Sandra Godinho

Paulista radicada no Amazonas, é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), e tem dez livros publicados.

Duelo de Cordas: um conto de Sandra Godinho

Em meio ao virtuosismo de Tchaikovsky, dois violinistas disputam a vaga de spalla enquanto buscam a cura para suas próprias sinfonias solitárias

O peso histórico e os camarotes vazios do Teatro Amazonas: o cenário monumental onde o virtuosismo técnico esconde a busca por um interlúdio de afeto. Foto:  Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
O peso histórico e os camarotes vazios do Teatro Amazonas: o cenário monumental onde o virtuosismo técnico esconde a busca por um interlúdio de afeto. Foto:  Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
O peso histórico e os camarotes vazios do Teatro Amazonas: o cenário monumental onde o virtuosismo técnico esconde a busca por um interlúdio de afeto. Foto:  Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

O peso histórico e os camarotes vazios do Teatro Amazonas: o cenário monumental onde o virtuosismo técnico esconde a busca por um
interlúdio de afeto. Foto: Divulgação / Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

Jacira queria abalar mundos, o do maestro e o da secretária de cultura certamente; os responsáveis pela seleção do novo spalla, o primeiro violino, da Orquestra Sinfônica do Amazonas.

Aguardando impaciente na coxia do Teatro Amazonas, ela não reparou nos lustres de Murano no interior, no assoalho que mesclava madeira brasileira e europeia em um harmonioso trabalho de marchetaria feito de claros e escuros, nem no Pano de Boca, uma pintura a óleo que representava o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Só tinha a certeza de uma coisa: a acústica privilegiava a ressonância dos instrumentos, indo a favor do único desejo, o de mostrar todo virtuosismo de que era capaz.

A solista aguardou o sinal do regente, sentado pacientemente na plateia ao lado da secretária, para que o recital iniciasse. O que a incomodava eram as pernas bambas em oposição à tranquilidade dos demais musicistas, confortáveis em suas cadeiras no palco, lamentando que o frescor da sala de espetáculos não aplacasse o fervor em suas veias. As mãos úmidas obrigavam-na a usar, de quando em quando, o lenço de algodão que trazia no bolso do vestido preto, clássico e pesado, tanto quanto a decoração do século XIX, coisa que nem o brilho dourado do lustre conseguiu disfarçar.

Olhou para cima, para a cúpula do teatro, fez uma prece ao divino: que nenhum acorde saísse do compasso. Ignorou as cadeiras vazias nos camarotes e o ritual de afinação dos músicos no palco, focou na partitura, imaginando a responsabilidade de um primeiro violino, o responsável pela intermediação entre maestro e orquestra.

Da plateia, o regente deu o sinal. Jacira avançou pelo lado esquerdo, cumprimentou todos com um menear de cabeça, apoiou o estojo forrado de veludo vermelho na primeira cadeira da fileira reservada aos violonistas, tirou de dentro o violino e o arco, aninhou-o entre a clavícula e o ombro esquerdo e se preparou para a execução do Concerto para Violino e Orquestra de Tchaikovsky, com três movimentos, escolhido a dedo por exibir grande dificuldade técnica, e se preparou para o duelo com a orquestra.  Executava o primeiro movimento, dilacerando as cordas, esfolando os dedos, abusando dos pizzicatos e dos glissandos quando um pensamento a atravessou:

A vida é uma partitura escrita em clave de dó, a das vozes humanas, cheias e semicolcheias repletas de dor. De que adianta uma vida dedicada à música se, à noite, é a solidão que se planta no leito? Se a vida é cantiga, por que o vazio na cadência? Quero ser condutora de sonhos, criar com a música um balé onde a primeira bailarina sempre encontre seu par. Quero tocar um coração com meu compasso. De que adianta a dedicação às notas se o que falta é o interlúdio de afeto? Quero ser mundo em ritmo lento, allegro e adágio para alguém que ame, tão maestrino como eu.

