Utopias Amazônicas #03 | Fernando Michelloti — Agroecologia Amazônida: Os Engenheiros do Ecossistema

Como 19 mil anos de manejo indígena desafiam o discurso do agronegócio e apontam a agroecologia como o horizonte político e ecológico para a reconstrução da Amazônia

O professor Fernando Michelotti é o convidado do terceiro episódio da série especial Utopias Amazônicas: Conversas com os Autores. Na entrevista, o pesquisador debate agroecologia e os saberes tradicionais que moldaram a floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude
O professor Fernando Michelotti é o convidado do terceiro episódio da série especial Utopias Amazônicas: Conversas com os Autores. Na entrevista, o pesquisador debate agroecologia e os saberes tradicionais que moldaram a floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude
O professor Fernando Michelotti é o convidado do terceiro episódio da série especial Utopias Amazônicas: Conversas com os Autores. Na entrevista, o pesquisador debate agroecologia e os saberes tradicionais que moldaram a floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude

O professor Fernando Michelotti é o convidado do terceiro episódio da série especial Utopias Amazônicas: Conversas com os Autores. Na
entrevista, o pesquisador debate agroecologia e os saberes tradicionais que moldaram a floresta. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude

A floresta amazônica não foi encontrada, ela foi construída. Durante pelo menos 19 mil anos, os povos que habitaram a Amazônia não apenas sobreviveram nela: eles a produtificaram, domesticaram paisagens inteiras, criaram solos, plantaram florestas e desenvolveram um saber tão sofisticado de conviver com a natureza que os cientistas hoje chamam os antigos habitantes da região de engenheiros de ecossistemas.

A floresta que o mundo quer salvar é, em grande parte, obra humana, obra indígena e, por que não dizer, também camponesa. Diante disso, a pergunta que ressoa é: por que destruímos exatamente o que nos alimenta?

É a partir desse paradoxo que a agroecologia emerge, não como uma simples técnica agrícola, mas como uma utopia política; como a afirmação de que é possível produzir alimentos, recuperar a floresta e reconstruir a vida social ao mesmo tempo.

O terceiro episódio da série Utopias Amazônicas: Conversas com os Autores — projeto baseado no livro organizado por Marcos Colón e publicado pela Ateliê Editorial —, entrevista o professor Fernando Michelotti. O convidado é doutor em Planejamento Urbano e Regional, docente da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em Marabá, onde atua no Instituto de Estudos de Desenvolvimento Agrário e Regional.

Pesquisador das dinâmicas territoriais e dos conflitos agrários na Amazônia, Michelotti trabalha em diálogo direto com os movimentos sociais de luta pela terra, especialmente nos temas da educação do campo e da agroecologia. É coautor, junto com Bruno Malheiro e Carlos Walter Porto Gonçalves, do livro Horizontes Amazônicos: Para Repensar o Brasil e o Mundo.

No livro Utopias Amazônicas, o professor assina o artigo “Agroecologia Amazônida: Conectando o Passado e o Futuro”.

Ouça:

Amazônia Latitude: Professor, antes de entrar no seu artigo, a gente tem começado essa série com uma pergunta que fazemos a todos os autores. O que é Utopia Amazônica para você? Não como conceito acadêmico, mas como horizonte que orienta o teu trabalho no campo, as relações com as comunidades e com os movimentos sociais.

Fernando Michelotti: Acho que o livro é muito provocativo ao se autodenominar Utopias Amazônicas e instigar todos os autores e autoras convidados a pensar e traduzir suas utopias na forma de artigos. Na própria apresentação, Marcos, você resgata — e alguns artigos vão problematizar mais o debate da utopia — essa ideia do Eduardo Galeano sobre a utopia como um horizonte que nos faz caminhar.

E aí você fez referência ao livro que eu participei com Bruno Carlos sobre os horizontes amazônicos. Vejo a utopia muito nesse sentido, quer dizer, de horizontes de sentido. A utopia que nos orienta, mas que também nos impulsiona nos move em direção a construir algo diferente. E é essa utopia amazônica que eu tento, de alguma maneira, traduzir nesse artigo a partir dessa minha experiência de mais de 25 anos vivendo na Amazônia e convivendo com diferentes movimentos sociais.

