Na beira do rio: os desafios de fazer o cuidado chegar aos povos tradicionais da Amazônia

Entre a desigualdade na distribuição de médicos, a logística fluvial e os vazios da assistência, cuidar na Amazônia exige uma gestão capaz de compreender o território

Deslocamento e travessia em áreas rasas: onde as águas ditam os caminhos, a assistência em saúde depende da superação diária dos desafios geográficos. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.
Deslocamento e travessia em áreas rasas: onde as águas ditam os caminhos, a assistência em saúde depende da superação diária dos desafios geográficos. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.
Deslocamento e travessia em áreas rasas: onde as águas ditam os caminhos, a assistência em saúde depende da superação diária dos desafios geográficos. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.

Deslocamento e travessia em áreas rasas: onde as águas ditam os caminhos, a assistência em saúde depende da superação diária
dos desafios geográficos. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.

Na Amazônia, a distância tem correnteza. Ela carrega o tempo da maré, a força do motor, o preço do combustível, a chuva que muda o percurso e a embarcação disponível quando alguém precisa sair de sua comunidade em busca de atendimento. Uma consulta pode durar menos de uma hora. Chegar até ela pode consumir um dia inteiro. Em alguns lugares, muito mais.

Para os povos das águas, o rio é caminho, trabalho, memória e pertencimento. A barreira aparece quando as políticas públicas, os serviços e os indicadores são construídos a partir de outra geografia, quase sempre urbana, onde o deslocamento começa em uma rua, segue por uma estrada e termina diante de uma unidade de saúde. Na beira do rio, o cuidado começa antes da presença do médico. Começa no porto.

Há comunidades a poucos minutos de um centro urbano e, ainda assim, separadas dele por uma distância que o relógio não mede. Do outro lado da água, a paisagem não é cenário. É casa, trabalho, alimento, memória e relação. Há uma lição importante para a saúde nessa mudança de olhar: chegar a uma comunidade é diferente de conhecê-la. O cuidado começa quando o território deixa de ser apenas o destino de uma ação e passa a participar de sua construção.

Para os povos tradicionais, o rio é estrada, trabalho e morada. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.

Para os povos tradicionais, o rio é estrada, trabalho e morada. Foto: Thaís Fernandes/Acervo Pessoal.

Muitas Amazônias, poucos médicos

Falar de saúde na Amazônia exige reconhecer, primeiro, que existem muitas Amazônias. Um retrato publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2025, com base no Censo de 2022, contabilizou 26,48 milhões de habitantes na Amazônia Legal. Nesse território viviam 868.419 indígenas, mais da metade de toda a população indígena brasileira.

Vivem também quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais, quebradeiras de coco-babaçu, povos de terreiro e tantas outras comunidades cujos modos de produzir, cuidar e compreender o mundo estão ligados ao campo, à floresta e às águas (IBGE, 2025).

São povos diferentes, com histórias, línguas, organizações e necessidades distintas. Reuni-los sob uma mesma expressão ajuda a formular políticas, mas nunca deve apagar suas particularidades. O primeiro compromisso de uma política de saúde territorial é justamente reconhecer quem vive no território antes de decidir como o cuidado deverá chegar.

A edição nacional mais recente da Demografia Médica no Brasil, publicada em 2025, estimou que o país encerrou 2024 com 597.428 médicos em atividade. Desse total, 353.287, ou 59,1%, possuíam título de especialista. Outros 244.141 eram classificados pelo estudo como generalistas, denominação utilizada para médicos sem título reconhecido por residência médica ou sociedade de especialidade (Scheffer, 2025).

O número nacional cresceu, mas sua distribuição permanece profundamente desigual. Ao comparar as unidades da Federação por registros nos Conselhos Regionais de Medicina, o estudo encontrou 1,27 registro médico por mil habitantes no Maranhão, 1,37 no Pará, 1,46 no Amapá e 1,58 no Amazonas. A média brasileira era de 3,08 registros por mil habitantes. O dado estadual, porém, ainda esconde a parte mais aguda do problema: a concentração nas capitais.

