Sonhar com os próprios olhos: infâncias ribeirinhas e o direito de se ver na Amazônia
Crianças da Ilha do Combu fotografaram o próprio território. Agora, no Terminal Hidroviário Ruy Barata, suas imagens devolvem à cidade uma pergunta: quem tem o direito de imaginar a Amazônia e de imaginar-se nela?

A alegria colectiva como expressão máxima da infância: quando as crianças ocupam o centro da cena, o rio deixa de ser apenas cenário
e passa a pulsar com a força do presente e do futuro.Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
Na Ilha do Combu, crianças e adolescentes receberam câmeras para fotografar o lugar onde vivem. A família. O rio. Os caminhos, as casas, o trabalho, as brincadeiras. Agora essas imagens atravessaram o Guamá e ocupam o Terminal Hidroviário Ruy Barata, em Belém, um lugar de passagem, aberto e gratuito, onde a cidade espera os barcos.
A exposição O Olhar Que Mora Aqui, idealizada pela fotógrafa Grazi Caliman, com curadoria dela e de Patricia Brasil, nasceu de oficinas realizadas em abril de 2026 com onze participantes. A mostra estreou em junho na Galeria Popopô, a primeira galeria de arte da ilha, e desde 2 de outubro está no terminal, onde permanece até 5 de janeiro de 2027. “É um olhar de quem pertence àquele lugar”, resume Grazi.
Diante dessas fotografias, uma pergunta insiste. O que estamos ensinando nossas crianças ribeirinhas a sonhar? Ela parece subjetiva numa região onde tantas urgências ainda são concretas. Na Amazônia Legal vivem cerca de 9,1 milhões de crianças e adolescentes, quase um terço da população da região. Escola, saúde, saneamento, proteção. Precisamos discutir tudo isso. Existe, porém, uma dimensão da infância que dificilmente aparece nos indicadores.

Quando a infância ribeirinha assume a lente, o cotidiano deixa de ser paisagem para se tornar autoria. Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
Dois sentidos para sonhar
A palavra sonho guarda dois sentidos que convém separar. Há o sonho da noite, que Freud tomou como objeto em A interpretação dos sonhos, de 1900. Ali, os sonhos das crianças pequenas aparecem como realizações de desejo pouco disfarçadas, quase transparentes. O próprio Freud reviu essa leitura ao longo da obra e passou a admitir que também neles opera a deformação que caracteriza o sonho adulto. Esse sonho fala do inconsciente. Não se ensina, não se escolhe, não se planeja.
O outro é o sonho acordado. É dele que se fala quando se pergunta a uma criança o que ela quer ser, para onde quer ir, que vida imagina para si. Paulo Freire chamou de inédito viável esse futuro que ainda não existe e já pode ser feito, e que aparece quando a leitura crítica da realidade permite ultrapassar as situações-limite. O antropólogo Arjun Appadurai deu ao fenômeno um nome sociológico: capacidade de aspirar. Aspirar, para ele, é uma capacidade cultural, desigualmente distribuída, que se fortalece com a prática e com o repertório disponível, uma espécie de capacidade de navegação9. Numa região cortada por rios, a imagem é quase literal. Quem conhece mais caminhos navega melhor.
É desse segundo sonho que este texto trata. Que referências essas crianças encontram para imaginar aquilo que podem ser? Que experiências de arte, fotografia, cinema e literatura chegam até elas? Quantas vezes podem contar, com as próprias imagens, a história do lugar onde vivem? O que uma criança consegue imaginar também é atravessado pelo mundo que lhe permitimos conhecer.
Um espaço para imaginar
Donald Winnicott ajuda a pensar onde essa capacidade se forma. Em O brincar & a realidade, ele descreve um espaço potencial, uma área intermediária de experiência situada entre o mundo interno e a realidade compartilhada. É ali que a criança brinca, cria e, mais tarde, participa da vida cultural. Esse espaço tem uma condição. Ele só se abre num ambiente confiável, aquele que Winnicott chamou de suficientemente bom.
Uma oficina de fotografia pode ser esse ambiente. Pesquisas sobre educação para a arte na Amazônia mostram que o encontro com a arte ganha força quando é mediado, quando alguém ajuda a educar os sentidos e a transformar o olhar em conhecimento. Entregar câmeras é o gesto visível. O trabalho decisivo acontece antes e depois do clique. Ana Mae Barbosa organizou o ensino da arte em três ações que se alimentam mutuamente: fazer, ler e contextualizar. Fotografar é fazer. Olhar juntos as imagens é ler. Levá-las à cidade é contextualizar.

