Encantarias e o amanhã ancestral: o desafio decolonial do Amazonfuturismo

Coletânea de contos desafia o pessimismo ecológico ao debater racismo ambiental, novas tecnologias e a sobrevivência dos povos da floresta

O protagonismo e o uso de ferramentas tecnológicas de vanguarda pelas comunidades tradicionais refletem a essência do Amazonfuturismo e das discussões decoloniais sobre autonomia e direito ao futuro. Foto: Mídia NINJA.
O protagonismo e o uso de ferramentas tecnológicas de vanguarda pelas comunidades tradicionais refletem a essência do Amazonfuturismo e das discussões decoloniais sobre autonomia e direito ao futuro. Foto: Mídia NINJA.
O protagonismo e o uso de ferramentas tecnológicas de vanguarda pelas comunidades tradicionais refletem a essência do Amazonfuturismo e das discussões decoloniais sobre autonomia e direito ao futuro. Foto: Mídia NINJA.

O protagonismo e o uso de ferramentas tecnológicas de vanguarda pelas comunidades tradicionais refletem a essência do Amazonfuturismo
e das discussões decoloniais sobre autonomia e direito ao futuro. Foto: Mídia NINJA.

Projetar o amanhã a partir das perspectivas, saberes e tecnologias dos povos da Amazônia. Essa é a premissa que move Encantarias (Editora Valer, 2024), coletânea de contos organizada por Jan Santos e Tammy Rosas. Escrito por autores do Coletivo Visagem, o livro se alinha ao Amazonfuturismo.

O movimento cultural, artístico, filosófico e político desafia as narrativas tradicionais de ficção científica ao colocar os povos tradicionais no centro do debate contemporâneo sobre crise climática, desigualdades sociais e invisibilização de saberes.

A obra é composta por seis contos ambientados em um futuro distópico na Amazônia, no qual as consequências das ações humanas, como o consumo desenfreado e a degradação ambiental, são levadas ao extremo. Apesar da roupagem futurista, as narrativas possuem raízes profundas na realidade contemporânea, evidenciando como os impactos da exploração descontrolada da natureza já se manifestam no presente.

Nesse cenário, as histórias dialogam diretamente com os alertas formulados nas últimas décadas por lideranças como Ailton Krenak. Ao contrapor o colapso ambiental e a injustiça climática à resistência dos povos originários, o livro nos lembra que as comunidades que historicamente cuidam da floresta são, paradoxalmente, as mais afetadas por um modelo de vida predatório e desconectado da terra.

O mosaico de um amanhã sombrio e resistente

O percurso do livro desenha um panorama multifacetado desse futuro ao conectar diferentes cenários de opressão e reação. No conto de abertura, Atos de Rebelião, somos apresentados à jovem Manuela em “Chorume”, uma amálgama urbana degradada formada pela junção dos municípios de Novo Airão e Manacapuru (AM) após severos desastres ambientais.

Ali, enquanto uma elite vive confortavelmente com respiradores artificiais, a maioria sofre, impulsionando a protagonista a convocar uma liderança para coordenar uma rebelião contra essa estrutura excludente.

Essa disputa pela memória e pelo direito ao território estende-se em Cápsula do Tempo, que segue Emanuel-abá-ibi no encontro com um artefato repleto de registros de um passado próspero e abundante da floresta. Ao ser perseguido por uma patrulha institucional que tenta apagar o histórico ecológico do bioma, ele assume a missão de proteger o objeto e a própria identidade de seu povo.

O contraste entre a ruína e a alternativa ganha força nas narrativas seguintes. Em Xapono, acompanhamos o retorno da jornalista Claudia a uma Manaus em escombros ecológicos, onde acaba descobrindo uma comunidade indígena que, de forma inovadora, alia tecnologia avançada ao respeito aos ancestrais e à natureza.