No Amazonas, havia 6.749 registros médicos. Manaus concentrava 6.358. Todos os demais municípios do maior estado brasileiro em extensão territorial dividiam apenas 391 registros, uma densidade de 0,20 por mil habitantes fora da capital. Em Roraima, 1.238 dos 1.271 registros estavam em Boa Vista. Restavam 33 para os outros municípios, apenas 0,13 por mil habitantes. No Amapá, a densidade fora de Macapá era de 0,31.

O Pará repete essa desigualdade em outra escala. Dos 11.865 registros médicos do estado, 7.902 estavam em Belém. A capital apresentava 5,65 registros por mil habitantes; os outros 143 municípios, considerados em conjunto, registravam 0,55. A distância entre essas duas densidades é superior a dez vezes. Antes mesmo de o rio entrar no cálculo, o endereço já determina possibilidades muito diferentes de acesso.

O perfil estadual do Atlas da Demografia Médica permite enxergar outra camada. No Pará, 6.128 médicos eram especialistas e 5.737 eram generalistas, correspondendo, respectivamente, a 51,6% e 48,4% do total contabilizado. Esses números, contudo, indicam registros profissionais. Eles não asseguram que o médico esteja disponível diariamente, trabalhe no SUS, permaneça no interior ou consiga alcançar as comunidades mais afastadas das sedes municipais. Um profissional pode existir na estatística e continuar distante da vida de quem precisa dele.

A desigualdade aumenta quando o cuidado exige um especialista. O Pará possuía 70,73 especialistas por 100 mil habitantes, a segunda menor densidade do país, acima apenas do Maranhão, com 68,22. No Amazonas, eram 81,29. A média brasileira chegava a 184,36 especialistas por 100 mil habitantes. Em outras palavras, a densidade nacional de especialistas era mais de duas vezes e meia superior à paraense.

Os vazios ficam ainda mais evidentes em algumas áreas. Somados os registros estaduais das nove unidades da Federação que compõem total ou parcialmente a Amazônia Legal, o Atlas contabilizava apenas 13 especialistas em Genética Médica. Amapá, Roraima e Tocantins não possuíam nenhum registro nessa especialidade. Medicina de Emergência reunia 38 especialistas nesse conjunto de estados. Radioterapia, 68. Mais do que números pequenos, esses dados apontam jornadas longas para pessoas que já chegam ao sistema atravessadas pela espera (Scheffer, 2025).

Quando a distância entra no diagnóstico

A ausência de um especialista em uma grande cidade produz uma fila. Em um território ribeirinho, essa mesma ausência ganha horas de navegação, custo, necessidade de hospedagem, afastamento do trabalho e incerteza sobre o retorno. Muitas vezes, o primeiro atendimento acontece. O exame, o diagnóstico e a continuidade seguem outro caminho, mais demorado e menos visível.

Um estudo realizado em Maués, no Amazonas, ajuda a dar medida humana a essa distância. Entre as comunidades analisadas, a mais próxima estava a cerca de 30 minutos da sede municipal. As mais distantes exigiam aproximadamente 18 horas de barco ou rabeta. O tempo médio de deslocamento em busca dos serviços de saúde era de 4,2 horas. O percurso mudava conforme o clima, a estação do ano, a embarcação e a potência do motor. Algumas famílias sequer possuíam transporte próprio ou recursos para pagar a passagem (Almeida et al., 2022).

Em uma urgência, quatro horas não representam somente distância. Podem separar um sintoma de um diagnóstico, uma gestante do atendimento seguro, uma complicação da possibilidade de resposta. O tempo do rio passa a integrar o próprio desfecho em saúde.

Essa realidade também aparece na fala de quem exerce o cuidado. Médico atuante em comunidades ribeirinhas, Fagner Carvalho resume:

O maior desafio é vencer as distâncias e as limitações de acesso sem permitir que isso reduza a qualidade do cuidado.”

Ele relata que as equipes atendem casos complexos, muitas vezes com poucos recursos, e precisam trabalhar com o que está disponível para oferecer uma assistência segura, humana e resolutiva. A logística fluvial, as longas distâncias, as chuvas, a maré baixa e o tempo de deslocamento fazem parte da rotina dos profissionais e também dos pacientes.

