A cidade que morde antes de acordar: O X-Caboquinho e a ecologia do cotidiano amazônico
Narrativa e resistência urbana se encontram na gastronomia invisível que sustenta o amanhecer manauara

Na chapa quente do carrinho, café, tapioca e x-caboquinho sustentam a Manaus que acorda no escuro, entre o cansaço,
o afeto e a fome que não espera o relógio oficial. Foto: Josué Vieira.
Ainda não amanheceu, a cidade escorre em sombras espessas como se o concreto, molhado da noite, respirasse pesado antes de acordar. Manaus, a essa hora, não grita: sussurra. Os primeiros passos arrastam sandálias nas calçadas úmidas, enquanto a neblina leve que sobe do igarapé mistura-se ao vapor do café coado em bules de alumínio gasto. As ruas não estão vazias, estão em murmúrio, caminhoneiros, operários, ambulantes, feirantes, vigias, mães com crianças, gente que atravessa a cidade antes do trânsito, do ruído, da vida diurna se dar conta de que o dia já começou.
Um murmúrio de passos cansados, de mãos empurrando carrinhos de madeira, de panelas batendo uma contra a outra como sinos domésticos anunciando o início de algo, Manaus, entre o escuro e o cinza, pulsa em uma frequência subterrânea, onde o trabalho ainda não é reconhecido como trabalho e o movimento ainda não conta como trânsito. É a feitura dos invisíveis que sustentam a “normalidade”. Andar na cidade nessa hora é percorrer seus atalhos de sobrevivência, onde o café é mais forte, o pão ainda vem quente e o silêncio não é ameaça, mas respeito.
Caminhoneiros que cruzaram o Estado a noite inteira estacionam seus mundos sobre rodas no canto de alguma rua, procurando pão e afago; operários com o uniforme já empoeirado antes do primeiro toque da sirene caminham lado a lado com mães que embalam os filhos no pensamento – as mãos são pesadas, mas os olhos têm pressa. Esses humanos compartilham algo que os une sem palavras: a certeza de que o dia já começou para eles, ainda que o relógio oficial diga o contrário, é um acordo silencioso que escapa às estatísticas, que alimenta os supermercados, sustenta os shoppings e monta o cenário antes da plateia acordar.
Essa cidade antes da cidade, feita de cansaço e café, de passos e fumaça, de pequenos gestos e grandes distâncias é a verdadeira produção da vida urbana. Nela, o trabalho começa antes do crachá ou do escritório, com o fogo aceso, com a água fervendo, com a chapa suando. É ela que cozinha o dia dos outros antes de viver sua dignidade, porque comer também é insistir, é beleza nos horários impraticáveis, afeto mesmo no escuro, cidade antes do sol.
Entre a última estrela e o primeiro ônibus, o X-Caboquinho se faz presente como alimento e metáfora, o sanduíche não nasce na cozinha de um chef, mas na confluência entre fogo e pressa, entre economia e afeto. Ele brota da chapa quente de um carrinho que abre cedo ao lado de um muro grafitado, embaixo de uma lona improvisada, diante da porta entreaberta de uma casa que é mercearia e lar. A chapa chia, a manteiga derrete, o queijo coalho estala. A cidade, adormecida em seus arranha-becos e seus sonhos inconclusos, morde o primeiro pedaço do dia.
Dia, cujo despertador é o cheiro do pão queimando levemente na chapa, o chiado da manteiga derretendo sob o calor, o primeiro gole de café preto servido em copo plástico: instante inaugural antes da consciência plena. Manaus abocanha o dia com fome de esquecer o que a noite deixou em aberto – contas, cansaços, promessas adiadas, dos becos por onde o sono escorre, dos corredores estreitos da memória de quem saiu de casa às 4h da manhã, de quem dormiu pouco, de quem acorda com o estômago pedindo algo que seja alimento e abrigo.