Jacira realizava o impossível dentro do possível. Ainda se digladiava com as notas e o suor, quando o maestro pediu que parasse. Em seguida, fez sinal para que o concorrente ocupasse o palco e se preparasse para tocar o terceiro movimento do concerto, bem mais agitado. Ela retesou o corpo e recolheu o instrumento, o arco e as garras. Retornou para os bastidores enquanto o homem, um pouco mais velho que ela, dirigiu-se para o centro, pisando com confiança, pronto para superar a performance da colega. Lourenço cumprimentou os músicos e o regente, curvando-se respeitosamente.

Retirou o violino do estojo de couro forrado com veludo preto, passou resina nas cerdas do arco e, antes de manuseá-lo, limpou as mãos com uma flanela. Apesar de o instrumento desafinar com facilidade devido à variação de temperatura, entre o calor cáustico e o fresco do ar-condicionado nos ambientes, Lourenço trazia seu violino afinado, mesmo assim, fez novo ajuste em uma das cravelhas, tirando um som melodioso antes de começar. Manteve seu corpo ereto, peito estufado, pernas entreabertas para estabilizar o equilíbrio do corpo. Não tinha pressa.

Suspirou, exalando o ar com lentidão, ajustou a queixeira ao maxilar, encaixou o violino na clavícula, tornando-o parte do seu corpo. O arco flanava na mão direita, ansioso. O maestro deu sinal. Lourenço aguardou o tempo da orquestra, dando prosseguimento ao terceiro movimento, cujos acordes lembravam uma dança folclórica russa. O violino dialogava com oboés, flautas, clarinetes, fagotes que se entusiasmaram e se puseram a tocar; a destreza beirava a perfeição.

Lourenço abusou dos coll legno e dos tremolo. Com pleno domínio da técnica, restava buscar a alma da música, leve, contemplativa e romântica, escrita por Tchaikovsky e seu aluno em um refúgio em Clarens, a despeito do casamento de aparência do músico com sua patronesse. Mas o domínio da técnica não traz a essência, a perfeição suprema, então o músico se concentrou para buscá-la entre os dedos, enquanto sondava os labirintos da mente:

A vida é uma partitura escrita em clave de sol, ou melhor, clave de só, solitário dentro de uma pauta de cinco linhas breves e semibreves, onde só vozes agudas regem as cadências semifusas da vida. A mais aguda é ser digno de aplausos. Tornar-se o melhor dentre os melhores. Há de se fazer muito ruído para adquirir a excelência. Os que quiserem, que se façam andantes. Que eliminem os descompassos. Ao final de uma coda, haverá sempre um gran finale. Abri mão de tanto! Dos prazeres, dos amigos, dos casamentos. Agora, quero ser mundo, dolce vibrante como só eu sei ser.

O regente, diante dos exímios concorrentes, se extasiava na poltrona. Virou-se para a secretária de cultura e disparou:

─ Um concerto de enorme dificuldade técnica e de evidente grandiosidade. Uma obra-prima sensível e melancólica, ninguém diria que era um presente de amor de quem a compôs. Mesmo que não fosse para a esposa.

A secretária sorriu e vibrou ao ver a solista retornar ao palco com seu violino em riste, atirando acordes à cena. Postou-se ao lado de Lourenço, desafiando-o para um real duelo de cordas. A secretária relanceou o rosto do maestro brilhando de satisfação. Dúvida terrível, a de ter apenas uma vaga para o regente preencher. Já ela teve a certeza de que estava diante de duas virtuoses de uma das mais aclamadas sinfonias já escritas.

E assim, lado a lado, em sintonia rosnante, os dois violonistas formavam um perfeito casal.

Sandra Godinho é graduada e mestre em Letras. É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Com Orelha lavada, infância roubada (2018), recebeu Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019), e com Verso do reverso (2019) ganhou o Prêmio Regional de Melhor Livro de Contos da Cidade de Manaus. Seu romance Tocaia do Norte (2020) venceu o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Outra obra sua, A morte é a promessa de algum fim, recebeu o Prêmio Cidade de Manaus 2021, e também o Prêmio Focus Brasil NY/AILB 2022. Tem ainda dois romances finalistas do Prêmio Leya de 2021 e 2022, Memórias de uma mulher morta e A Secura dos ossos.

Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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