que subverteu as pastorinhas jesuítas e fundou o teatro popular dos cordões de bicho e do boi-bumbá na Amazônia

O voo livre da cena amazônica: os Pássaros Juninos preservam na dramaturgia de rua a cosmologia indígena e o poder
simbólico da fauna nativa. Foto: Jader Paes/Agência Belém.
O Cordão de Pássaro é uma manifestação cultural reconhecida como patrimônio imaterial do Estado do Pará. Trata-se de um dos subgêneros mais conhecidos e aclamados dos cordões de bichos, um gênero de teatro popular criado e desenvolvido na Amazônia Brasileira, do qual também derivam outras manifestações culturais contemporâneas, como o boi-bumbá e os grandes festivais de Parintins, Juruti e Alter do Chão.
Tradicionalmente, o Cordão de Bichos reúne brincantes para encenar uma apresentação nas ruas, com uma trama baseada na seguinte estrutura básica: 1. alguém mata (ou fere) um animal; 2. o infrator é preso e levado até o dono do animal; 3. o dono promete perdoar o infrator se ele ressuscitar (ou curar) o animal; 4. o infrator encontra um personagem mágico que ressuscita (ou cura) o animal para redimi-lo pelo seu crime.

Elenco de Pássaro Junino reúne personagens da nobreza cabocla, figuras indígenas e tipos populares durante mostra cultural em Belém. Foto: Fernando Sette/Comus/Agência Belém.
Dentro do gênero do Cordão de Bichos, os subgêneros mais populares são o Boi-Bumbá, que se espalhou para o Nordeste a partir do Maranhão; e o Pássaro Junino, que se tornou característico da cultura popular do Pará.
Os Cordões de Bicho surgiram no Grão-Pará e Maranhão (que costumava abarcar toda a Amazônia Brasileira, incluindo o Maranhão), a partir das Pastorinhas, um teatro de catequese relacionado às celebrações natalinas, criado pelos missionários jesuítas.
Ainda no século XVI, as Pastorinhas já encenavam uma jornada até a manjedoura para celebrar o nascimento de Jesus, onde era representada a disputa entre dois cordões de pastores, um azul (representando valores associados ao manto de Nossa Senhora) e outro vermelho (representando os valores associados ao sangue de Cristo).
Tais encenações buscavam transmitir mensagens cristãs ao público predominantemente analfabeto das igrejas, a partir da oralidade e da experiência artística.
Os Cordões de Pastorinhas (azul e vermelho) disputam a preferência do público com apresentações que combinam música, dança e poesia. Essa disputa era uma forma de as igrejas arrecadarem donativos, uma vez que o público era incentivado a comprar votos para seu cordão de preferência, vencendo o cordão que vendesse a maior quantidade de votos.
Paulatinamente, as Pastorinhas com teor mais religioso foram dando lugar a encenações mais focadas no humor, nas sátiras e nas críticas sociais, que culminaram no “Pastoril Profano” ou “de Ponta de Rua”, que passou a ocupar praças públicas, pois já não era bem-vindo em espaços como igrejas ou salões paroquiais.
Tais Pastoris Profanos, apresentados nas ruas e nas residências, ainda cobravam por suas apresentações, mas os recursos arrecadados passaram a ser direcionados aos próprios brincantes dos cordões.
Assim, como uma variação desses Pastoris de Ponta de Rua, surgiram no isolado Grão-Pará esses Cordões insurgentes, que eventualmente substituíram o dualismo azul e vermelho tradicional por um leque quase infinito de bichos da fauna local, passando a ocupar a quadra junina.
O calendário das águas
Logo, as Pastorinhas já dominavam os finais de ano e os povos indígenas da região já tinham por tradição celebrar em junho o início do verão amazônico, uma época de fartura, na qual a pesca e a caça se tornam mais abundantes e o roçado nas várzeas volta a ser possível, com o recuo das águas dos rios que inundam a floresta durante o inverno.
Àquela altura, a celebração das Pastorinhas já havia sido incorporada ao calendário de diversas comunidades indígenas, devido à catequese cristã. A celebração já marcava um momento que sempre foi relevante no calendário indígena, o início do inverno amazônico em dezembro, com sua temporada de grandes chuvas e a subida das águas dos rios.
Assim, essas próprias populações indígenas criaram os cordões de bichos para passar a celebrar, também, o início do verão em junho, de forma muito mais livre, sem o rigor do controle das igrejas, que sempre estiveram muito mais associadas às Pastorinhas.
Dessa maneira, os Cordões de Bicho surgiram como resistência festiva às imposições eclesiais e manifestação de valorização de memórias ancestrais indígenas, como os tabus relacionados à caça e ao abate de animais silvestres, o simbolismo relacionado à fauna nativa e a reverência ao poder dos pajés e de entidades portadoras dos saberes da floresta.

