Inventário de um silêncio: a resistência ao esquecimento na ditadura

Através de uma escrita que alia rigor histórico e densidade estética, novo romance de Sandra Godinho investiga as fraturas da memória e os silenciamentos em Manaus

Inventário de um silêncio, uma obra necessária sobre as marcas profundas da repressão e a resistência através da literatura na Amazônia contemporânea. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
Inventário de um silêncio, uma obra necessária sobre as marcas profundas da repressão e a resistência através da literatura na Amazônia contemporânea. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
Inventário de um silêncio, uma obra necessária sobre as marcas profundas da repressão e a resistência através da literatura na Amazônia contemporânea. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

Inventário de um silêncio, uma obra necessária sobre as marcas profundas da repressão e a resistência através da
literatura na Amazônia contemporânea. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.

Ainda fazem da flor / Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão
(Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré, 1968)

Inventário de um silêncio – vencedor do Prêmio Escreviventes (2026) e publicado pelo Selo Auroras da Editora Litteralux – é o mais recente romance da escritora Sandra Godinho.

Autora de uma vasta e premiada obra, consolidou uma escrita que alia rigorosa pesquisa histórica, denúncia social e elaboração estética, sem reduzir a ficção a um mero veículo de informação. Seus livros partem, em geral, de acontecimentos reais para construir personagens que vivem conflitos profundamente humanos, nos quais a memória individual se entrelaça à memória coletiva.

Entre suas obras, destacam-se os romances que compõem a trilogia: Tocaia do Norte (Penalux, 2020), ambientado na Manaus dos anos 1960 e centrado na violência sofrida pelos indígenas Waimiri-Atroari durante a construção da BR-174; A secura dos ossos (Patuá, 2022), inspirado em A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, que denuncia a barbárie cometida contra o povo Yanomami pelo garimpo e pela extração ilegal da madeira; e Paralelo 11 (Faria e Silva, 2026), finalista do Prêmio LeYa (2024), que revisita o massacre dos Cinta-Larga, ocorrido em 1963, na divisa entre Rondônia e Mato Grosso.

Inventário de um silêncio reafirma esse projeto estético. Como esclarece a autora na nota final, trata-se de “uma história de ficção baseada em fatos históricos narrados fielmente tal como aconteceram” (p. 184), construída a partir de pesquisas de Samuel Benchimol, Etelvina Garcia e Luci Praun, entre outras fontes documentais. Contudo, a pesquisa histórica não se sobrepõe à literatura, ela sustenta a ficção, enquanto a dimensão humana das personagens conduz a narrativa.

A palavra “inventário” ultrapassa aqui seu sentido mais imediato. Não designa a relação dos bens ou heranças materiais deixadas após uma perda, mas aquilo que escapa a qualquer registro oficial: a memória fragmentada, os afetos interrompidos, as perdas sem luto e os vazios produzidos pela violência.

Como inventariar uma memória estilhaçada pela ditadura? Como reunir as ausências, o amor em tempos de escassez e a vida de dois irmãos marcada pela mesma mulher? Godinho enfrenta essas questões sem recorrer a respostas fáceis. Por meio de Joel, Murilo e Bianca, desenha uma cartografia das perdas que confronta não apenas a história das personagens, mas também a condição humana.

A narrativa inicia-se in medias res. Em 1986, durante uma viagem de trabalho ao Rio de Janeiro, Murilo acredita avistar Joel na Cinelândia, doze anos após seu desaparecimento. Incapaz de alcançá-lo, permanece a dúvida: teria realmente visto o irmão ou sucumbido a mais uma armadilha da memória? A cena inaugural estabelece o eixo da obra. Para além de trazer à tona o desaparecimento de Joel, Inventário de um silêncio acompanha os efeitos da ausência sobre aqueles que permaneceram.

Dessa forma, a memória passa a funcionar como experiência traumática. A escrita desloca-se continuamente entre lembrança, imaginação e delírio, tornando impossível distinguir com segurança os limites entre o vivido e o rememorado. Dessa instabilidade nasce a força do livro. O desaparecimento de Joel converte-se na ausência em torno da qual gravita toda a existência de Murilo. É sua voz – a de um homem “clivado” e “hermético” – que conduz a narrativa, predominantemente em primeira pessoa. A escolha desse foco narrativo, porém, não busca conferir autoridade ao relato, mas evidenciar sua precariedade.

