Performando comensalidades e sociabilidades amazônidas: captura e virada de camarão

Uma leitura fotoetnográfica sobre os modos de habitar, os ritmos ambientais e as redes de parentesco no rio Araí

Da lida silenciosa no porto ao braseiro no quintal: o entrelaçamento entre as linhas de vida dos pescadores de Urumajó (PA) e os rituais de partilha que dão forma e sentido à comida cabocla. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Da lida silenciosa no porto ao braseiro no quintal: o entrelaçamento entre as linhas de vida dos pescadores de Urumajó (PA) e os rituais de partilha que dão forma e sentido à comida cabocla. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Da lida silenciosa no porto ao braseiro no quintal: o entrelaçamento entre as linhas de vida dos pescadores de Urumajó (PA) e os rituais de partilha que dão forma e sentido à comida cabocla. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Da lida silenciosa no porto ao braseiro no quintal: o entrelaçamento entre as linhas de vida dos pescadores de Urumajó (PA)
e os rituais de partilha que dão forma e sentido à comida cabocla. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Este ensaio insere-se no campo da etnofotografia como uma proposta de reflexão sensível e analítica sobre os modos de vida que se constroem em torno da pesca artesanal do camarão no rio Araí.

A partir de um recorte empírico situado na comunidade rural de Araí, no município de Urumajó, na Amazônia Atlântica paraense, o trabalho articula narrativas imagéticas e textuais para descrever práticas, saberes e sociabilidades que emergem da relação cotidiana entre pescadores, rio, marés e lua.

Trata-se, portanto, de um exercício de aprendizagem antropológica que reconhece a fotografia como recurso narrativo e epistemológico — não como representação de um mundo já dado, mas como participação em um mundo em formação.

O engajamento no campo de forças

À luz da chamada Virada Ontológica, e em particular das proposições de Tim Ingold (2015), este ensaio não toma a pesca como uma atividade exercida por sujeitos sobre objetos naturais. Antes, compreende-a como processo de coexistência, no qual pescadores, camarões, muruadas, marés e lua não preexistem como entidades isoladas que depois se relacionam, mas constituem-se mutuamente ao longo de linhas de vida que se entrelaçam. A pesca não é aplicação de técnica sobre matéria passiva; é engajamento em um campo de forças.

A pesca do camarão configura-se como atividade central na organização econômica, simbólica e social da comunidade, conferindo ao território o reconhecimento como “terra do camarão”. Contudo, sob a lente ingoldiana, mais do que atividade produtiva, ela aparece como modo de habitar.

As técnicas empregadas — muruadas fixas, muruadas móveis e o arrasto — não podem ser reduzidas a instrumentos externos aplicados a um meio natural. Elas são prolongamentos das próprias linhas de vida dos pescadores; são nós provisórios em uma malha (meshwork) de relações que envolvem correntes, ciclos lunares, sedimentos, fluxos de água e saberes corporificados.

Nesse sentido, o conhecimento ambiental mobilizado não é um estoque de informações cognitivas sobre um mundo externo. Consiste, como propõe Ingold, em uma educação da atenção: uma aprendizagem sensível dos ritmos do ambiente. O tempo da lua e o movimento das marés não orientam a pesca como variáveis externas; eles compõem o próprio tecido do agir. Decidir ir à muruada não é aplicar um cálculo, mas responder a um chamado do mundo em fluxo.

