Utopias Amazônicas #07 | Aurélio Michiles — O Esperançar das Descobertas e o Cinema Decolonial
O diretor de Segredos do Putumayo e Honestino analisa o papel da imagem na preservação da memória coletiva e defende a utopia como a persistência silenciosa e comunitária contra o colapso e as invasões predatórias no território

No sétimo episódio do LatitudeCast, o cineasta e documentarista Aurélio Michiles discute a urgência do cinema decolonial e propõe a utopia
como o “esperançar das descobertas” diante das ruínas deixadas pelas invasões predatórias na Amazônia. Arte: Revista Amazônia Latitude.
A distopia tem como ponto de chegada o horror do presente. A utopia tem como ponto de partida o horror do presente.”
Essa epígrafe é de Marilene Chaui e é com ela que Aurélio Michiles abre o seu artigo. Porque quando falamos de utopia amazônica, precisamos perguntar primeiro: Utopia para quem? O LatitudeCast chega ao sétimo episódio da série Utopias Amazônicas: conversas com os autores, do livro organizado por Marcos Colón e publicado pela Ateliê Editorial.
O cineasta e documentarista Aurélio Michiles, nascido em Manaus, tem uma obra centrada na memória, no território e nos conflitos históricos da Amazônia. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura da Universidade de Brasília e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
Dirigiu documentários consagrados, como Que Viva Glauber (1991), Lina Bo Bardi (1993) e O Cineasta da Selva (1997), que recupera a figura pioneira de Silvino Santos. E Segredos do Putumayo (2020), que faz um retrato multipremiado de Roger Casement e suas denúncias sobre o trabalho escravizado no ciclo econômico da borracha.
Além disso, também documentou a luta do Sateré-Mawé por seu território e sua mais recente produção, o documentário Honestino, que teve estreia nacional em agosto de 2025.
Seu cinema articula ética, história e paisagem. No livro Utopias Amazônicas, Aurélio assina o artigo “Amazônia, Utopia pra quem?”. Um ensaio que parte da infância em Manaus para desmontar séculos de invenção colonial na Amazônia e perguntar, sem hesitar, a quem servem as utopias que o mundo projeta sobre a maior floresta tropical do planeta.
Ouça a entrevista completa:
Amazônia Latitude: Aurélio, nós temos começado essa série de entrevistas perguntando a todos os autores o que é a utopia amazônica para você? E como, no caso do teu artigo específico, “Amazônia: Utopia, para quem?”, com essa pergunta, o que você tenta demonstrar com esse ensaio? E o que é essa utopia amazônica na tua leitura?
Aurélio Michiles: Utopia é uma palavra controversa, o conceito dela. Uns dizem que é um lugar legal, um lugar bacana, um lugar feliz. Outros dizem que não, é um lugar adverso. O certo é que a utopia é uma palavra que ela permeia por séculos o nosso imaginário, e ela se torna como a linha do horizonte, ela se torna algo que a gente possa alcançar. Mas, ao mesmo tempo, a utopia acaba sendo uma palavra, um conceito ocidental que tenta subverter os outros conceitos de lugar, do bem-estar de outras civilizações que não as europeias. E, nesse sentido, nascido na Amazônia, a gente cresce ouvindo a Amazônia como esse lugar do imaginário, esse lugar paradisíaco, uns dizem inferno, outros dizem que não é o inferno, é o paraíso.
E isso, desde garoto, me fez pensar sobre essa condição. Ela é real, ela é imaginária, ela é construída? O que faz dos lugares não lugar são as pessoas que aí vivem. O modo de viver é que muda.
Nesse sentido, eu sempre penso que no noves fora dessa confusão utópica, eu penso que a utopia é uma esperança das descobertas. Quando você descobre algo, essa descoberta te faz olhar a vida com clareza, com compreensão. Isso para mim é utopia.
Amazônia Latitude: E é interessante o que você acaba de narrar, porque você abre o artigo com a Marilene Chaui, com essa epígrafe de que a distopia tem como ponto de chegada o horror do presente, e a utopia o ponto de partida o horror do presente. O que você acha que essa distinção muda na forma de como pensamos a Amazônia hoje? Esse ponto de partida e chegada? E por que o mesmo território, como no caso da Amazônia, pode ser simultaneamente tanto utópico como distópico?