O protagonista narra a partir das fissuras da lembrança, impossibilitado de reconstruir o passado como totalidade. Há momentos em que observa a própria existência como se estivesse fora dela, num desdobramento da consciência que traduz literariamente a experiência do trauma. O passado irrompe continuamente sobre o presente, submetendo-o a um movimento incessante de revivescência. Sandra Godinho cria, assim, um narrador cuja maior fragilidade reside precisamente na impossibilidade de esquecer.

Essa instabilidade repercute na própria composição da obra, dividida em três partes – O (im)provável, O delírio e O possível. Tal estrutura acompanha o percurso interior do narrador diante da ausência do irmão. À medida que a narrativa avança, realidade, memória e imaginação deixam de constituir domínios claramente delimitados, aproximando a leitora ou o leitor da experiência subjetiva do protagonista. Desse modo, experimentam a lenta erosão da consciência de Murilo, provocada pela culpa e pela espera.

Sem abrir mão da contenção narrativa, Godinho articula imagens de intensa densidade poética. A plasticidade de sua escrita amplia a dimensão emocional da obra e faz da linguagem o espaço privilegiado para representar aquilo que dificilmente poderia ser dito de forma direta: o peso da ausência, a persistência da culpa e a espessura do silêncio.

Entre as imagens que dão corpo a essa experiência, a “bola de gude” ocupa lugar central. Como leitmotiv, o objeto reaparece em momentos decisivos, acumulando sentidos que ultrapassam sua materialidade. E, ao reaparecer constantemente, acompanha o percurso psicológico de Murilo e torna visível aquilo que ele não consegue verbalizar. Sempre que a angústia o assalta ou a lembrança de Joel ressurge, leva a mão ao bolso e faz a esfera deslizar entre os dedos. O gesto repetido ao longo da narrativa funciona como um ritual íntimo de contenção da dor, uma tentativa de ordenar aquilo que a linguagem não consegue alcançar. As passagens em que o objeto retorna evidenciam a consistência dessa construção simbólica:

Cerro os dedos da mão dentro do bolso da calça, aperto a bola de gude, a mesma usada por você, Joel, para caçar calangos na mata. Agarro-a com força, enquanto minha pulsação se sincroniza aos assaltos da memória” (p. 12).

Minha mão se abre, afrouxa a bola de gude e o tempo volta a correr, tanto quanto a paisagem na escotilha, forçando em mim um novo caudal de lembranças: a última vez que estive com Joel e o momento exato que o perdi” (p. 21).

Jogo as calças sobre a poltrona e a bola de gude escapa do bolso. Rola, rola, infância. Rola para a casa do (…)” (p. 31)

Sou fiel ao que sempre fui: um cara racional que tem o hábito irracional de rolar uma bola de gude no bolso da calça e que se deixa sugar pelo silêncio à sua volta” (p. 132).

Ao romper o relato em diferentes momentos, a “bola de gude” surge também como o vestígio material de uma ausência. A forma esférica reforça essa dimensão simbólica ao sugerir retorno, repetição e circularidade, como a memória traumática, que gira incessantemente em torno da perda sem encontrar repouso. Em vez de interpretar o sofrimento de Murilo, Sandra Godinho permite que ele se revele pela repetição de gestos, pelos silêncios e pelas pequenas obsessões que o acompanham.

Se a “bola de gude” sistematiza simbolicamente a memória do protagonista, a estrutura temporal amplia esse mesmo movimento. A cronologia de Inventário de um silêncio estende-se da década de 1940, quando nascem Joel e Murilo, até 1988, ano da promulgação da Constituição federal, marco da redemocratização brasileira após mais de duas décadas de ditadura militar. No entanto, a estrutura temporal do romance está longe de obedecer a uma linearidade convencional.

Ainda adolescentes, os irmãos chegam a Manaus, em 1963, após a morte da mãe e as sucessivas crises de malária que debilitam o pai. Vindos de uma comunidade dedicada à coleta da castanha pertencente ao empresário Davi Benoliel, encontram uma cidade marcada pelo declínio do ciclo da borracha e pelas tensões políticas que antecedem o golpe de 1964.

A mudança representa a ruptura com um modo de vida orgânico e inaugura o processo de fragmentação afetiva que atravessará toda a obra. Manaus, porém, nunca se reduz a cenário, pois à proporção que se moderniza sob a lógica autoritária do regime militar, deterioram-se também os vínculos familiares, as relações de trabalho e a própria possibilidade de diálogo entre os irmãos. Cidade e protagonista parecem desenvolver-se em paralelo, ambos atravessados por perdas, deslocamentos e ruínas.

