Corporeando: A Segunda Maria

Na segunda parte da crônica, mergulhamos na trajetória de Maria do Livramento, prova de como a ancestralidade e o território se tornam escudos vivos contra a violência e o apagamento.

O corpo-território de Maria do Livramento: onde a força do trapézio encontra o escudo das ervas sagradas e a resistência brota da terra seca. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O corpo-território de Maria do Livramento: onde a força do trapézio encontra o escudo das ervas sagradas e a resistência brota da terra seca. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
O corpo-território de Maria do Livramento: onde a força do trapézio encontra o escudo das ervas sagradas e a resistência brota da terra seca. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

O corpo-território de Maria do Livramento: onde a força do trapézio encontra o escudo das ervas sagradas e a resistência brota da terra seca.
Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Aqui começa a história da segunda Maria. Maria do Livramento, que sobreviveu à violência do pai e à crise de sarampo. Trabalhava com a produção de farinha d’água e era admirada por sua resistência – diziam que mexia 10 fornadas de farinha sem descanso, um feito extraordinário, que nem os homens conseguiam. – O cabelo vivia fazendo volta, volta e mais volta, parecia dança rodando. O corpo era que nem pilão, firme mesmo: cintura fina, ombro largo, quadril largo. O mais bonito nela eram as costas, dava gosto de ver, um trapézio marcado, as costas abertas, fortes, tudo no lugar, desenhando força.

Maria do Livramento não era igual às outras mulheres da Kilombo/Aldeya, não. Tinha nela uma força que aparecia sem esforço, sem delicadeza, andava ereta, inteira, parecia uma candace1A expressão Candace é derivada de uma palavra meroita que após o contato com os romanos, passou a significar Rainha Mãe (Lopes, 2024)., dona do próprio corpo, do próprio peso no mundo. Maria foi crescendo, se destacando na comunidade e ficando moça feita.

Dizia Maria do Livramento:

Um dia fui a um festejo de São Benedito, o santo Preto. Benedito, o santo preto, é um santo especial para nós, especial porque é preto e porque virou santo para fortalecer o nosso povo. Dizem que ele era um grande cozinheiro, desses que sabiam alimentar com cuidado e generosidade. Benedito cozinhava para os senhores de escravo, mas não se limitava a eles: levava comida escondido para quem precisava, porque não aceitava ver o povo com fome. Os senhores achavam isso errado, diziam que alimentar o povo era crime. Um dia pegaram Benedito com uma sacola cheia de comida, o levaram para a delegacia, certos de que ali estava a prova da culpa. Mas, quando abriram a sacola, não encontraram comida nenhuma, viram rosas. Foi milagre.

É por isso que a gente celebra São Benedito, o santo preto. Fazemos a festa da marujada, no dia 26 de dezembro. Vestimos vermelho, dançamos e cantamos para lembrar que alimentar o povo nunca foi pecado. O santo preto nos ensinou que cuidar dos nossos é também um jeito de resistir, e que a fé, quando é verdadeira, também se faz em alimentos.

Na festa, um rapaz bonito me chamou a atenção, tinha os cabelos encaracolados, soltos, a pele avermelhada como argila molhada e um sorriso que brilhava fácil. A gente passou a noite inteira se olhando, assim, sem palavra, só no encontro do olhar mesmo, como quem reconhece antes de conhecer.

Em certo momento, outro moço veio me tirar para dançar, meu pai olhou firme e me obrigou a aceitar, contra a minha vontade, eu dancei. O corpo seguia o ritmo, mas o pensamento não estava ali. Enquanto girava com aquele moço que eu não queria, meus olhos escapavam sozinhos, procuravam o rapaz dos cabelos compridos, dos ombros largos. Eu pensava que ele devia ter mãos firmes, daquelas que seguram com cuidado, e um cabelo macio, sedoso, brilhando de suor e alegria.

A cada volta da dança, meu olhar encontrava o dele. Era rápido, mas era suficiente, e ali, no meio da música, do toque dos tambores e da marujada rodando, eu já sabia: não era com quem eu dançava que eu queria estar. Era com aquele que me olhava de longe, como se dançasse comigo mesmo sem tocar, no passo miúdo e insistente da marujada.

Cada volta um pensamento, e se me beijasse? e se me desse um abraço? será que era cheiroso? será que ia gostar do meu beijo? Certeza que ia! pois os meu lábios são carnudos, e pessoas de lábios carnudos beijam bem, eu escutava as mulheres casadas comentarem no rio. Ele ia amar o meu beijo. A dança acabou e voltamos para casa sem graça, sem beijo, mas os pensamentos fervilhando.