O arquétipo do caçador: no auto do Cordão de Pássaro, o confronto com as regras da mata e o abate da ave desencadeiam o julgamento do infrator. Foto: Fernando Sette/Comus/Agência Belém.
O registro de Bates em Tefé
O relato mais antigo de um Cordão de Bichos de que se tem notícia foi feito pelo naturalista britânico Henry Walter Bates, em seu livro “O Naturalista no Rio Amazonas”, originalmente publicado em 1863, onde se lê:
Quanto aos índios, com exceção das famílias mais civilizadas, morando perto das grandes cidades, não demonstravam nenhum sentimento religioso. Eles têm o seu patrono, São Tomé, e celebram seu aniversário de maneira pouco ortodoxa pois não são muito ciosos em observar todas as formalidades, mas acham que os festejos têm a mesma importância que as cerimônias da igreja. Em alguns dos festivais as mascaradas ocupam grande parte das festas e os índios realmente brilham nas mesmas. Fazem imitações dos animais selvagens, vestem-se para representar a caipora e outras criaturas fabulosas da floresta” (Bates, pag. 123-124).

Entidades místicas e seres fantásticos da mata compõem o universo dramático que ressuscita o pássaro ao final do auto. Foto: Fernando Sette/Comus/Agência Belém.
A narrativa refere-se a uma observação feita na cidade de Tefé, no atual estado do Amazonas. Deu-se em algum momento entre os anos de 1848 e 1859, um período espremido entre a sangrenta repressão à Cabanagem e o início do primeiro Ciclo da Borracha na região.
É interessante notar a referência a São Tomé, que evidencia o vínculo entre a catequese cristã e as encenações indígenas que deram origem aos cordões de bichos. Importante também considerar o fato de que os jesuítas atribuíam ao santo uma íntima relação com os povos indígenas.
Ressalta-se, também, o destaque que Bates atribui aos indígenas nestas celebrações, o que atesta a decisiva contribuição indígena para a origem dessa manifestação cultural. Tal vínculo é o que pode explicar, de maneira satisfatória, por que os pássaros e o boi eventualmente se tornaram a forma predominante dos Cordões de Bichos.
Plumas e revoadas
Afinal, os pássaros sempre ocuparam uma posição central em diversas cosmovivências indígenas. Isso se reflete não apenas em elementos da indumentária tradicional de diversos povos, como os cocares, mas também em narrativas ancestrais sobre mortos que retornam à vida como pássaros e pajés e ancestrais lendários que possuem a capacidade de assumir tais formas.
A revoada dos pássaros que chegavam à Região Amazônica vindos de latitudes mais ao Sul, onde o clima esfria nesta época do ano, sempre foi um fenômeno natural que prenuncia a chegada da estação em que o volume das chuvas diminui e o nível das águas dos rios recua. Esse fator foi decisivo para a associação entre a figura dos pássaros e a quadra junina, materializada nos Pássaros Juninos.