Contratados por Benoliel para trabalhar na mesma refinaria de petróleo, Joel e Murilo seguem trajetórias opostas. Enquanto Joel se aproxima do movimento sindical e da organização dos trabalhadores, Murilo assume uma função administrativa e conquista a confiança do proprietário da empresa. A oposição, contudo, não se reduz a um conflito ideológico. Godinho constrói dois irmãos igualmente complexos, unidos pelo afeto, mas separados pelas escolhas que as circunstâncias históricas lhes impõem. Os irmãos assemelham-se aos rios Negro e Solimões. Embora compartilhem o mesmo curso por longos trechos da vida, jamais se confundem. Como no Encontro das Águas, seguem lado a lado, mas preservam correntes próprias e distintas maneiras de enfrentar o curso imprevisível da vida.

O amor entre os irmãos jamais desaparece. O que cresce entre eles é o silêncio, ampliado pela repressão que se instala após a encampação da refinaria pelos militares, em 1970. Em meio a perseguições, demissões e transferências, Joel é enviado, possivelmente por influência do próprio irmão, para a refinaria Landulfo Alves, em Salvador, onde desaparece em 1974. A partir daí, a culpa se converte no princípio organizador da vida de Murilo. Enquanto Joel permanece desaparecido, nenhuma decisão pode ser concluída; nenhuma felicidade pode ser plenamente vivida. A espera transforma-se em modo de existência.

Nesse contexto, Bianca ultrapassa a condição de vértice de um triângulo amoroso. Sua presença sustenta a vida que insiste em seguir adiante. É ela quem reinventa o cotidiano, sustenta o lar deteriorado pelas rusgas e preserva, apesar de tudo, a possibilidade de florescimento. Murilo reconhece essa força ao afirmar: “Ela floreou um cemitério, entende? O cemitério que era minha vida”. A imagem sintetiza a tensão entre devastação e esperança que percorre toda a obra. Não por acaso, ele também reconhece nela alguém que foi capaz de seguir adiante:

Bianca foi capaz de levar sua vida adiante, não ficou parada no tempo como eu; é uma mulher que viu sentido em enxergar outro horizonte […] é alguém que avançou, não permaneceu nas inutilidades”. (p.169-170).

A função simbólica da personagem Bianca condensa-se numa observação do narrador: “é ela que dá a partida no motor, põe tudo em funcionamento, como em funcionamento ela tudo sempre põe” (p.26). A constatação do narrador vai além da caracterização da personagem e revela sua posição na economia do romance. Enquanto Murilo permanece imobilizado pela memória e Joel se converte em ausência, Bianca encarna o impulso vital que resiste à paralisia imposta pelo trauma.

É essa tensão entre memória e sobrevivência que Murilo explicita ao dizer: “A memória é agora uma língua morta. Quero continuar vivo, mover os músculos, permanecer em mim com a luminescência que me é devida, sem feder a fantasmas, nem me contaminar por luzes intrusas que buscam cortejar meus silêncios” (p. 161). A memória é o idioma incapaz de devolver a vida àquilo que perdeu.

O verdadeiro desafio do protagonista não é recordar, mas encontrar uma forma de existir sem permanecer prisioneiro da lembrança. O silêncio estrutura a narrativa: atravessa a linguagem, os afetos, a memória e a própria construção das personagens.

Essa centralidade do silêncio também se manifesta na rede de referências musicais que atravessa o romance. Se ao longo da leitura ecoam em surdina canções como “Casa no campo”, na interpretação de Elis Regina – “Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz” (p. 135) –, ou “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso – “Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento” (p. 25) –, é Geraldo Vandré quem oferece uma das chaves simbólicas da leitura. A epígrafe que abre esta resenha reencontra aqui seu sentido mais profundo. Diante das ruínas deixadas pela ditadura, das vidas e sonhos interrompidos e dos silêncios herdados, permanece a pergunta de Murilo:

O que aconteceu com as flores de Vandré?” (p. 171).

Godinho tampouco procura encerrar as inquietações que o romance suscita. Prefere conservar viva a memória daqueles que foram silenciados, sugerindo que, enquanto houver quem conte essas histórias, as flores continuarão resistindo ao canhão.  Nessa recusa ao esquecimento reside uma das maiores forças de Inventário de um silêncio.

Inventário de um silêncio

Autor: Sandra Godinho

Ano: 2026

Páginas: 184

Idioma: Português

Editora: Litteralux

Marta Cortezão é poeta e escritora amazonense, cuja escrita se destaca pela sensibilidade, pelo lirismo e pelo olhar atento à literatura e à experiência humana.

Arte: Loan Bastos
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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