Eu comecei trabalhando com o movimento dos seringueiros no Acre, então mergulhei muito fundo nessa realidade extrativista, das reservas extrativistas e daquele tipo de luta social. E depois me mudei para outro extremo da Amazônia, para Marabá, onde passei a conviver mais diretamente com os movimentos camponeses de luta pela terra, em especial o MST, movimento sindical. É a partir dessa dupla experiência que eu fui construindo meus horizontes de sentido que me guiam e que me movem.

Amazônia Latitude: Fantástico. Você começa o artigo desafiando uma ideia muito comum, a de que a Amazônia é dividida entre áreas preservadas e áreas perdidas, e que nas áreas já desmatadas o futuro seria inevitavelmente o agronegócio. Por que essa visão é equivocada e o que ela esconde?

Fernando Michelotti: Tem um artigo que eu até faço referência, do Alfredo Wagner Berno de Almeida, que vai falar dos arquivos da Amazônia. Ele problematiza essa ideia. Então, essa construção de uma visão dualista da Amazônia, que explica em grande sentido como foi cristalizando essa visão dualística de natureza e sociedade, de floresta e não floresta, que não é especificidade da Amazônia, mas que, de alguma maneira, é reflexo da própria construção da modernidade capitalista, baseada nesse tipo de dualismos e dualidade.

Dentro desse quadro geral e a partir de uma construção social específica que começa lá com os relatos dos viajantes que transitaram e abriram, vamos dizer, a Amazônia para a colonização, e depois todo esse processo posterior de colonização e deixando as marcas de colonialidade, foi se cristalizando esse pensamento dualista que, de alguma maneira, separa natureza-sociedade, uma natureza extremamente abundante em floresta de outra que vai sendo desflorestada, transformada pela ação humana.

E, de alguma maneira, vinculando povos que vivem nessa natureza florestada como povos primitivos, selvagens, em oposição ao ideário do desenvolvimento, do progresso, que transforma essa natureza no espaço dominado pela humanidade.

Isso não é específico da Amazônia, mas na Amazônia ela se traduz de forma específica e vai moldando uma forma de pensamento que oscila nos períodos desde considerar o inferno verde em oposição à civilização, ao progresso, ao desenvolvimento que estaria associado ao desmatamento, a substituição da floresta.

Mas eu trago essa provocação para pensar o quanto ela segue arraigada em certas leituras que reconhecem a agenda ambiental e o problema do desmatamento e da destruição, mas não se libertam dela e continuam dicotomizando a área de floresta da área sem floresta, e as consequências políticas que isso tem no sentido de excluir e uma fração importante das populações, dos grupos sociais camponeses e até mesmo urbanos, desse esforço coletivo de buscar um novo sentido, um horizonte de sentido diferente para a Amazônia.

Então, acho que a ideia aí é problematizar isso e pensar como a gente precisa profundamente romper com essa visão dualística.

Amazônia Latitude: E eu acho que você faz isso com muita propriedade, justamente dialogando com o Alfredo Wagner sobre romper com esse estereótipo de arquivo que foi criado e vendido de uma Amazônia só, essa visão não somente do biologismo, do geografismo. Além dessa perspectiva que você busca romper, o seu artigo também traz um dado que investe completamente a narrativa sobre a Amazônia. Eu acho que a gente tem que reconhecer aqui essa contribuição maiúscula de pensar a agroecologia, mas no teu artigo a floresta não é apenas um ecossistema natural, é muito mais que isso. Na verdade, ele faz parte de uma floresta antropogênica, produzida por milhões, milênios de presença indígena. E a gente lembra muito aqui do Carlos Valto Porto-Gonçalves, claro. Os povos originários, nesse sentido, são parte constituinte dessa floresta e nas suas palavras você os chama de engenheiros de ecossistemas. O que isso muda na forma como entendemos essa relação entre humanos e a floresta e na forma como pensamos o tema do artigo, a agroecologia?

Fernando Michelotti: Primeiro, só para dizer que o termo engenheiros de temas não é meu, mas é do Charles Clement, eu tomei emprestado um artigo dele. É um pesquisador da ecologia histórica da Amazônia, sediado no INPA e que, junto com vários outros, tem avançado muito nessa leitura que o Carlos Walter captou muito bem. Em outros artigos do livro também vamos explorar dessa ideia de que a Amazônia foi produzida, a floresta sociobiodiversa da Amazônia, foi produzida em coexistência natureza e grupos humanos mas não uma coexistência estática acho que isso é o que eu tento chamar atenção é uma coexistência em coevolução.