O médico Fagner Carvalho em atendimento domiciliar a morador ribeirinho cuidado que se constrói no vínculo e na escuta dentro da própria comunidade. Foto Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

O médico Fagner Carvalho em atendimento domiciliar a morador ribeirinho cuidado que se constrói no vínculo e na escuta dentro da própria comunidade. Foto Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

Quando a assistência precisa se mover

O Sistema Único de Saúde construiu respostas importantes para essas realidades. As equipes de Saúde da Família Ribeirinhas e as Unidades Básicas de Saúde Fluviais reconhecem que o cuidado precisa se mover. Uma unidade fluvial pode levar consulta médica, enfermagem, odontologia, vacinação, medicamentos, exames e procedimentos a comunidades cujo acesso ocorre pela água. As chamadas ambulanchas ampliam a possibilidade de remoção em situações urgentes.

Falar de assistência à saúde também impede que essa análise seja reduzida à demografia médica. O médico é indispensável, mas o cuidado se sustenta em uma rede formada por enfermeiros, técnicos de enfermagem, cirurgiões-dentistas, farmacêuticos, profissionais de diagnóstico, psicólogos, assistentes sociais, agentes comunitários e agentes indígenas de saúde. Nas comunidades tradicionais, são muitas vezes esses agentes que permanecem quando a embarcação parte. Eles reconhecem as famílias, acompanham gestantes, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas, orientam sobre medicamentos, identificam riscos e fazem a ligação entre diferentes saberes, linguagens e pontos da rede.

A assistência também depende de unidades estruturadas, vacinas conservadas, medicamentos disponíveis, exames, transporte sanitário, regulação, leitos e serviços de referência. Sem essa base, a consulta corre o risco de se tornar uma presença isolada, quando o que a saúde exige é permanência.

O médico Fagner Carvalho durante atendimento em comunidade ribeirinha: a rotina clínica adaptada à realidade das casas de madeira no interior da Amazônia. Foto: Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

O médico Fagner Carvalho durante atendimento em comunidade ribeirinha: a rotina clínica adaptada à realidade das casas de madeira no interior da Amazônia. Foto: Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

Estudos realizados em municípios amazonenses identificaram ampliação da cobertura da Atenção Primária com as equipes ribeirinhas e fluviais. Também mostraram que o trabalho nesses territórios possui uma complexidade pouco capturada pelos indicadores convencionais. A equipe pode incluir piloto, comandante, cozinheira e ajudante de embarcação. Profissionais de saúde precisam conhecer canais dos rios, organizar alimentação, insumos e combustível, conviver durante dias no local de trabalho e incorporar as horas de deslocamento à jornada.

Entre uma visita e outra da unidade fluvial, uma comunidade pode esperar de um a dois meses, conforme o período do ano e o regime das águas (Lima et al., 2021).

Grande parte dessa estrutura permanece invisível nas métricas de produtividade. A planilha registra consultas, procedimentos e vacinas. Dificilmente registra a pessoa que conduziu a embarcação, o motor reparado no meio da viagem, o tempo necessário para alcançar uma casa isolada ou a atuação do agente comunitário que manteve o vínculo com a família enquanto a equipe não retornava.

Na saúde, também precisamos perguntar o que permanece quando a equipe recolhe os equipamentos e o barco parte. O valor de uma ação não está apenas no número de atendimentos realizados naquele dia, mas no vínculo criado, no exame que terá continuidade, no resultado que será devolvido, no diagnóstico que encontrará tratamento e na confiança de que o serviço poderá ser acessado novamente. A assistência se realiza nesses gestos cotidianos, quase sempre discretos, que sustentam uma história e permitem que ela continue.

Uma gestão que acompanhe o curso das águas

Registro e preenchimento de prontuários em consultório improvisado em casa de madeira: a atuação profissional adaptada à realidade do território. Foto: Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

Preenchimento de prontuários em consultório improvisado em casa de madeira: a atuação profissional adaptada à realidade do território. Foto: Fagner Carvalho/Acervo Pessoal.

