A ontologia do encante: Maria Mocoin e a resistência do imaginário na Amazônia de Inglês de Souza
Uma literatura que desafiou o cientificismo europeu e transformou a encantaria do Baixo Amazonas em uma barricada ontológica contra o apagamento colonial

Rompendo as amarras do naturalismo ortodoxo, a obra oitocentista de Inglês de Souza transforma o imaginário caboclo e tapuia
em um legítimo documento sociológico. Arte: Loan Bastos/Amazônia Latitude.
Destacar a Amazônia e suas pluralidades, encontradas apenas em seu seio, traz relevâncias consideráveis quando abrimos caminhos na literatura brasileira. Dentro de toda a sua extensão geográfica e cultural, priorizamos seus elementos humanos e naturais no espaço literário.
Entre os motivos que reiteram esse empoderamento está a grande diversidade floral e faunística local, abrigada entre rios, igarapés e igapós. Além desses elementos, destacam-se também os espaços sociais ribeirinhos dessa extensa área, pouco observada em nossa história com o devido valor cultural, literário, histórico e memorial, e com o devido respeito como um lugar sagrado, unindo sociedade e espaço natural.
Deste modo, a literatura amazônida, como a arte da escrita com a qual os escritores retomam a vida do interior nortista brasileiro, oferece ao escritor enredos abastecidos de dramas e conflitos que expressam as diversas manifestações culturais da região.
Um nome fundamental nesse cenário é o de Herculano Marcos Inglês de Souza. Nascido no município de Óbidos (PA), o autor soube empreender, com sabedoria inigualável, uma Amazônia forte e resistente, capaz de quebrar paradigmas em um período que privilegiava investigações científicas progressistas de um Brasil copiosamente europeu, mas que começava a dar seus primeiros suspiros independentes.
A quebra do paradigma urbano e o rigor naturalista
Sua perspicácia enquanto escritor e sua escrita naturalista, ao narrar os dramas dos personagens representativos do Baixo Amazonas, provocaram o alcance da região a um nível tão profundo que, sem uma leitura focada no eixo epistemológico optado pelo autor, a compreensão do enredo careceria de realidades plausíveis. Inglês de Souza demonstrou profundo conhecimento das estruturas ambientais de sua terra natal e dos primeiros anos de sua vivência territorial.
Com olhar atento e rigoroso, captou a lógica harmônica da fauna, da flora, dos fluxos fluviais e da dinâmica dos chamados “rios voadores” — massas de vapor que, adormecidas no firmamento, despertam e precipitam sobre a terra, obedecendo a um ciclo eterno de existência e renovação. Essa percepção sensível da natureza atravessa sua literatura como força vital e simbólica, entrelaçando o ambiente com os dramas humanos que nele se desenrolam.
Naquele período, o cientificismo, pregado como modelo de avanço, abria escala para produções literárias normativas acerca de modelos urbanizados, como se a cultura existisse apenas na urbe. Autores como Aluísio Azevedo e Adolfo Caminha procuravam os contornos de uma literatura autêntica, mas frequentemente restritos aos limites do naturalismo ortodoxo. Inglês de Souza, contudo, avançou esse muro ao trazer o retrato encantado da floresta na figura de Maria Mocoin, protagonista do conto A Feiticeira, publicado na coletânea Contos Amazônicos (1893).
Não passava pelas mentes dos escritores brasileiros da época mesclar a agência da encantaria à vivência real e cotidiana, e, menos ainda, conceder liberdade de caminhar a um personagem em meio a diversos cenários e contextos. Traçar um retrato simples de uma Amazônia esquecida, distante e pacata que, por outro lado, se torna o tudo, o reduto do ser amazônida na figura de uma mulher, Maria Mocoin, personagem principal do conto cuja participação cintilante aparece de forma recorrente em outros enredos romanescos do escritor.
O conto traz a quebra de paradigmas entre o Inglês de Souza figura política e o ficcionista. Essa ruptura ou mesclagem levou o autor a colocar em contraponto o cientificismo de base francesa de Émile Zola com o imaginário existente no interior da região. Embora influenciado pelo determinismo, Souza “trai” o rigor científico ao permitir que o contato fantástico do ribeirinho com a própria Amazônia prevaleça.
O tripé do sobrenatural e a inquisição do “civilizado”
Desmistificar uma Amazônia totalmente europeia não foi algo realizado de maneira simplória. Inglês de Souza desprendeu-se de dogmas científicos e literários para buscar uma estética própria, procurando tecer em seus enredos percepções aguçadas do contexto histórico e cultural, explicitando um universo diversificado de culturas em processo de hibridização.
A narrativa denota um sabor marcante ao diagnosticar três formas de lidar com o sobrenatural: a curiosidade imersa no preconceito cultural; o respeito pelo irreal como norte da convivência com a fauna e a flora; e o domínio do imaginário fértil em sintonia perfeita com os elementos da região. Esse tripé evidencia o contraste entre o conhecimento raso da cultura regional e o que, de fato, age na composição profunda das narrativas amazônicas: a agência da encantaria.
Ao mesclar o imaginário na narrativa de A Feiticeira, Souza revela o que é cultura em seu meio. Maria Mocoin não é uma mera curandeira; ela é guardiã de um saber-fazer amazônico. Senhora solitária em seu sítio, ela vive em simbiose com a floresta. Mocoin lida com a intrusão de questionamentos sobre seu modo de vida, sendo confrontada, como diria Boaventura de Sousa Santos, em uma espécie de “entrevista de inquisição” conduzida pelo ser que se pressupõe civilizado.