As águas de escuro e as águas grandes

Ao dar centralidade às narrativas de pescadores como Carlos Almeida, evidenciam-se saberes performados que articulam humanos e não humanos em um mesmo campo relacional. Inspirado na perspectiva de Ingold (2015), o texto compreende a pesca como prática situada em um mundo-vida em constante movimento, no qual coisas não são objetos acabados, mas acontecimentos em curso. Lua e marés não figuram como pano de fundo natural da ação humana; são linhas ativas que se cruzam com as linhas da experiência dos pescadores. Almeida (Informação verbal, 2021). dá mais detalhes:

O negócio é o seguinte, a gente sabe quando é tempo das águas grandes, que a gente chama de maré alta, pela lua, que tá cheia. Então, se a lua tá completa, é dia de lua, é dia de ir pra maré, pra muruada, porque quando a lua tá cheia, a maré também tá, como a gente chama aqui, é tempo de marezada e isso é sinal de que tá dando muito camarão. A marezada dura mais ou menos seis a sete dias. Depois desse tempo, a maré vai quebrando, vai ficando rasinha e o camarão vai falhando, vai ficando vasqueiro. Então é um grande segredo esse negócio, porque o camarão só da quando a maré cresce, que tem a correnteza, a água tá suja.”

O nome águas de escuro é porque a lua não aparece, então a gente sabe que é tempo de ir para a murada pela enchente da maré. Todo dia eu vou no porto ver o tamanho da maré, aí quando ela cresce é o sinal que chegou o dia de ir pra muruada pegar camarão. Então, tá tudo escuro, porque não tem lua, mas o movimento da maré guia a gente.”

Quando Almeida descreve as águas grandes e as águas de escuro, não está simplesmente fornecendo dados empíricos sobre ciclos naturais. Ele está traçando, em palavras, as trilhas da malha que sustenta sua vida. O relato não separa sujeito que conhece e objeto conhecido; ele expressa pertencimento. A lua cheia, a marezada, a correnteza e a água turva não são entidades que exercem influência causal externa, mas processos nos quais o pescador está imerso.

Sob a chave ingoldiana, tal descrição revela menos uma rede de conexões entre elementos predefinidos — como sugeriria a Teoria do Ator-Rede — e mais um emaranhado de linhas em crescimento. A maré não “age sobre” o camarão; o crescimento da maré é parte do próprio devir do camarão, assim como da possibilidade de ação do pescador. A agência aqui não está distribuída entre actantes estáveis, mas emerge do fluxo.

A frase “o movimento da maré guia a gente” condensa uma ontologia relacional. Não se trata de metáfora. O guia não é símbolo; é corrente. O pescador não domina a maré nem é dominado por ela. Ambos caminham na mesma malha. A orientação não deriva de imposição formal sobre matéria inerte — crítica central de Ingold ao modelo hilemórfico — mas de imersão em um ambiente vivo que gera renda, sociabilidades e comensalidades, como ocorre por meio da virada de camarão. Almeida (Informação verbal,  2016) narra:

A gente vai para muruada, ou vai arrastar e aí, quando a gente chega aqui no Araí, a gente põe o camarão pra torrar. Aí, quando o camarão tá cozinhando, a gente precisa virar ele, entende? A gente vira o camarão dentro da lata onde ele tá cozinhando. Quando a gente vira, o camarão que tava embaixo vem para cima e o de cima vai pra baixo, é nessa hora que a gente tira uma certa porção de camarão e coloca na rodada pra gente comer. Aí, como o pessoal de casa e os amigos, sabem que a gente tá torrando o camarão, eles começam a se chegar esperando a hora da virada, e quando chega essa hora, todo mundo come.”

A virada do camarão como evento ontológico

Essa perspectiva permite compreender também a virada do camarão para além de sua dimensão econômica ou simbólica. Ao torrar o camarão e virá-lo na lata, o gesto não é simples manipulação de um objeto. É continuidade de um processo que começou muito antes — na maré que cresceu, na lua que se encheu, na correnteza que turvou a água. O camarão que sobe e desce na lata segue fluxos anteriores; ele não foi extraído de um mundo externo para ser reconfigurado socialmente. Ele já é social enquanto linha de vida entrelaçada.