A tapera seca e o gosto do sangue

No dia seguinte, o moço com quem eu tinha sido obrigada a dançar apareceu na porta da nossa casa pedindo a minha mão em casamento, eu não queria, não queria mesmo. Ele nem tinha nascido na comunidade, tinha chegado fazia pouco tempo, não gostava do trabalho na roça, não gostava de trabalho nenhum. Vivia de capturar passarinhos

silvestres, era passarinheiro, andava mais pelo mato do que pela terra plantada. Mas meu pai aceitou, aceitou fácil. O moço tinha a pele branca como a dele, e não era só a cor da pele que parecia aproximar os dois, tinham mais coisas em comum, coisas essas que eu só fui entender depois.

Eu senti, naquele dia, que tempos ruins estavam se anunciando na minha vida. Casei e fui morar longe da minha família, afastada de tudo, numa tapera sem fruto e sem plantação. A terra ao redor era dura, abandonada, como se já soubesse que ali não ia nascer nada, meu marido não gostava de trabalhar na terra. Foi ali, naquele lugar seco, que comecei a entender que a minha vida tinha sido arrancada de mim, passo por passo.

Passamos a brigar todos os dias. Ele me batia, e eu também batia de volta, mas eu sempre saía mais machucada. Era assim, todo dia tinha dor. Todo dia.

Se eu não tivesse feito a Primeira Eucaristia, tinha matado esse desgraçado, porque ele dormia bebinho, mas eu aprendi na catequese que não podia matar o marido, que era pecado, ia para o inferno, mesmo que em muitos momentos já estivesse no inferno. Será que existe um inferno maior que esse? Os padres passavam horas em seus ensinamentos, explicando e amedrontando as mulheres, diziam que se não obedecem aos maridos iam para o inferno, mas não faziam isso com os maridos que malinassem das mulheres, talvez porque os padres e os maridos fossem homens. Não sei bem, mas eu não o matei, vai que ia para o inferno? um pior que este. E sabia que depois de morta não dava para morrer de novo, e que para sair da morte ia ter que ficar no inferno.

Às vezes eu o mordia no meio da briga, era bom sentir o gosto de tirar sangue dele.

O segredo da mata e a andorinha que não veio

Quando nasceu minha primeira filha, a coisa ficou ainda mais doída. Meu marido passou a dizer que a criança não era filha dele, dizia que não podia ser, porque a menina tinha cor de terra, e ele não tinha aquela cor. Não sei de que cor se orgulhava tanto de ter, era encardido.

Cada filho que nascia virava motivo novo para a violência, ele inventava um defeito na criança, botava apelido feio, uma desculpa: a cor da pele, o formato do rosto, o cabelo, nada prestava aos olhos dele.

O sofrimento não era só meu, eu sofria pelos meus curumins, que também eram maltratados. Um dia ele levou o meu mais velho para caçar, deixou o menino de cinco anos responsável pela arapuca. Já no fim de tarde, quando varou sozinho, perguntei pelo curumim e ele disse que não sabia. Eu, com o bucho na goela, entrei na mata, gritando, chamando pelo menino, já nervosa que a dona onça tivesse chegado primeiro. Era noite sem lua e a mata à noite tem seus segredos. Eu me ajoelhei e encostei o ouvido no chão, para ver se escutava alguma coisa. Só conseguir ouvir o som do meu coração. Ouvi uma arara a fitar, olhei na direção que ela voou e fui indo, achei o meu menino dormindo do lado da arapuca desarmada, nunca ia pegar nada, o menino mesmo dormindo dizia que o seu pai havia falado que era para sair só quando pegasse uma andorinha.

Para que eles não crescessem no desamor, na frustração e na fome que rondava a tapera, eu fazia de tudo, pescava, plantava, colhia e tirava da terra e da água tudo o que dava para tirar.

Mas ele, sempre bêbado, trocava, vendia e gastava tudo o que havia em casa, nada ficava.

Um dia, criei coragem, coragem que nunca me faltou, só faltava a hora certa. Naquele dia, ouvi o canto da arara cantadeira, o mesmo som que eu escutava desde criança, e daquele canto me veio uma ideia. Eu só pensava nas minhas plantas que iam ficar, elas iam morrer sem ninguém para aguar. A Comigo Ninguém Pode tava tão verdinha, a Dinheiro em Penca então, pensa em uma planta afrontosa, a Juquri Manso, a Japana que era boa para banho. Os miúdos ficavam tão cheirosos quando banhavam com Japana.