A natureza produz os grupos sociais e os grupos sociais produzem a natureza num processo de coexistência coevolutiva. E isso é fundamental para a gente pensar, não dualisticamente, não dicotomicamente, também o sentido da relação da sociedade com a floresta nos dias atuais. Porque se a gente fica preso a uma visão estática, as áreas já desmatadas ficariam excluídas, vamos dizer, dessa luta pela preservação. Mas se a gente pensar essa floresta como um processo em permanente coevolução e coexistência, grupos sociais, grupos humanos e natureza, então não existe mais a floresta que já acabou.

Existe, na verdade, o grande desafio de estar permanentemente reproduzindo a floresta, reconstituindo, refazendo floresta onde ela não está presente e trabalhando em coevolução nas áreas onde ela ainda está.

Então, isso muda aquela visão estática que eu critico logo no início do artigo e abre uma chave importante para pensar quem são os sujeitos dessa utopia de uma coexistência sociedade-natureza em bases florestais ou agroflorestais.

Não é simplesmente o sujeito da área que tem floresta, mas são todos os sujeitos que, a partir dos seus modos de vida, têm capacidade de reproduzir continuamente floresta. Isso inclui também populações urbanas, populações que vivem nas áreas já desflorestadas, como esses camponeses de migração recente, que têm, como eu vou trabalhar no artigo, a partir dessa ideia de campesinato, uma base estrutural e uma racionalidade, um modo de vida, de organização, que permite eles também se agregarem nessa grande marcha de recuperação de uma relação sociedade-natureza inspirada no que foi essa historicamente construída pelos povos indígenas.

Amazônia Latitude: É muito interessante porque você já propõe esse outro conceito, que é o conceito de campesinato amazônico, que une povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, agricultores familiares, numa identidade política comum, apesar das diferenças que esses grupos possuem. O que une esses grupos nesse conceito que você evoca e por que essa aliança é a chave para qualquer utopia amazônica que a gente queira considerar?

Fernando Michelotti: Eu acho que você traz um outro elemento muito interessante na apresentação do livro, que é a ideia do desencontro não pode desacontecer. O desencontro da fronteira, ele não pode pode desacontecer. Então, a saída é produzir novos encontros.

Eu acho que isso se apresenta de forma muito interessante lá. Mas eu vou, ao mesmo tempo, dizer que nesse conjunto de desencontros violentos que marcaram a história da fronteira, a gente já teve alguns encontros muito importantes que também precisam ser valorizados.

Eu queria chamar a atenção para três encontros nessa direção que já marcam a história da Amazônia. No livro com o Bruno Carlos Walter, a gente chamou de encontros virtuosos entre povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, que vão dar origem a um campesinato amazônico lá nos primórdios da colonização.

A gente já teve um momento de encontro muito rico em que escravos fugidos da exploração dos latifúndios, índios desaldeados do processo de descimento violento da colonização. Todos esses ganharam a floresta e se encontraram, claro que com tensões, com remanescentes dos grupos indígenas, e trocaram saberes trocaram conhecimento e se fortaleceram politicamente como um sujeito que vai dar origem a esse campesinato amazônico, vamos dizer que está ali expresso na sua biodiversidade, e que se fortaleceu, inclusive, politicamente.

Se a gente for ver a base da Cabanagem, são esses cabanos que viviam nas beiras rios, resultante desse encontro virtuoso de quilombolas, ribeirinhos, indígenas desaldeados e grupos indígenas, e que aprendeu a conviver com a floresta.

Um segundo momento de encontro também, que politicamente foi muito importante, foram a partir das lutas de resistência dos extrativistas do Acre, que se articulam com os povos indígenas, que vai dar origem ao movimento dos povos da floresta. E que teve um papel chave inclusive no contexto da Constituição de 88, de lutar por direitos e tal. Ailton Krenak, Chico Mendes são figuras que emergem desse momento e que deixam um legado de conquistas políticas e de repensar a nossa relação com a Amazônia.

E me parece que agora a gente está vivendo um contexto também de efervescência desse novo encontro político, desse conjunto das populações indígenas, da sociodiversidade, com esse campesinato que, de alguma maneira, teve uma história paralela, pela sua chegada mais recente e pela sua localização numa área de intenso desmatamento.

Então, isso que em alguma medida é diferenciado de forma dualista por algumas leituras, no que eu proponho discutir é perceber como o próprio movimento da resistência aproxima essas lutas e cria uma oportunidade de um novo encontro virtuoso acontecer.