Essa busca por saídas científicas e místicas reaparece no Projeto I.A.R.A., cujo enredo foca em um jovem cientista e seu mentor que descobrem um mineral fotossintético capaz de restaurar a vida na Terra. Contudo, a obsessão científica do mentor desencadeia a loucura e a subsequente destruição de laboratório, forçando o aprendiz a fugir carregando o último broto do mineral como promessa de futuro.

Fechando a coletânea, as relações de aliança e sacrifício ganham o primeiro plano. O conto Abaré nos transporta para uma Pan-Amazônia regenerada após intensos conflitos, onde os jovens Kayke e Yahto, pertencentes a povos historicamente rivais, mantêm uma amizade secreta. Após um ataque autoritário frustrado, a união entre eles simboliza a paz firmada entre as lideranças da região.

Por fim, em Lendas Esquecidas, a investigação assume o tom da narrativa. Após a morte do cacique Ubiratã, as guerreiras Aruana e Niara investigam esquemas de corrupção que cercam os povos originários e enfrentam criaturas míticas da floresta, culminando em um ato de entrega, coragem e proteção mútua.

Entre a distopia e a justiça ambiental

A potência crítica de Encantarias reside na articulação entre ficção e denúncia. A obra funciona como um instrumento de reflexão decolonial ao evidenciar como a crise climática opera sob a lógica do racismo ambiental e da colonialidade, perpetuando opressões históricas sobre territórios indígenas, ribeirinhos e periféricos.

Outro eixo fundamental é o debate sobre tecnologia e desigualdade. O livro demonstra como os avanços tecnológicos são frequentemente capturados pelas elites como ferramentas de controle e manutenção de privilégios, embora também possam ser apropriados como instrumentos de sobrevivência e autonomia comunitária, como exemplificado no próprio conto Xapono.

A ancestralidade e a memória ganham centralidade na narrativa. Os saberes tradicionais e a conexão afetiva com a terra surgem como as únicas âncoras capazes de enfrentar o colapso e reconstruir caminhos de esperança. Ao destacar comunidades que preservam sua autonomia mesmo diante do fim do mundo, o texto rompe com narrativas coloniais que retratam esses povos sob a ótica da fragilidade ou da passividade, transformando as lutas por território, ar, água e dignidade em imperativos de sobrevivência.

Embora alguns contos apresentem certas fragilidades na construção narrativa, sobretudo pela ausência de desfechos mais claros ou enredos interrompidos de forma apressada, o que pode gerar algum desconforto no leitor e dificultar uma imersão mais completa nos conflitos sugeridos, o saldo da obra é amplamente positivo e necessário para a literatura nortista.

Potencial pedagógico e decolonial

Para além do valor literário regional, Encantarias se consolida como uma potente ferramenta pedagógica, especialmente para o Ensino Médio. Suas narrativas oferecem ricas possibilidades de abordagens interdisciplinares em sala de aula, integrando diferentes áreas do conhecimento conforme a proposta do professor e permitindo a discussão de temas urgentes como poluição, mudanças climáticas, matrizes energéticas, mutações genéticas, pesquisa científica e direitos territoriais.

Em suma, a coletânea não apenas alerta para o esgotamento de um modelo civilizatório insustentável, mas inspira a reconstrução de um mundo pautado na harmonia entre ecologia, cultura e sociedade, a partir de uma perspectiva decolonial que alia conhecimentos tradicionais a debates contemporâneos.

É uma leitura altamente recomendada para educadores, estudantes e todos que buscam compreender as complexas relações socioambientais da atualidade e, inspirados no resgate da ancestralidade, engajar-se na construção de novas possibilidades de futuro, buscando, como propõe Krenak, “adiar o fim do mundo” e assegurar a justiça ambiental na Amazônia.

Referências

Bernardo Coelho Castro é estudante do 1º ano do Ensino Médio no Instituto Federal do Amazonas (IFAM).
Larissa Cristina Cardoso dos Anjos é doutoranda em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professora da Educação Básica da
Secretaria de Educação do Amazonas (SEDUC-AM).

Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

 

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