Eu disse a elas que sentia muito em deixa–lás, eram minhas companheiras. Dizia: ‘obrigada pela ajuda por esses anos, mas temos que partir’. Juquiri até abriu as folhas e fechou como quem dá tchau.

Aproveitei que ele estava dormindo, caído de álcool, coloquei uma arruda fêmea atrás da orelha e escondi meus dois filhos na mata. Levei uma lata de farinha d’água e duas pencas de banana, ficamos ali a noite inteira, quietos, respirando baixo, esperando o tempo passar.

Quando amanheceu, saímos da mata e fomos para a beira da estrada pedir carona, uma senhora de cabelos todos brancos parou, vinha numa carroça. Ela nos deu carona e ainda repartiu uns beijus com as crianças. Eu nunca tinha visto uma mulher com a alma tão boa.

Usava um chapelão na cabeça, foi essa mulher que nos deixou na casa de minha mãe, Maria das Dores, e ali, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que talvez a vida pudesse recomeçar.

O colo da mãe e o silêncio dos homens

Minha mãe ficou feliz quando me viu, feliz daquele jeito apressado, sabe? Matou logo uma galinha pra dar comida pros netos, que estavam magrinhos demais, dava até dó. Era alegria misturada com susto, com pena, com amor correndo contra o tempo, ela me olhava e parecia que queria perguntar tanta coisa, mas não dava tempo.

Quando meu pai chegou no fim do dia e me viu ali, com as crianças, não teve conversa, não teve pergunta, não teve cuidado, mandou que eu voltasse com o marido, deixou só a gente pernoitar, não quis saber do que eu tinha passado, nem das marcas espalhadas no meu corpo, nem do medo quieto no olho dos meus filhos, só mandou voltar.

Mesmo assim, fiquei um dia e uma noite com a minha mãe, e meus curumins não foram humilhados. Minha mãe cuidou da gente, fez um escalda-pés com alecrim e manjericão. Os dedos da minha mãe, pretos e engelhados, massageando meus pés, era como se eu nunca tivesse sofrido nessa vida. Curou a minha espinhela caída. Aquilo deu uma pausa no sofrimento que os homens causam em nós. Entre as mulheres a gente se amava, a gente se segurava.

E eu voltei, mas não voltei a mesma, a gente voltou debaixo de um toró de chuva, daqueles que lava tudo. Na mata ou chove todo dia ou chove o dia todo. Em todos os dias a chuva cai às 15h30, e geralmente é rala. Mas nesse dia foi forte. Foi até bom, porque ninguém via minhas lágrimas, era tudo água misturada.

O traste não tava, o jambeiro tinha deixado a tapera toda rosa, o chão parecia um tapete, bonito e triste ao mesmo tempo. As plantas estavam assim também: felizes porque iam nos ajudar a viver, tristes porque iam nos ver sofrer. A natureza entende dessas coisas. A natureza é como a mulher, gera vida, ela sabe como é ter útero, ela não precisa da gente, não. É a gente que precisa dela. A vida sempre brota na natureza, às vezes até melhor sem gente nenhuma.

Depois disso, tive mais três filhos. Ao todo, somaram cinco. Eu pedia, muitas vezes, para que meus filhos virassem anjos ainda na barriga, porque nascer vivo, naquele mundo, era morrer e viver todo dia. O pior não era morrer de uma vez, o pior era viver para morrer de novo, um pouco a cada dia”.

Shirlene Santos é Doutoranda em Sociologia e Antropologia pela UFPA, Mestra em Educação Profissional e Tecnológica-PROFEPT, Bacharela e licenciada plena em Ciências Sociais-UFPA. Professora da rede estadual do Ceará. Sob o nome poético Arara Cantadeira, é versadeira da Amazônia e mulher de terreiro.

Arte: Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Você pode gostar...

Acesse gratuitamente

Deixe seu e-mail para receber gratuitamente a versão digital do livro e ampliar sua leitura crítica sobre a Amazônia e o Brasil.

Download Livro

Este conteúdo é parte do compromisso da Amazônia Latitude de tornar visíveis debates e pesquisas sobre a Amazônia e o Brasil. Continue explorando conteúdos no site e redes sociais e, se quiser fortalecer esse trabalho independente, considere apoiar via pix: amazonialatitude@gmail.com.

Translate »