Aurélio Michiles: Eu tive o privilégio de ter vivido dois anos da minha vida uma convivência no território indígena do Sateré-Mawé. Foi uma vivência que transformou a minha vida. Exatamente porque, ao entrar em contato na convivência cotidiana do Sateré-Mawé, era o lugar da ancestralidade dessa cultura. E, ao chegar no território, depois de ter sido aceito para adentrar ao território indígena, um dos líderes falou para mim: – “Ah, você veio aqui tirar retrato da gente, do guaraná? Mas, sabe, ontem à noite eu tive um sonho. Eu sonhei que um ladrão entrava pela janela da minha casa e quando acordei eu pensei: eu preciso encontrar outros parceiros que me ajudem a expulsar esse ladrão”.
Eu entendi perfeitamente o recado, que aquele meu passeio que eu ia lá documentar e ir embora não seria tão como eu imaginava. Eu tinha que entrar naquela realidade e descobrir um assunto que eu desconhecia naquele momento.
Aquele território tinha sido invadido pela Petrobras e pela Elf, por contrato de risco, com a Elf Aquitaine, que é a petrolífera estatal francesa. Eles entraram sem permissão dos indígenas, fazendo prospecção do petróleo com bombas. Essas bombas contêm o agente laranja, e isso causou não só a invasão da terra, que foram centenas de trabalhadores contratados, como às vezes essas bombas eram largadas, esquecidas ou não explodidas pela selva, e muitos indígenas entraram em contato com essas bombas e morreram envenenados. Fora estupro, fora toda essa forma de violência que aconteceu por conta dessa entrada desses trabalhadores.
Isso, para mim, foi uma forma de eu entender que a Amazônia, aquelas pessoas ali tão amigáveis, tão fluídas, tão autênticas, estavam diante de um apocalipse.
E isso, estou falando, foi um período ainda que existia ditadura. E isso me fez entrar de cabeça na questão do qual eles estavam solicitando uma parceria para enfrentar essa invasão. Foi o que aconteceu, foram dois anos de luta, houve duas coincidências que facilitou a luta dos Sateré-Mawé. Na França ganhou o Mitterrand, primeiro presidente de esquerda, e no Brasil foi eleito o primeiro indígena deputado federal, que foi o Juruna.
Então, essa luta ecoou no parlamento, ecoou na Europa, na França, que era protagonista, junto com a Petrobras, dessa ação, vamos dizer, maléfica.
Entrar nesse universo formador dessa civilização Sateré-Mawé, fui vendo que, como a utopia é frágil, como a distopia pode destruir, em questão de dias, todo um processo civilizatório. E, em seu lugar, ela deixa uma terra arrasada, literalmente, essa é a expressão, terra arrasada.
Eu lembro que estava refletindo sobre isso um dia, numa das comunidades, à noite, numa conversa, e a gente ouvindo o rádio, comunitariamente, coletivamente, ouvindo notícias do rádio, e na notícia do rádio falava de guerra. E um líder, um Tuxaua, falou assim: “-Nossa, como se mata lá pelo mundo dos brancos”. Então eu achei aquilo um comentário definitivo. Eles queriam a paz, eles não queriam a guerra.
E a utopia é isso, a utopia é o confronto e o resultado, se o resultado for um resultado positivo, isso é utopia.
Amazônia Latitude: Você falou dessa janela que o cacique, do sonho, e aí você também fala de uma janela no teu artigo. A janela da tua casa, você viu o Teatro Amazonas, via as barcas de bronze ali no Largo São Sebastião, e você fala dessa experiência muito pessoal, muito intimista ali, até que você já ali percebe que faltava alguma coisa naquele contexto, que era a ausência dos indígenas, nesse contexto das tuas próprias recriações, brincadeiras no teu cotidiano. E aí você vai paulatinamente narrando no teu texto essa ausência, como ela vai se revelando. O que essa ausência desses povos naquele início da tua infância revelou pra ti ou revela ainda hoje?
Aurélio Michiles: Esse é o ponto, é o ponto das descobertas. Na minha infância, o indígena não fazia parte da vida. Quando se falava dele, era como uma coisa extinta. E falava explicitamente isso: “Ah, os índios já foram extintos”. E todo mundo tinha traços indígenas, inclusive eu. O índio era sempre do ponto de vista do pitoresco, do exótico, é uma invenção. O índio era uma invenção, não existia o índio real.
Eu me lembro que quando eu fui estudar em Brasília, em 68, fui acabar o Ensino Médio para me preparar para fazer vestibular, e no meu colégio, era um colégio de elite, e as pessoas me perguntavam: “Ah, você é índio? Você é índio?” Perguntavam. Quando eu voltei para Manaus, eu falei com meu pai: “Escuta, as pessoas lá me perguntam se eu era índio”. Meu pai: “Ah, que besteira, o que é isso?”.