Nessa mordida mora o gesto político que não cabe nos cartões-postais, porque, entre as mastigações e migalhas, ela deglute sua precariedade e sua esperança na mesma boca. Daí, o X-Caboquinho ser comida e metáfora mastigável de um cotidiano que se reinventa no amanhecer, que entra no corpo depois do escuro; é o modo como a cidade diz para si mesma que ainda aguenta mais um dia entre o café, pão e o tucumã.
Quem come um X-Caboquinho entre 4 e 5 da manhã não tem tempo para frescura, tem fome, tem jornada, pressa de viver. O sanduíche é café, merenda e abraço; cabe na mão, no bolso e no relógio de quem sabe que o tempo da cidade não é o tempo das coisas. Ele aquece o corpo, segura a emoção, ancora o estômago, e a cidade, ainda escura, cozinha-se por dentro para alimentar seus próprios sonhos.

Quem come um X-Caboquinho entre 4 e 5 da manhã não tem tempo para frescura, tem fome, tem jornada, pressa de viver. Foto: Josué Vieira.
O asfalto sua porque carrega o peso de todas as madrugadas já pisadas, a umidade transpõe a da chuva ou do ar pesado da floresta, é suor condensado de corpos que trabalham enquanto o resto da cidade dorme. Os postes, indecisos entre a claridade do dia e o resto da noite, lançam uma luz hesitante sobre as entradas das ruas, criando sombras trêmulas que dançam ao redor dos carrinhos de lanche como pequenas entidades domésticas. Manaus, entre o escuro e o claro, entre o descanso e a urgência, parece respirar como quem hesita em levantar, mas sabe que precisa.
É nesse cenário que o tucumã reluz gorduroso, cortado à faca em tiras, amontoadas sobre o pão como joias tropicais, brilhando na luz vacilante como se fosse oferenda. Ao lado dele, a banana frita chia no óleo e o queijo coalho assovia ao tocar a chapa quente. Tudo se move em sincronia silenciosa, como um ritual aprendido sem escola, passado de boca em boca, de fogão em fogão. Há uma coreografia implícita entre o fogo, a fruta e o pão: um conhecimento antigo que pulsa ali, disfarçado de lanche matinal. Cada sanduíche preparado nessa hora é mais que refeição – é um rito de passagem, uma liturgia pagã que só quem desperta cedo entende.
Há algo de profundamente sagrado nesse rito ordinário, ele convoca um pertencimento, como se a cidade nesse instante de luz cambiante cochichasse em cada mordida: “acorda, mas não esquece quem tu és”. “Tu”? É o feirante que carrega a caixa de tucumã, a mulher que frita banana na garagem, o rapaz que entrega o pão de madrugada, o menino que ajuda na chapa.
Todos eles fazem a cidade se lembrar que sua identidade não está nas grandes avenidas ou nos shoppings climatizados, mas nessa cadeia invisível de afetos e saberes que sustenta o dia antes do sol. O X-Caboquinho, servido ali entre o improviso e a precisão, é um símbolo de resistência calorosa, uma forma de dizer que, mesmo na pressa, ainda há tempo para lembrar de onde viemos.
Porque o X-Caboquinho é uma certidão comestível, uma identidade deglutível carimbada pelo calor da chapa e assinada pela palma da mão que o monta ainda antes do sol nascer. Não há branding nem logomarca que o represente, não precisa de manual de instruções porque carrega no seu modo de ser uma oralidade culinária ancestral.
O trajeto da banana do quintal da Várzea até a frigideira; o do tucumã colhido por mãos que conhecem o tempo da palmeira; o do queijo coalho que atravessa cidades, rios e estradas em sacolas; e o do pão sovado com sal, suor e farinha das padarias invisíveis que acendem as luzes quando a cidade ainda dorme. Ninguém faz X-Caboquinho como quem segue receita, faz de gesto de quem sabe da espessura da banana, do ponto exato do derretimento do queijo, da ordem correta das camadas.
É construído como quem conta uma história com começo, meio e calor. Se falta um ingrediente, inventa-se outro. O que importa é o espírito do sanduíche e não a rigidez do fastfood. Ele carrega o cheiro do bairro, o tempero da travessia e a ordem das coisas que ainda se fazem com a mão. Contrário da gourmetização, é sabor da sobrevivência afetiva, nutrição com memória, simplicidade que resiste ao apagamento.