Navegar é a primeira gramática da infância na ilha: nas águas do Combu, o rio não é apenas caminho ou paisagem, mas o próprio território onde se aprende a traçar o futuro. Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
Fotografar é escolher
Entre tudo aquilo que existe diante dos olhos, quem fotografa decide o que entra na imagem, o que permanece fora dela e o que merece ser guardado. Toda fotografia carrega alguma coisa de quem fotografa. Repertório, memória, afeto. Experiência e território. Boris Kossoy chama isso de filtro cultural, a marca de quem está por trás da câmera em cada imagem produzida.
Pesquisas realizadas no Pará ajudam a compreender a potência desse gesto. No baixo Tocantins, crianças e adolescentes ribeirinhos e quilombolas foram convidados a mapear os próprios territórios. Nos mapas apareceram as formas de interação com o ambiente, o trabalho das famílias e a luta por acesso à educação, e os desenhos passaram a servir também como documento de reivindicação de políticas públicas. Representar o próprio lugar é um gesto estético. É também um gesto político.
A fotografia produz no Combu um movimento semelhante. O que se vê nas paredes do terminal é o Combu que uma criança escolheu nos mostrar.
Quem está atrás da câmera
Durante muito tempo, a Amazônia foi fotografada por quem chegava de fora. Viajantes, expedições, reportagens, cartões-postais. Formou-se um repertório vasto sobre a região, e nele as crianças ribeirinhas apareceram muitas vezes como parte da paisagem. Superar esse imaginário exotizado exige um olhar de dentro para fora, capaz de reconhecer que a região se diz no plural, feita de muitas Amazônias e de muitos amazônidas.
O Olhar Que Mora Aqui soma-se a outras experiências que entregaram a câmera a quem costumava ser fotografado. No próprio Combu, Meu mundo teu, de Alexandre Sequeira, aproximou um adolescente da ilha e uma jovem do bairro do Guamá na criação conjunta de imagens. Fora do Brasil, Wendy Ewald ensina há décadas crianças a fotografar as próprias vidas, e o método photovoice, proposto por Caroline Wang e Mary Ann Burris em 1997, fez da câmera um instrumento de escuta comunitária. Em cada uma dessas experiências, a criança deixa o lugar de personagem e assume a autoria da imagem.

De frente para a travessia e com a cidade ao fundo, o olhar da infância reivindica o direito de imaginar e habitar o próprio horizonte. Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
A travessia
A Ilha do Combu está a poucos minutos de barco do centro de Belém. Do outro lado do rio estão museus, teatros, universidades, cinemas, bibliotecas e galerias. A distância, porém, também se mede em acesso. Pierre Bourdieu e Alain Darbel mostraram que a frequência aos museus depende sobretudo do capital cultural, da familiaridade construída com os códigos da arte ao longo da vida. No Brasil, segundo dados do Ministério da Cultura e do IBGE, 92% da população nunca frequentou um museu.
A pergunta sobre onde está a arte se desdobra, então, em outras. Quem consegue chegar até ela? Quem aprendeu a reconhecê-la? E quem já se viu dentro dela? Há algo importante nessa discussão. Perguntar como levar as pessoas aos espaços onde decidimos colocar a arte é parte do caminho. Também precisamos perguntar como criar condições para que a arte exista onde as pessoas estão.
O projeto percorreu os dois sentidos dessa travessia. As fotografias nasceram na ilha, estrearam na própria ilha e depois atravessaram o rio. No terminal, a mostra é gratuita, fica aberta das 9h às 18h e encontra um público que não saiu de casa para ver arte. Quem espera o barco, quem trabalha no entorno, quem cruza o Guamá todos os dias. Essas pessoas encontram o Combu pelos olhos das crianças que vivem nele. Os registros são das próprias vidas.