Por quê? Porque o grande projeto, os grandes projetos que, se na década de 70, 80 também se situaram praticamente nesse arco do desmatamento, hoje eles estão espalhados por toda a Amazônia, os grandes projetos neo-extrativistas se disseminaram pelo conjunto da Amazônia.

A luta de resistência unifica a necessidade de enfrentamento conjunto, desde aqueles grupos sociais que já habitam nas áreas fortemente impactadas por esses grandes projetos no capital. Mas também os povos indígenas e comunidades ribeirinhas mais interiorizadas, que hoje também enfrentam o mesmo processo e os mesmos agentes da destruição.

A luta política unifica. E o que me parece é que dessa luta política surge a necessidade de refletir melhor não só a negação, vamos dizer assim, o que unifica pela negação desses grandes projetos da destruição, mas também o que unifica em termos de proposição de um horizonte futuro, que não é a homogeneização, transformar todos eles iguais, mas é valorizar essa diversidade a partir de projetos comuns.

No capítulo eu vou propor a visão de desmercantilização da terra e da natureza e a visão de construção de uma agroecologia agroflorestal como um paradigma de relação produtiva com a natureza, resgatando essas bases históricas, mas incorporando a história camponesa de relação com o mercado, de comercialização, de abastecimento das redes urbanas, que é hoje também uma premissa que atravessa os desafios da Amazônia.

Amazônia Latitude: E é muito interessante, porque aqui eu acho que a gente toca num cerne também do teu artigo, que é como a agroecologia é uma luta de reexistência, e você usa esse conceito de lutas de reexistência, e não apenas uma técnica de plantio. Eu queria que você pudesse falar um pouco para a gente como que esse processo de luta de reexistência se torna nessa tua abordagem não apenas resistir na terra, mas lutar por outras formas de existência.

Fernando Michelotti: Essa ideia da reexistência vem muito das contribuições do Carlos Walter, que já em outros artigos faz essa junção de que na Amazônia, sobretudo, resistir contra os que matam e desmatam está associado a uma luta por buscar outras formas de existência.

E me parece que a agroecologia, assim como o extrativismo florestal dos seringueiros, como a pesca para os ribeirinhos, como as várias formas de produzir com a floresta dos povos indígenas, é parte de um paradigma produtivo que está associado a outras formas de existência. Desde essa relação mais profunda de convivência com a floresta, de coexistência coevolutiva, mas que também é capaz de oferecer para o conjunto da sociedade outras formas de produtos, de bens, que não passam por essa lógica predatória de extração e de produção de mercadorias a qualquer custo. Inclusive, isso transferido para essas novas mercadorias fictícias, como mercado de carbono, de serviços ambientais.

Me parece que fortalecer essa ideia desses grupos sociais produzindo a vida, reproduzindo a floresta e produzindo bens que garantem a reprodução da humanidade em seu conjunto, como alimentos saudáveis, produtos da floresta que possam ser consumidos, mas numa relação que não passa por essa lógica da acumulação sem fim, mas sim numa lógica da reprodução da vida, seja dos próprios grupos sociais ou das comunidades, das sociedades, das cidades, da região, é um pouco o guia dessa ideia de pensar a produção no cerne dessa outra forma de existência. Quer dizer, ela não se resume à produção, não é só a economia, a produção. Ela passa pela cultura, pela relação com a natureza, mas que a produção também é um aspecto que não pode ser negligenciado e que eu acho que a agroecologia articula muito bem cultura, relação com a natureza, mas também a produção da existência material desses grupos sociais e da sociedade no seu conjunto.

Amazônia Latitude: Geralmente a gente fala muito de desmatamento, mas você decidiu criar um outro conceito que traduz isso de uma forma muito mais proteica, você falou agora um pouco dessa questão da luta pela existência, pela vida, e você usa o conceito de “fratura metabólica”, que é a ideia de que o agronegócio não apenas desmata, mas interrompe os ciclos de regeneração da floresta, destrói os solos, expulsa os povos e, literalmente, aliena o saber, homogeneizando não somente a riqueza agroecológica da região. E por que esse conceito de “fratura metabólica” se torna mais, eu diria, proteico do que simplesmente falar desmatamento?

Fernando Michelotti: Bom, o conceito de fratura metabólica vem do Marx, né? E ele tem sido resgatado por alguns autores marxistas que têm buscado discutir uma ecologia política em bases marxistas. Especialmente o John Bellamy Foster, a ecologia do Marx, então, recuperou esse conceito de metabolismo e tem aberto esse caminho da ecologia política marxista de pensar essa relação da sociedade com a natureza em bases que não sejam reducionistas, pensar em bases dialéticas e profundamente críticas.