Não é apenas entre o salgado e o doce entre o morno do pão e o frio do tucumã recém tirado do isopor, é sobre entre-mundos, do campo que plantou a banana e a cidade que a morde com pressa; a madrugada rural que ordenhou o leite e a manhã urbana que come sem saber a origem; o invisível das mãos que prepararam e o essencial de quem saboreia. O X-Caboquinho é um sanduíche de temporalidades e geografias, cruza linhas, distâncias, tempos para caber no intervalo curto entre o primeiro café e o próximo ônibus; um lanche-síntese do cotidiano vivo e engordurado, da Amazônia que ainda insiste em ser além do que desejariam que ela fosse.
Não despertada por completo, Manaus às cinco da manhã coça o juízo do sonhar com os pés no chão; visualiza o adiante como quem sabe que precisa caber entre a farda do trabalho e o pão de cada dia, entre a marmita pronta e a fé de que a semana vai dar certo. É sonho com cheiro de fritura e som de rádio baixo que embalam sacolas plásticas e vapores de café recém passado, não é utopia distante, sim permanência possível que se renova a cada manhã.
No meio do morno que antecede o sol, o X-Caboquinho aparece como linguagem falada com o estômago; diz que ainda é possível continuar, embora exausto dá para encontrar em si mesmo um modo de alimentar o corpo como quem mastiga os próprios sonhos para transformá-los em força. Daí, ele ser o ponto de partida simbólico do rito inaugural do dia; simples e visceral entre a fome e a esperança, porque antes que qualquer repartição abra, antes que o comércio levante suas grades e do sistema registrar um novo dia útil, a cidade já se recompôs em torno da chapa quente; entre sons de tostes e respirações ofegantes a nos dizer: Come, que ainda tem caminho.

O X-Caboquinho, ao ser entregue na mão do trabalhador às margens da aurora, é lembrança moldada em pão, é geografia que se dobra para caber entre os dedos. Foto: Turismo Aqui via Youtube.
Afetos, territórios e temporalidades em um sanduíche
A primeira a chegar à boca é a memória. Há, no ato de comer, uma ancestralidade silenciosa que se infiltra no corpo antes que a língua reconheça o gosto. O X-Caboquinho, ao ser entregue na mão do trabalhador às margens da aurora, é lembrança moldada em pão, é geografia que se dobra para caber entre os dedos. Canesqui (2007) lembra que a alimentação é uma linguagem social, que comunica pertencimentos e traduz experiências. Nela, repousam memórias de roçados distantes, cozinhas improvisadas, panelas herdadas e afetos que se renovam entre camadas. É uma espécie de georreferenciamento comestível que orienta o corpo.
Cada ingrediente isolado carrega um mundo. No interior do sanduíche amazônico, formam uma rede de significados que transcende o prato. A banana frita é alimento e gesto repetido da avó na cozinha, o cheiro impregnado nas manhãs de domingo, o saber intuitivo passado entre gerações como bem comum. Montanari (2008) afirma que as tradições alimentares são tecnologias da memória coletiva, práticas que resistem à obsolescência ao se inscreverem no cotidiano com naturalidade.
O tucumã fatiado em tiras cerimoniais carrega consigo a floresta, o tempo de espera, de colheita, de maturação. Em sua textura oleosa habita uma outra velocidade oposta à aceleração da cidade, que reaparece discretamente sobre o pão denso de padaria. Nesse entrelaçamento de temporalidades, o X-Caboquinho adquire sua espessura simbólica, é simultaneamente presente porque sacia e passado porque evoca.
Para Fischler (2001), a comida constitui a fronteira porosa entre o indivíduo e o coletivo, entre o biológico e o cultural. Ao consumir o alimento, incorpora-se também a memória do outro. A chapa quente que tosta o queijo também aquece uma cadeia invisível de relações – o agricultor que plantou, a mulher que preparou, o feirante que vendeu, o pedreiro que compra, o corpo que resiste. Tudo ali, implícito, à espera de ser lido com a boca e decifrado com o afeto.