Responder ao chamado do mundo em fluxo. O pescador observa o porto e o nível da água antes de partir, integrando seu tempo biológico ao tempo da lua e ao movimento das marés. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Responder ao chamado do mundo em fluxo. O pescador observa o porto e o nível da água antes de partir, integrando seu tempo biológico ao tempo da lua e ao movimento das marés. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Na técnica do arrasto, a orientação não deriva de uma imposição formal sobre a matéria, mas de caminhar junto com a correnteza na mesma malha viva do rio Araí. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Na técnica do arrasto, a orientação não deriva de uma imposição formal sobre a matéria, mas de caminhar junto com a correnteza na mesma malha viva do rio Araí. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Um emaranhado de linhas em crescimento. Na maré baixa, a lama exposta revela a arquitetura das muruadas fixas e o paneiro tradicional aguardando o retorno do fluxo da água. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Um emaranhado de linhas em crescimento. Na maré baixa, a lama exposta revela a arquitetura das muruadas fixas e o paneiro tradicional aguardando o retorno do fluxo da água. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Nós provisórios na paisagem líquida. As estacas fincadas no leito do rio dão forma às armadilhas que capturam o camarão quando a maré cresce e a água turva. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Nós provisórios na paisagem líquida. As estacas fincadas no leito do rio dão forma às armadilhas que capturam o camarão quando a maré cresce e a água turva. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A técnica como prolongamento do corpo. De pé na proa da canoa, o pescador performa o lançamento da rede, em um campo de forças moldado pelo vento e pela correnteza. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A técnica como prolongamento do corpo. De pé na proa da canoa, o pescador performa o lançamento da rede, em um campo de forças moldado pelo vento e pela correnteza. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O escoar das águas e a retenção da vida. O camarão acumulado na extremidade da malha aparece sob a lente etnofotográfica como um acontecimento em curso no devir do rio. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O camarão acumulado na extremidade da malha aparece sob a lente etnofotográfica como um acontecimento em curso no devir do rio. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A fartura depositada no cesto. O esvaziamento da rede sobre o paneiro de palha condensa a memória corporificada e os saberes práticos da pesca artesanal paraense. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A fartura depositada no cesto. O esvaziamento da rede sobre o paneiro de palha condensa a memória corporificada e os saberes práticos da pesca artesanal paraense. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Trabalho e ritmo no interior da canoa de madeira. A triagem dos crustáceos e a limpeza dos sedimentos integram o tecido cotidiano do agir amazônida. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Trabalho e ritmo no interior da canoa de madeira. A triagem dos crustáceos e a limpeza dos sedimentos integram o tecido cotidiano do agir amazônida. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Os instrumentos empregados não são meros objetos técnicos isolados, mas linhas ativas entrelaçadas à experiência do pescador. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Os instrumentos empregados não são meros objetos técnicos isolados, mas linhas ativas entrelaçadas à experiência do pescador. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Organizando os tijolos e gravetos no quintal. O preparo do fogo de chão inicia o ritual que transforma o produto da pesca em mediador de sociabilidades. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Organizando os tijolos e gravetos no quintal. O preparo do fogo de chão inicia o ritual que transforma o produto da pesca em mediador de sociabilidades. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O calor do braseiro acolhe a lata de cozimento. O espaço doméstico da comunidade de Araí começa a se movimentar com a fumaça que anuncia a chegada do camarão. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O calor do braseiro acolhe a lata de cozimento. O espaço doméstico da comunidade de Araí começa a se movimentar com a fumaça que anuncia a chegada do camarão. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Do paneiro direto para a lata de metal. O camarão cru é despejado sobre o fogo, conectando o processo da captura no rio ao momento da transformação culinária. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

O camarão cru é despejado sobre o fogo, conectando o processo da captura no rio ao momento da transformação culinária. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Performando a virada com a paleta de madeira. O ato de mexer o crustáceo na lata faz o que estava embaixo vir para cima, indicando o ponto exato da partilha. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Performando a virada com a paleta de madeira. O ato de mexer o crustáceo na lata faz o que estava embaixo vir para cima, indicando o ponto exato da partilha. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Amigos, parentes e vizinhos se aproximam ao redor do canteiro. A hora da virada atua como um chamado coletivo, onde a presença de cada um celebra os vínculos locais. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Amigos, parentes e vizinhos se aproximam ao redor do canteiro. A hora da virada atua como um chamado coletivo, onde a presença de cada um celebra os vínculos locais. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