O conceito de metabolismo vem daí, e a ideia de ruptura metabólica ou fratura metabólica é mostrar esses processos de destruição que passam pela destruição da floresta, mas que passa pela extração de bens naturais numa velocidade, numa escala e uma circulação deles pelo globo que impede que esse processo seja autorregenerativo, mas que todos esses processos são sempre mediados pelo trabalho e pelas formas de organização da sociedade.

Ao trazer esse conceito de fratura metabólica, eu quero chamar atenção para essa chave de leitura, para a gente não ficar preso só na consequência da destruição ambiental, mas de pensar profundamente como ela está enraizada em formas de organização da sociedade, da economia e da política determinadas pela organização capitalista.

Também nessa perspectiva da agroecologia como processo de reexistência que unifica lutas políticas, eu vejo como esses sujeitos apresentam possibilidades de a gente ir para além do capitalismo. Então, associar essa luta de uma Amazônia que rompa com a destruição, também com a necessidade de romper com a própria lógica fundante da modernidade capitalista que está por trás dessa destruição.

É um pouco nesse sentido que eu acho que esses conceitos ajudam a gente a ler de forma mais crítica os processos de desmatamento, desflorestamento, não só como uma ação, vamos dizer, da ilegalidade. Porque nessas outras chaves de leitura, muitas vezes estáticas, dicotômicas, acabam colocando que parece que o processo destrutivo é resultado ou da ignorância ou da ilegalidade.

A solução seria mais legalidade, mais normatividade dos processos. E o que eu estou tentando mostrar com esses conceitos críticos, não só eu, é que, na verdade, não é um problema de ilegalidade a destruição, mas é um problema da lógica fundante de uma sociedade baseada na acumulação ampliada do capital que requer devorar a natureza em escala cada vez maior.

Pensar outros horizontes é pensar também a ruptura com essa forma de organização social.

Amazônia Latitude: Tem uma passagem no teu artigo que eu gosto muito, quando você fala da castanheira, e a castanheira, você menciona, tem um potencial de produzir proteína equivalente a 141 milhões de bois. Eu lembro quando eu li, inicialmente, eu falei: “caramba, nunca tinha pensado nisso”. E é muito interessante esse dado que daria para ampliar isso, até para fazer um outro artigo, mas como esse simples dado muda completamente, na minha leitura, o debate sobre o agronegócio como solução para alimentar o Brasil e o mundo?

Fernando Michelotti: Esse dado também, de novo, eu preciso citar a fonte. É do Charles Clement também, desse mesmo artigo que eu citei, que ele sistematiza esses dados todos. E é muito interessante, no artigo dele, que vale a pena ler, ele não trata só da castanheira, ele faz uma lista das principais espécies mais abundantes alimentares na Amazônia, que mostram tanto como elas foram de alguma maneira parte desse processo de domesticação da paisagem, mas como elas são extremamente produtivas do ponto de vista da capacidade de alimentar os grupos humanos na Amazônia.

Eu peguei só a castanheira porque eu acho que ela é emblemática, como você mesmo chamou atenção. Se a gente não tivesse desmatado nada da Amazônia, destruído a floresta, só a produção de castanha, ela geraria mais proteína, 50% mais de proteína, do que todo o rebanho bovino que tem na Amazônia hoje. Então esse dado é impactante para mostrar como, do ponto de vista alimentar, é uma grande ignorância a gente destruir floresta para implantar pastagem e criar gado. E por que faz, então? Porque do ponto de vista econômico, capitalista, é mais lucrativo vender gado, vender carne bovina, do que castanha.

Não porque tenha uma essencialidade da castanha ou da carne bovina que tenha isso, porque são resultados do trabalho. Mas, fundamentalmente, é como a sociedade organizou suas cadeias de produção, de comercialização, seus circuitos comerciais, que fazem com que o gado se torne mais lucrativo do que a castanha.

A gente destrói floresta para implantar pastagem, para crescer o rebanho bovino do país, mesmo sendo um contrassenso do ponto de vista da reprodução alimentar, da humanidade, da vida. E acho que esse é um dado fundamental para desmascarar um certo discurso apologético do agronegócio que diz que o agronegócio tem que continuar expandindo porque alimenta o mundo.