Na gestão da saúde amazônica, eficiência não pode significar apenas fazer mais em menos tempo. Precisa considerar o que o território exige para que o cuidado aconteça com segurança, qualidade e continuidade. Comparar uma equipe urbana a uma equipe fluvial pelos mesmos parâmetros pode transformar desigualdade em aparente ineficiência. O custo de uma consulta na beira do rio carrega toda a estrutura necessária para fazer um direito atravessar distâncias.

O próprio Ministério da Saúde reconhece essa especificidade. Em 2026, uma nota técnica registrou 784 municípios da Amazônia Legal e do Pantanal Sul-Mato-Grossense elegíveis para a implantação de equipes de Saúde da Família Ribeirinhas. A norma ampliou essa possibilidade para outros territórios ribeirinhos, costeiros e marítimos do país, mas preservou a compreensão de que, onde as águas definem os caminhos, a Atenção Primária precisa de financiamento, equipes e meios de transporte adaptados (Ministério da Saúde, 2026).

Escrevo a partir de Belém, onde atuo na gestão da educação médica e observo como formação profissional e acesso ao cuidado permanecem ligados. Aumentar o número de médicos é necessário, mas o território também precisa entrar na formação. Cuidar na Amazônia exige excelência técnica, capacidade de escuta, comunicação intercultural, conhecimento dos determinantes ambientais e sociais, compreensão das redes do SUS e disposição para construir soluções com as comunidades.

Também exige formação e condições para permanecer. A distribuição dos médicos não será resolvida apenas pela abertura de novos cursos ou por deslocamentos temporários. Depende de residência médica, carreira, infraestrutura, segurança profissional, conectividade, equipamentos e redes de referência capazes de sustentar o trabalho no interior. Um especialista sem estrutura não consegue exercer plenamente sua especialidade. Uma consulta sem possibilidade de exame não encerra uma jornada. Um diagnóstico sem transporte, regulação e retorno dificilmente se transforma em tratamento.

Tecnologias como a telessaúde podem aproximar profissionais, apoiar diagnósticos e evitar deslocamentos desnecessários. Seu alcance, contudo, depende de conexão, equipamentos, equipes locais e capacidade de encaminhamento. A tela reduz algumas distâncias; a presença territorial continua indispensável.

Fazer o cuidado chegar aos povos tradicionais da Amazônia requer, portanto, uma rede que comece na comunidade e permaneça conectada a ela. Essa rede passa pelas lideranças locais, pelos agentes indígenas e comunitários de saúde, pelas equipes ribeirinhas, pelo transporte sanitário, pelos hospitais regionais, pelos serviços de diagnóstico e pelos especialistas. Passa também pela escuta. Uma política desenhada para o território precisa ser construída com quem conhece o movimento das águas, os períodos de maior isolamento, os modos de cuidado e as necessidades que não aparecem nos sistemas oficiais.

O desafio da saúde amazônica não cabe apenas na pergunta sobre quantos médicos existem. Precisamos perguntar onde estão, quais especialidades possuem, em que rede trabalham, quanto tempo o paciente leva para alcançá-los e o que acontece depois da primeira consulta. Precisamos saber se o exame será realizado, se o resultado encontrará o caminho de volta e se haverá condições para continuar o tratamento.

Na beira do rio, uma presença eventual pode aliviar urgências. A continuidade transforma atendimento em cuidado e cuidado em direito. Quando a gestão aprender a acompanhar o curso das águas, o rio continuará sendo o que sempre foi para esses povos: caminho. E a saúde poderá chegar sem pedir que o território deixe de ser quem é.

Referências

Thaís Fernandes é mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, na linha de pesquisa Sociedade, Representações e Tecnologia, graduada em Marketing e possui MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente, é diretora da Afya Educação Médica em Belém. Tem mais de dez anos de trajetória no setor educacional, com experiência em docência, gestão acadêmica, pesquisa, extensão e liderança. Atua também em projetos de consultoria em gestão, desenvolvimento organizacional e territorial, estratégia e pessoas. É autora de artigos e revisora técnica de livros, com produção nas áreas de comunicação, educação, gestão e Amazônia. Ministra palestras, cursos e workshops no Brasil e no exterior sobre gestão, liderança, comunicação, sustentabilidade, inovação, educação e protagonismo feminino.

Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção:
 Marcos Colón

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