O X-Caboquinho torna-se um mediador social, elo afetivo entre corpos que não se conhecem, mas que se encontram na partilha da fome e da lembrança. Condensa o que Ferreira (2022) chama de “saberes corporificados”, aqueles que não se ensinam por manuais, se transmitem no toque, na escuta, na repetição diária dos gestos. Portanto, participar de um ritual que carrega densidade política, sensorial e simbólica é se permitir atravessar todos os tempos antes do gosto, pois o que se busca ao comer de manhã na pressa é encontrar um ponto de amarra no mundo. O X-Caboquinho é esse ponto.
Na banana pacovã frita que escorre do pão, escorrem os gestos de quem a plantou, colheu, limpou, cortou e mergulhou no óleo quente. Cada etapa do processo é guiada por um saber acumulado no corpo, entre o facão e o fogão. Callén e Pardo (2022) reconhecem-os como “saberes encarnados”, formados na prática cotidiana e na repetição afetiva dos gestos de cuidado e preparo. A banana é a mediação entre natureza e cultura, entre floresta e prato. Quando ela aparece no sanduíche, traz consigo uma pedagogia silenciosa do tempo, da escuta da terra, da relação entre estação e paladar.
Alves e Benevides (2023), mostram que nas comunidades amazônicas o alimento é um modo de narrar o território. A pacovã, tal como o tucumã, conta em sua doçura oleosa a história do solo que resistiu à derrubada, da palha que protegeu a muda, da chuva que veio fora de hora e das mãos que cuidaram do amadurecimento com a paciência de quem escuta os ciclos da natureza como quem lê um calendário íntimo.
A roça é biblioteca viva. Com seus frutos-livros de pele grossa e sabor quente, a fritura da banana carrega ainda a lentidão de sua origem. O tempo da cidade é curto, mas o da planta sobrevive na textura amarela que carameliza o pão. A banana frita adquire uma função de suporte simbólico da experiência de mundo de quem a consome.

Esse saber, embora não reconhecido como legítimo pela ciência formal, sustenta formas complexas de conhecimento. Foto: Josué Vieira.
Como defendem Silva e Andrade (2021), os alimentos atuam como “vetores de memória”, ativam no paladar lembranças afetivas e pertenças territoriais. Comer a pacovã frita no sanduíche da esquina é revisitar a roça que se afastou, é reencontrar o gosto do quintal que a urbanização cobriu com concreto. Inclusive, é resistir à substituição do paladar local por lógicas alimentares industriais.
O X-Caboquinho torna-se um arquivo da oralidade alimentar amazônica, inscrito na boca de quem morde com pressa e carrega o gosto por mais tempo do que imagina. Esse saber, embora não reconhecido como legítimo pela ciência formal, sustenta formas complexas de conhecimento. Como demonstram Araújo e Galvão (2023), os saberes alimentares populares são formas de expressão ecológica, articulam práticas de cuidado com o território e modos específicos de relação com o alimento.
É síntese de práticas, sofisticação do ordinário, é laboratório popular de sociabilidade, território comestível e documento emocional. A banana pacovã frita faz-se lastro de uma ecologia afetiva que se constrói entre a mão calejada e o dente apressado, entre a fritura e a memória, entre a roça e o centro.
Ao considerar o X-Caboquinho sob esse prisma, ele deixa de ser um produto espontâneo da paisagem urbana e passa a ser compreendido como um artefato cultural carregado de memória e agência. Para Arantes (2000), os saberes alimentares compõem parte do patrimônio imaterial de um povo, condensam modos de vida, técnicas transmitidas por gerações e formas de produzir o mundo.
O pão espesso assado em fornos de padarias de bairro carrega o calor dos empreendimentos que amanhecem com a cidade, herança dos fornos coloniais e das partilhas familiares que moldaram a relação entre tempo e alimento. Há um rastro histórico que se inscreve no miolo do pão. O tucumã opera como uma fruta-síntese, traz consigo a potência da floresta e o domínio do corte, suas tiras são signos de uma domesticidade amazônica que aprende a transformar mato em ingrediente.