Se é para alimentar o mundo, vamos alimentar também com os produtos da sociodiversidade, que são, inclusive, mais eficientes do ponto de vista da alimentação. Mas isso implica também uma luta política. E aí, de novo, a agroecologia ajuda, que não está ligada só à produção em si, mas também a pensar a nossa própria relação, de como nós nos alimentamos e o que nós vamos privilegiar na nossa dieta alimentar.

Amazônia Latitude: Professor, você poderia ler para a gente na página 148 um parágrafo do seu artigo, começando ali, “agroecologia a partir da luta política até agroflorestal” (…)?

Fernando Michelotti: “A agroecologia, a partir da luta política desses movimentos sociais camponeses, pode ser entendida como um novo paradigma produtivo, como uma constelação de ciências, técnicas e práticas para uma produção ecologicamente sustentável no campo”.

E isso é uma citação que eu tomo do Enrique Leff. Portanto, indo além de uma técnica de produção ou de uma disciplina científica, mas como um paradigma produtivo que articula o trabalho com o saber, que garante ao camponês o domínio tanto do saber fazer da sua produção como do seu trabalho, dos seus frutos, e assim lhe permite imprimir sua própria racionalidade na produção, orientada pela reprodução social da família e comunidade, bem como pela reprodução ecológica cultural do agroecossistema e do território, que no caso amazônico é profundamente agroflorestal”.

Amazônia Latitude: O que você acrescentaria a esse parágrafo?

Fernando Michelotti: Eu acho que ele traduz muito bem essa ideia de uma agroecologia amazônida como muito mais do que uma técnica, mas como uma constelação de saberes, de técnicas e de lutas de resistência e de enfrentamento que permitem apresentar esse horizonte utópico, no sentido de um guia de articulação política de todos os povos da Amazônia, da floresta, que vivem na floresta ou que produzem floresta e que hoje cada vez mais se articulam para enfrentar as forças destrutivas que impedem eles de viverem e se reproduzirem na região.

Amazônia Latitude: E eu queria encerrar perguntando para você como a sociedade como um todo pode coevoluir com a natureza de forma sustentável. Se você pudesse falar um pouco, qual o papel que cada um de nós que estamos fora da floresta tem nessa construção?

Fernando Michelotti: Essencialmente é um papel político, porque na luta política a gente também aprende. Então, não é uma questão só de dizer, olha, a gente precisa se educar, a gente precisa olhar com outros olhos. Tudo isso é fundamental, mas eu acho que o que impulsiona essas possibilidades de reeducação do olhar, da alimentação, da forma de viver, é nos conectar com a luta política, é entender que esses sujeitos que vivem e lutam, resistem e reexistem na Amazônia, eles são também sujeitos políticos que têm muito a nos ensinar e que as suas lutas têm muito a nos ensinar.

Para nós que estamos fora do contexto direto dessas lutas de resistência, apoiar a luta, nos conectar a elas e aprender com elas, eu acho que é a forma da gente não só apoiar a reexistência desses grupos, como também nós mesmos nos reexistir, nos desafiar a reexistir e rever a nossa própria forma de conexão com esses vetores que, em grande medida, impulsionam a destruição da floresta.

Amazônia Latitude: Professor Michelotti, muito obrigado por essa conversa, foi muito proteica e agradeço muito por esse diálogo contigo aqui hoje.

Fernando Michelotti: Eu que agradeço, Marcos, e parabenizo você pelo esforço de organização do livro e também por esse esforço de fazer as ideias do livro circularem também por outros meios, como esse podcast, então agradeço e parabenizo.

A Floresta Amazônica não é um patrimônio natural que herdamos intacto do passado jamais, ela é uma obra humana construída por 19 mil anos de convivência, cuidado pelo saber dos povos que a habitaram.

Como disse o professor Carlos Walter Gonçalves: “Muitas vezes queremos os sabores, mas não queremos os saberes da Amazônia. Mas é importante destacar que destruí-la não é apenas um crime ambiental, é a destruição de um projeto civilizatório inteiro”.

A conversa com o professor Michelotti evidencia que a agroecologia não é uma nostalgia desse passado. É a decisão política de reconectar esse saber ao presente e de apostar que ainda é possível, nas áreas mais devastadas da fronteira agropecuária, recuperar a floresta e a vida que ela sustenta.

Para ler o artigo do professor Fernando Michelotti, “Agroecologia Amazônida: Conectando o Passado e o Futuro”, basta adquirir o livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial.

Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho

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