Nas brincadeiras à beira do rio, as crianças reafirmam o território como lugar de criação, liberdade e vida plena. Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
Ver-se e olhar
Existe uma diferença entre ser visto e poder construir a própria imagem. Entre aparecer numa fotografia e decidir para onde apontar a câmera. Entre ser personagem de uma narrativa sobre a Amazônia e ser reconhecido como alguém capaz de produzi-la. Stuart Hall mostrou que as imagens produzem sentidos sobre aquilo que mostram. Gayatri Spivak perguntou quem tem a palavra quando se fala dos grupos subalternizados. Nas fotografias do Combu, a resposta ganha forma concreta.
Grazi conta que percebeu “um certo encantamento” quando os participantes se viram nas imagens, com suas famílias e os lugares onde vivem. “Parecia que estavam olhando para o próprio território de uma maneira diferente”. Ver-se na imagem é uma forma de reconhecimento. A casa vira narrativa. O cotidiano vira linguagem. O olhar da criança passa a ocupar um espaço onde outras pessoas param para ver o mundo a partir do lugar de onde ela olha.
Essas crianças já imaginavam antes da câmera. Em pesquisa com crianças do Combu, Sônia Teixeira e José Moysés Alves observaram que a beira do rio era o principal lugar das brincadeiras e que o faz de conta reproduzia a coleta do açaí, a pesca e o trabalho dos barqueiros. A sociologia da infância chama isso de culturas da infância e reconhece as crianças como atores sociais, que interpretam o mundo e produzem sentidos próprios sobre ele. A câmera traduz essa imaginação em imagem e a leva até a cidade.

Olhar o horizonte das águas é exercitar a capacidade de aspirar e de desenhar os caminhos que ainda estão por vir. Foto: Acervo do projeto O Olhar Que Mora Aqui.
O que o projeto nos ensina
Uma criança que aprende fotografia não precisa se tornar fotógrafa. Uma criança que entra numa galeria não precisa se tornar artista. A arte precisa poder fazer parte do repertório a partir do qual o futuro será imaginado. O acesso amplia caminhos possíveis. Apresenta linguagens. Cria experiências. Oferece referências.
Há ainda uma lição mais silenciosa. Para alcançar novos futuros, nem sempre é preciso partir. É possível reconhecer o próprio lugar como lugar de futuro, de arte, de vida e de reconhecimento. João de Jesus Paes Loureiro encontrou no universo ribeirinho a expressão que melhor conserva a poética do imaginário amazônico. Ailton Krenak sugere procurar o futuro naquilo que já está aqui, nos rios, nas relações, nos modos de vida. O futuro, assim como os rios, é construído coletivamente, na formulação de Vânia Leal Machado.
O Olhar Que Mora Aqui não tem a pretensão de transformar, sozinho, as desigualdades históricas que atravessam as infâncias amazônicas. Essa responsabilidade pertence às políticas públicas, às instituições e à sociedade. Sua potência está em outra escala, a das perguntas que nos ajuda a formular. Onde estão as políticas de acesso à arte para as crianças que vivem às margens dos rios? Quem lhes apresenta fotografia, cinema e literatura, e quem lhes mostra como se produz arte a partir do próprio lugar? Quantas vezes perguntamos às crianças ribeirinhas o que elas veem, criam e imaginam?
No terminal, entre um barco e outro, Belém olha para o Combu com os olhos de quem mora lá. Talvez seja essa a lição mais simples do projeto. Ver-se também é um direito. E é a partir dele que se aprende a sonhar.

Exposição O Olhar que Mora Aqui
Idealização e coordenação: Grazi Caliman
Curadoria: Grazi Caliman e Patrícia Brasil
Local: Terminal Hidroviário Ruy Barata, Praça Princesa Isabel, Condor, Belém (PA)
Período: 2 de outubro de 2026 a 5 de janeiro de 2027
Horário: 9h às 18h
Entrada: gratuita
Thaís Fernandes é é mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura e possui MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela FGV. É diretora da Afya Educação Médica em Belém, professora e consultora nas áreas de gestão, comunicação e responsabilidade social. Atua há mais de dez anos no setor educacional e desenvolve projetos e pesquisas relacionados à Amazônia, educação, comunicação, gestão e impacto social.
Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