Como afirmam Oliveira e Brandão (2022), os alimentos típicos amazônicos representam expressões materiais e simbólicas de um saber que resiste à homogeneização cultural imposta pelos fluxos urbanos-industriais. No laranja untuoso do tucumã, reside uma ecologia de sabores que traduz um modo de ser floresta entre o asfalto e o concreto, torna-se uma plataforma de sobrevivência simbólica da mata; ela vive, mesmo em fatias, mesmo entre grades de ferro e chapas de alumínio.
Esse cruzamento entre ruralidade e urbanidade, entre tradição e mobilidade, como sustenta Néstor García Canclini (2005), é um gesto que põe em contato passado e presente, tradição e consumo, cultura e materialidade. O sanduíche embaralha, costura, religa as temporalidades e os territórios. Mordê-lo é conjugar heranças invisíveis. O ritmo lento da maturação do tucumã e da banana colidem com a pressa da cidade que acorda, criando uma temporalidade híbrida, a comida, funciona como um portal entre mundos que o cotidiano tenta separar.
O X-Caboquinho, fala a linguagem da cidade com o sotaque da floresta, e performa uma ecologia cultural. Os alimentos são recursos de mediações entre territórios, saberes e afetos (Silva, 2018). A mediação entre natureza e cultura se materializa no encontro entre o viajante e ambulante queijo coalho, a ancestral banana frita e o pão da padaria local, fixo, pesado, artesanal. A composição do sanduíche torna visível a trama múltipla da Amazônia urbana tensionada e viva. A cada mordida, o urbano consome o rural, mas não o dissolve, o mantém em carne e gosto.
Enquanto produto comestível, ele estrutura relações. É um artefato social moldado por estruturas de poder, como argumenta Barbosa (2019). A alimentação configura-se como uma prática onde se reproduzem desigualdades de gênero, classe e raça, naturalizadas na rotina do consumo. A cadeia que leva o sanduíche até as mãos de quem o come envolve jornadas silenciosas de trabalho feminino, mães que acordam antes do sol para fritar a banana, avós que ainda sabem como fatiar o tucumã certo, filhas que embalam o queijo coalho para a venda. Essas mulheres anônimas, invisíveis, sem direito a descanso, são as arquitetas do sabor cotidiano da cidade.

A divisão sexual do trabalho, como detalha Oliveira (2021), expõe um sistema em que as práticas alimentares femininas são vistas como “obrigação natural” e não como produção de conhecimento ou trabalho legítimo. Foto: Josué Vieira.
A divisão sexual do trabalho, como detalha Oliveira (2021), expõe um sistema em que as práticas alimentares femininas são vistas como “obrigação natural” e não como produção de conhecimento ou trabalho legítimo. Em Manaus (AM), essa naturalização se intensifica. A produção do X-Caboquinho passa por mãos que o Estado não vê e que o mercado remunera mal. O gesto de descascar um tucumã, repetido milhares de vezes por mulheres em feiras e varandas, carrega a dignidade de um ofício ancestral e o cansaço de uma rotina sem pausa, e enquanto há pão, banana e tucumã nas esquinas, há também mulheres sustentando o dia.
O sanduíche nesse contexto, funciona como gramática social que fala por silêncios, não diz quem plantou, quem fritou, quem serviu, carrega em cada mordida o peso de uma estrutura desigual. Menezes (2023) afirma que a comida é uma tecnologia de cuidado que carrega a marca da opressão. O cuidado que alimenta também cansa, exaure, há o esforço de quem já amanheceu muito antes; a comida denuncia aquilo que se tenta apagar, que o sabor tem gênero, a fartura tem cor, e a saciedade é sustentada por precárias formas de amor-trabalho.