 Sentados ao redor da mesa de madeira, o descascar coletivo do camarão expressa uma aprendizagem sensível e uma comensalidade que recusa a lógica puramente mercantil. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

Sentados ao redor da mesa de madeira, o descascar coletivo do camarão expressa uma aprendizagem sensível e uma comensalidade que recusa a lógica puramente mercantil. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A porção doada aos chegados demonstra que na "terra do camarão" a vida é constitutivamente partilhada através da reciprocidade cabocla. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A porção doada aos chegados demonstra que na “terra do camarão” a vida é constitutivamente partilhada através da reciprocidade cabocla. Foto: Miguel Picanço/Amazônia Latitude.

A virada, portanto, é um evento ontológico: momento em que as linhas da pesca se entrelaçam às linhas da comensalidade. O camarão deixa de circular apenas como mercadoria e torna-se coisa no sentido ingoldiano — isto é, feixe de relações em curso. A generosidade que marca a partilha não é valor abstrato aplicado posteriormente; ela emerge do próprio modo de habitar um mundo onde a vida é constitutivamente partilhada.

Como mencionado, os pescadores de Araí sobrevivem da produção e comercialização de camarão, mas, apesar disso, a primeira porção do crustáceo é, generosamente, doada aos amigos, parentes, chegados e a quem queira se juntar ao banquete coletivo. Essa prática explicita que o mundo-vida do rio Araí não se organiza segundo a oposição rígida entre natureza produtiva e sociedade redistributiva. Trata-se de um ambiente sem objetos — no qual camarões, marés, farinhas e conversas são linhas ativas na tessitura do existir amazônida e araiense, conforme as fotografias deste ensaio fotoetnográfico (Kossoy, 2001; Samain, 2012).

Considerações finais

Ao longo deste ensaio, buscou-se demonstrar que a pesca artesanal do camarão não é aplicação técnica sobre um recurso natural, mas engajamento contínuo em uma malha viva. Lua, marés e camarões não figuram como cenário. Eles crescem junto com os pescadores. A fotografia, nesse contexto, não captura objetos; acompanha processos. Ela não fixa formas acabadas, mas testemunha o acontecer.

Assim, o ensaio reafirma a etnofotografia como exercício de atenção. Mais do que representar a Amazônia Atlântica paraense, trata-se de aprender a habitá-la conceitualmente — reconhecendo que o mundo não é um conjunto de entidades prontas conectadas em rede, mas um tecido de linhas que se entrelaçam, crescem e continuam a se fazer. É nesse emaranhado que a vida do rio Araí pulsa — e é nele que humanos e não humanos seguem se tornando.

A virada do camarão, descrita com riqueza de detalhes, emerge como um dos momentos mais expressivos dessa sociabilidade amazônida e cabocla. Mais do que um gesto alimentar, ela se apresenta como um ritual de generosidade, comensalidade e pertencimento, no qual a partilha do alimento fortalece vínculos familiares, de amizade, de vizinhança e pertença. Nesse ato, o camarão deixa de ser apenas mercadoria e se transforma em mediador de relações sociais, reafirmando valores como solidariedade e reciprocidade que sustentam a vida comunitária.

Referências

Texto: Miguel Picanço
Arte:
Fabrício Vinhas
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

Você pode gostar...

Acesse gratuitamente

Deixe seu e-mail para receber gratuitamente a versão digital do livro e ampliar sua leitura crítica sobre a Amazônia e o Brasil.

Download Livro

Este conteúdo é parte do compromisso da Amazônia Latitude de tornar visíveis debates e pesquisas sobre a Amazônia e o Brasil. Continue explorando conteúdos no site e redes sociais e, se quiser fortalecer esse trabalho independente, considere apoiar via pix: amazonialatitude@gmail.com.

Translate »