O voo no verão amazônico: a presença das aves no teatro popular reflete tanto a observação ecológica do recuo das chuvas quanto a ancestralidade indígena. Foto: Fernando Sette/Comus/Agência Belém.
De M’boi a boi
Algo parecido pode ser dito em relação ao Boi, não o animal em si, pois a pecuária só passaria a ter relevância real na região no século XX, mas em relação à palavra. Afinal, M’boi em nheengatu quer dizer cobra, um animal especialmente emblemático nas diversas cosmovivências indígenas, frequentemente associado aos rios da região e seu regime sazonal de cheia e vazante, com a estação de subida das águas (Inverno Amazônico) iniciando em dezembro, marcada pela celebração das tradicionais Pastorinhas; e a estação de descida das águas (Verão Amazônico) iniciando em junho, por sua vez, marcada pela celebração dos Cordões de Bichos.
Foi apenas no final do século XIX, com o genocídio promovido pela repressão à Cabanagem e as grandes migrações e reformas locais, promovidas pelo início do primeiro Ciclo da Borracha, que o português superou o nheengatu como língua corrente na região. Teve, como efeito colateral inusitado, a transferência do poder simbólico do M’boi indígena para o boi, animal, devido à semelhança fonética entre os termos em nheengatu e em português.
Assim, o boi se tornou o foco em muitas celebrações profanas na quadra junina, como é possível constatar a partir do primeiríssimo relato de uma festa de boi em São Luís – MA. O registro consta em uma pequena nota do jornal Farol Maranhense, em 1829, o que localiza no território que originalmente esteve politicamente integrado ao Estado do Maranhão e Grão-Pará, ou seja, à Amazônia Brasileira, o mais antigo registro da celebração do Boi Bumbá.
Ao contrário da narrativa hegemônica, o Boi-Bumbá não foi introduzido na Amazônia pelos Imigrantes Nordestinos no contexto do Primeiro Ciclo da Borracha, que só iniciaria formalmente em 1879, mas, ao contrário, se disseminou pelo Nordeste a partir da Amazônia. Aliás, os territórios do Piauí e do Ceará chegaram inclusive a fazer parte do Estado do Maranhão e Grão-Pará, entre 1621 e 1656.
O intercâmbio de pessoas e saberes entre essas regiões é muito anterior ao “Ciclo da Borracha”. Concretizou-se não só através do fluxo de missionários jesuítas entre as duas regiões, como por meio de fluxos migratórios invisibilizados pela história oficial.
Um exemplo são as centenas de Tabajaras e Potiguaras que acompanharam os militares portugueses desde a costa nordestina para combater os Tupinambás e seus aliados franceses na ilha de Upaon-Açu, atual São Luís, ainda no início do século XVII.
Esses indígenas Tabajaras e Potiguaras retornaram à costa nordestina, onde foram recompensados com terras, prestígio e patentes, levando consigo também saberes e vivências que os acompanharam em suas andanças. Nós, indígenas, sempre produzimos e transmitimos cultura e ela nos acompanha onde quer que estejamos e apesar da pretensão de monopólio que reivindica o colonizador.
Muito além do Theatro da Paz

Nas mãos e nos corpos das novas gerações, os cordões populares mantêm acesa uma dramaturgia gestada longe dos palácios coloniais. Foto: Fernando Sette/Comus/Agência Belém.
Longe de serem meros folguedos ingênuos ou um arremedo periférico das peças refinadas que ocupavam os palcos da elite colonial — como o luxuoso Theatro da Paz —, os Cordões de Pássaro guardam uma profundidade estética e política única.
Sua gênese é substancialmente anterior à construção desses espaços elitistas e precede até mesmo o início do chamado “Fausto da Borracha”. Estes Cordões constituem-se, em verdade, como uma linguagem cênica de pleno direito, gestada e desenvolvida no coração das comunidades indígenas nos rincões da Amazônia.
Trata-se do fruto direto da resistência cultural contra a catequese colonial e da assimilação antropofágica das técnicas do teatro jesuítico do século XVI. Portanto, essa tradição não percorreu o caminho que a narrativa hegemônica costuma traçar: não nasceu nos palcos iluminados da elite para se espalhar passivamente pelo interior.
Ao contrário, emergiu da força viva e insubmissa das aldeias para exaltar a fauna local, resgatar memórias ancestrais, dar voz aos personagens e artistas indígenas e afirmar seus saberes.
Em sua essência, o Pássaro Junino é o voo livre de um povo que escapou do controle institucional do clero e rompeu o cativeiro estético-epistemológico das narrativas cristãs, fazendo da festa popular o seu palco definitivo de libertação.
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Porakê Munduruku é indígena em retomada no contexto urbano de Ananindeua, no Pará. É mombe’usara do povo Munduruku, membro da coordenação do Tekó (Coletivo de Artivismo Indígena da Região Metropolitana de Belém) e articulador no Pará da Kabiadip (Articulação Munduruku no Contexto Urbano). Assina o roteiro de projetos premiados, como o curta-metragem “Quem Quer?” (2025) – vencedor do Prêmio de Melhor Curta-metragem pelo Júri Popular da Mostra Competitiva As Amazonas do Cinema na 11ª Edição do Festival Pan-Amazônico de Cinema- e o jogo de educação ambiental “Gamezônia” (2023) – vencedor do Prêmio de Melhor Jogo Digital pelo Júri Popular do 46° Festival Guarnicê de Cinema. Foi um dos realizadores indígenas homenageados pela 1ª edição Festival de Cinema Tela Verde Samaúma e é autor do livro “Imuê’en: por um estar no mundo originário” (Editora Saberes da Mata, 2024). Possui uma trajetória reconhecida como Pesquisador, sendo membro associado do Instituto Plurinacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Indígenas (INPPEI), da PAVIC (Associação Nacional dos Pesquisadores de Audiovisual, Iconografia e Conteúdo) e da ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteirista).
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