Teixeira (2022) aponta que, mesmo em contextos de marginalização, as mulheres inventam formas de estar no mundo através da comida, combinam, adaptam, equilibram. O X-Caboquinho não escapa dessa lógica, performa um improviso coletivo, uma obra aberta de sobrevivência, condensa uma arquitetura afetiva da cidade feita de ausências, silêncios e suor. Comer esse sanduíche é mastigar desigualdades e degustar resistências, lembra que cada lanche carrega nomes que não estão no letreiro da banca, mas que sustentam a cidade que sonha antes de acordar.
Dizer “nós existimos” por meio de um sanduíche é uma forma radical de inscrição política, opera como um manifesto comestível, compacta toda uma geografia da sobrevivência cotidiana. Silva (2021) afirma que as práticas alimentares urbanas constituem modos de reinvenção e presença nos territórios historicamente marginalizados. Ao morder um X-Caboquinho, a cidade consome uma aula de resistência, a pedagogia dos afetos se revela ali, entre o pão denso, o tucumã, o queijo, a banana que escorre e o cuidado de quem o preparou, cada lanche vendido na calçada reafirma a permanência de um povo que resiste sendo sabor, gesto e cheiro.
A “geopolítica da fome”, de que nos fala Ribeiro (2022), é negação sistemática de dignidade, território e reconhecimento. O X-Caboquinho emerge como resposta não planejada, não institucionalizada, profundamente organizada no corpo da cidade, é o que sobra quando as políticas públicas falham. Sobra dignidade com afeto e com invenção. Em vez de ruas largas e projetos de modernização, é o lanche quente da esquina que dá forma concreta à solidariedade urbana, pois é território portátil onde se cruzam memórias rurais, economias periféricas e afetos coletivos.
Os corpos se expressam mais pelas mãos do que pelas palavras, funciona como um poema operário escrito no amarelo do tucumã e na gordura de banana. Não será capa de revista gourmet, mas é o que sustenta a cidade quando ela ainda boceja. Trata-se de uma estética da sobrevivência, de uma escrita cotidiana feita com pão, faca e suor. Em Manaus, talvez nada diga mais sobre sua força subterrânea do que esse sanduíche que amanhece com ela, que a traduz com mais fidelidade numa mordida por vez.

O X-Caboquinho alimenta o corpo, ancora a alma no território urbano-florestal de Manaus (AM). Foto: Josué Vieira.
Arquiteturas do sabor: a cidade se reconstrói a cada mordida
O que se inicia como urgência do estômago termina como assinatura afetiva no tempo. A fome, ao ser saciada, transforma-se em traço de memória, como as migalhas esquecidas no fundo da sacola. O X-Caboquinho alimenta o corpo, ancora a alma no território urbano-florestal de Manaus (AM), guarda as marcas do tempo, da labuta e da ausência. Dia após dia, desenha nas esquinas um mapa invisível do pertencimento. Comer é lembrar, mesmo sem intenção, de um chão, um gesto, um rosto.
Há um modo de dizer que escapa às gramáticas; uma língua de boca cheia, feita de calor, textura e cheiro; fala que não precisa de alfabeto para carregar o nome da floresta ou das mães que madrugam em cima do óleo quente. Cada mordida é uma escrita com os dentes, uma narrativa sem narrador, personagem que se desdobra entre ruas de barro, padarias de bairro e quintais que cheiram a mato. O X-Caboquinho carrega no formato a experiência de uma cidade que fala baixo, e diz fundo.
É um documento rubricado com suor, banha, tucumã, queijo coalho e pão francês; arquivo de afetos de um povo que não aparece nas propagandas, está em todo canto. Cada fritura feita com cuidado, o pão assado com esmero, inscreve uma espécie de cidadania sensorial, transforma-se em ato político sem necessidade de panfleto, resiste por estar, por voltar, por aquecer. Oralidade que se mastiga, que se digere, uma confirmação de que se está vivo, de que se pertence.
Talvez seja por isso que, mesmo diante de uma cidade em constante reforma e apagamento, o X-Caboquinho permaneça em afetos que não caducam com o tempo, fermentam, crescem, exalam cheiro de casa. Como a banana que escurece, mas não perde o gosto, como a cidade que, mesmo esgotada, continua servindo seus filhos quentes, vivos e suados todos os dias.