Há um confronto nítido de comportamentos entre o “civilizado” e o “matuto”, mas Mocoin também recebe dos arredores um respeito singular, ainda que tingido pelo medo. No seu viver, ela tece seu modo comportamental deixando poucas evidências de sua origem, como a sua conhecida subserviência ao Padre Nicolino. Subserviência essa mencionada também no romance O Missionário e em O Cacaulista, obras onde a personagem é constantemente procurada pelos protagonistas.
Maria é a conexão profunda com a floresta paraense, uma “tapuia” que, no Paranamiri, exerce um ofício que desafia a lógica cristã e urbana:
A Maria Mocoin […] retirou-se para o Paranamiri, onde, em vez de cogitar em purgar os seus grandes pecados, começou a exercer o hediondo ofício que sabeis, naturalmente pela certeza de estar condenada em vida” (Sousa, 1893, p. 30).
Inicialmente, Maria Mocoin é vista por Antônio de forma intimidadora e depreciativa. Uma velhinha magra, com poucos dentes, ornada com um cordão sujo de bentinhos, sugerindo ser um disfarce da feiticeira ao usar a simbologia cristã para camuflar a verdadeira face curandeira.
O aspecto físico discriminado na narrativa contrasta com a sensibilidade e a força do olhar da personagem, “longo que parecia transpassar-lhe o coração” (Souza, 1893, p. 31) daquele que a enfrentava, conduzindo o antagonista ao delírio final.
A estética da existência: quando a floresta reage
Relacionando os elementos abstratos de A Feiticeira, podemos associá-los ao que Immanuel Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar, nomeia como estética: uma tentativa de transpassar a distância entre o mundo material e o espiritual. O conto de Souza enfatiza esses elementos em uma performance sintonizada, fazendo o antagonista que adentra o ambiente de Maria Mocoin acreditar que o irreal é a pura realidade.
O momento em que Antônio, o ser civilizado transgressor e inquisidor que entra na narrativa para desafiar o saber do encantado amazônico, adentrando sítios e cacauais, ouvindo os ribeirinhos e zombando da experiência da floresta, invade a tapera de Mocoin ilustra a “estética da existência”. Influenciado pelo espírito positivista, como bem explicita o narrador, Antônio afirma: “venho disposto a tirar a limpo as suas feitiçarias. Quero saber como foi que conseguiu enganar a toda esta vizinhança” (Souza, 1893, p. 30).
Neste ato de invasão, a natureza não se mostra passiva, ela reage. O gato, o urubu e até os ossos parecem ganhar vida em defesa do ambiente, uma reação mediada pela protagonista. Esse fenômeno pode ser identificado como um rito de participação, conforme categoriza Simões Jorge (1998), permitindo que o grupo estabeleça relação com entidades sagradas. Em similaridade, Hegel afirma que a própria essência do espírito é a ação. Assim, o espírito de um povo é composto por características muito bem definidas, que se constroem em um mundo objetivo (Hegel, 2001).
A feitiçaria de Mocoin, portanto, não deve ser lida como ignorância ou superstição, mas como a manifestação do espírito de um povo amazônida que se constrói e permanece vivo em seus cultos e costumes. Assim, garantem a sobrevivência da identidade regional diante da tentativa de apagamento pelo progresso técnico-científico.
O documento sociológico do Baixo Amazonas
Inglês de Souza utiliza-se de suas observações e de sua experiência vivenciada na região para retratar o habitante da floresta, desmontando conceitos preconceituosos do ser indômito escondido em meio às matas. Sua escrita nasceu em contextos marcados pelos desafios sociais, políticos e econômicos da época oligárquica brasileira.
O escritor de Óbidos é fiel ao usar os espaços naturais como lugares fundamentais para um entendimento maior da Amazônia. O espaço natural valoriza a identidade do povo junto ao seu território e ajuda na composição de seus modos de vida, apresentando as culturas de comunidades locais e seus elementos vitais, outrora invisibilizados na maioria dos escritos literários.
A literatura de expressão amazônida de Inglês de Souza abre espaço para a visibilidade das pessoas que habitam a região, desde o coronel até a humilde mulher vista como um sujeito de conhecimento cultural que transita entre encantados e invisíveis. Com isso, quebram-se os elos das classes dominantes de espírito elitista que, seguindo a compreensão herdeira do colonizador português, costumam desqualificar os habitantes da floresta.
Essa ficção revela as realidades locais do Baixo Amazonas do século XIX alcançando novas dimensões, que ultrapassam a mera narrativa de um evento. Por isso, é apropriado referir-se a sua obra literária como um legítimo documento sociológico (Salles, 1990). Ao ler Inglês de Souza, apreende-se uma realidade epocal com significações maiores do que a Amazônia captada naquele período.
Sua obra revela uma arquitetura narrativa própria, articula o contexto natural e social da Amazônia oitocentista e explora com sensibilidade os espaços físicos e simbólicos da região. Ao fugir de repetições e parâmetros preconceituosos da cultura eurocêntrica, Inglês de Souza constrói um prisma de realidades locais, expondo de maneira autêntica os trejeitos, os modos de vida e as subjetividades do povo amazônida.
Referências
Danielly Samara Mafra Pereira é Mestra em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ/UFOPA) é pesquisadora do Grupo de Pesquisa e Extensão em Cultura, Identidade e Memória na Amazônia (CNPq/GEPI-CIMA) e do Grupo Epistemologia do Romance (CNPq/UnB).
Itamar Rodrigues Paulino é Doutor em Teoria Literária (UnB), professor e pesquisador na Universidade Federal do Oeste do Pará, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ/UFOPA).
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