Entre o pão espesso e o brilho oleoso das frutas amazônicas, desenha-se uma narrativa urbana resistente aos apagamentos da grande cidade. O X-Caboquinho é um arquivo vivo que compila camadas de vivências como performance de territorialidades e experiências coletivas. Os ingredientes compõem um texto ritualístico, que atualiza pertencimentos e geografias que evadem os mapas oficiais e os planejamentos urbanos que tentam modelar a cidade e higienizar afetos (Bruck e Rocha, 2011).
Analisando o sanduíche pela perspectiva das estéticas alimentares de tecnologia social e simbólica, a informalidade aparente de sua composição atua como elo entre práticas tradicionais e estratégias contemporâneas de sobrevivência. É o catalisador ecológico de uma afetividade que se organiza pelas bordas (Matta, 2013). Condensam-se “arquivos sensíveis” de desigualdade e invenção cotidiana (Hall, 2003).
A alimentação urbana é prática micropolítica (Varela, 2014). Comer nas ruas é participar de um gesto insurgente, a reafirmação da vida que se dá a despeito das restrições formais. O lanche vendido em uma banca improvisada é contrato de confiança, pacto tácito entre quem produz e quem consome. Escapa aos registros da burocracia, mas funda vínculos reais. O calor do encontro faz a cidade se reencontrar.

omer nas ruas é participar de um gesto insurgente, a reafirmação da vida que se dá a despeito das restrições formais. Foto: Josué Vieira.
Manaus digere sua própria história, metaboliza fantasmas e reativa afetos. Um ritual sem liturgia, com potência ancestral. A memória se conserva em gordura, a resistência é temperada a gosto, o comum se torna extraordinário por permanecer, os sentidos são agentes de inscrição cultural, o cheiro que atravessa a esquina, o paladar se converte em narrativa, e o cotidiano em resistência (Le Breton, 2006).
Entre o crepitar do queijo, do tucumã quente e o estalar da crosta de pão amanhecido na calda da banana, há o vestígio de tempo indígena que se infiltra no cotidiano apressado. A recusa de ser reduzido a um simples lanche encarna um modo de viver que insiste em ser outro, em ser seu. Mastigar o sanduíche é roer as bordas do que a cidade tenta esquecer, seus interiores coloniais, seus corpos subalternos, seus modos de viver que escapam aos moldes higienizados do progresso.
O território que se revela emerge das práticas, dos afetos e dos deslocamentos que atravessam a cidade. É o que Milton Santos (2001) chamaria de espaço construído no gesto e na repetição, feito mais de corpos do que de mapas, de sabor, suor, e luta. Cada ingrediente atravessou distâncias sociais, políticas e geográficas para se fazer presente. E, entre o que se come e o que se sente, a cidade reencontra seus nós desatados, laços que o concreto tentou calar, mas que o pão ainda sabe pronunciar.
Não há sirene mais precisa do que o cheiro da chapa quente no meio da rua. Manaus desperta primeiro pelo paladar. No estômago, a cidade sente seu começo. Nos gestos miúdos de quem fatia o tucumã e aquece o café em fogareiros improvisados, desenha-se uma cartografia do afeto urbano, uma espécie de topografia sensível, onde o chão é feito de memórias e o ar cheira a pertencimento.
Na Amazônia urbana, onde a floresta já não tem folhas, o X-Caboquinho é o elo que resta, um pedaço da cidade que se deixou contaminar pela mata, fruto que brota entre ônibus e camelôs, lembrando que ainda se vive da terra. E isso, talvez, seja o mais belo gesto político: morder o dia com gosto de floresta, e seguir.
Referências
Josué Gomes Vieira é professor de Língua Portuguesa da Secretaria Estadual de Educação do Amazonas (Seduc-AM), e no ensino superior, nos cursos de Letras e História da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Como pesquisador, desenvolve pesquisas e consultoria em projetos na área de Sociedade, Cultura e Amazônia.
Revisão e edição: Juliana Carvalho
Montagem da página: Alice Palmeira
Direção: Marcos Colón