Aí, um dia, meu pai me chama, pede para eu pegar um caderno e ele começou a falar algumas palavras em nheengatu, começou a mostrar que ele tinha vivido isso. Meus pais são do interior do Amazonas. Foi aí que, de repente, eu comecei a descobrir que havia uma realidade muito próxima, íntima da minha vida, era uma coisa ancestral, era de fato alguma coisa ali, mas não era uma coisa ainda esclarecida.
E tinha também aquelas moças que trabalhavam em casa e essas pessoas eram mulheres extraordinárias, que até no meu artigo eu chamo de xerazades caboclas, porque elas contavam as histórias do interior, elas nos alimentavam de uma ancestralidade que a sociedade ali naquele momento tentava apagar.
Então, essas mulheres nos alimentavam, elas foram formadoras de uma Amazônia real, porque, formalmente, nós éramos formados com uma Amazônia inventada, mas essas mulheres que trabalhavam em nossas casas nos alimentavam com uma coisa real da sua vida pessoal e era uma coisa extraordinária.
São relatos que eu guardo com muito carinho. É essa formação que nos construiu. Até hoje eu faço essa pergunta. Até hoje, a cada coisa que faço nas minhas obras, nos meus filmes, faz parte da minha vida. Eu não sei contar outra coisa, se não parte da minha experiência pessoal. Tem que ter alguma coisa, senão eu não consigo, não me apaixono, não consigo contar essa história.
Amazônia Latitude: Isso é visível, Aurélio, na tua obra não somente fílmica, essa presença é algo que te dá vida, ou seja, que te impulsiona. Você não faz algo por fazer, você faz por acreditar naquilo que você está fazendo como transformador, como elemento de transformação. Durante os anos 50, que foi a tua geração, talvez a última a testemunhar ali o ciclo da borracha, do teu pai, naquele processo dos palacetes, como você falou, a Belle Époque. Aurélio, o que se perdeu quando essa geração passou? Eu quero trazer aqui o teu lado mais de cineasta. E o que o cinema pode preservar que a memória individual, no caso tua e de muitos outros da tua geração, não consegue?
Aurélio Michiles: O audiovisual, vamos chamar assim, que hoje já transcendeu, é um testemunho palpável da realidade. Porque, mesmo que seja ficção, com o passar do tempo vira um documentário. Porque você vê um filme feito nos anos 40, a interpretação, a técnica de atuar é uma, o vestuário também, o gestual, toda a paisagem está ali congelada naquele tempo. E, com isso, você consegue entender aquelas pessoas daquela época.
Eu me lembro que, quando nós éramos garotos, eu fazia parte de um grupo, e eu me sinto privilegiado nesse sentido, que gostava de ler. Tinha lá nossos discursos, cada um lia e ficava meio competindo quem lia primeiro ou quem acabava primeiro e tal.
Nas primeiras leituras que eu fiz, por exemplo, do Graciliano Ramos, que é Vidas Secas, eu ficava imaginando que mundo era aquele que não tinha água, que mundo era aquele onde as pessoas não tinham o que comer, que tinham que sair do seu lugar para ir para outro. Aquela seca. Eu ficava me esforçando a imaginar esse lugar da ausência, do nada. Como as pessoas viviam ali. Fabiano era um desafio para o meu imaginário. Não só meu, mas de outros colegas.
Porque nós éramos filhos da abundância, da paisagem abundante, da água abundante, e eu lendo esse livro muitas vezes estava caindo água, chovendo. Eu ficava tentando compreender esses mundos adversos.
Da mesma maneira que a questão indígena. Eu não conheci ninguém em minha volta, talvez eu fui o único que saiu de Manaus, do meu grupo, que passou dois anos convivendo com uma comunidade indígena, o único. As pessoas iam para outros lugares, para o exterior, morar no Rio, Brasília, São Paulo, sei lá onde, Minas. A vida do interior, essa vida da comunidade da selva, era uma coisa ameaçadora e distante. Então, para as pessoas poderem conviver com essa ameaça, elas transformavam isso em uma coisa idílica ou extinta. Elas não tinham a coragem de olhar nessa esfinge, como fala o senador Pororoca, e desvendar a esfinge da Amazônia.
Então, isso para nós todos foi um sacrifício, porque realmente, como você falou, nós fomos a última geração que viu fisicamente, materialmente, a borracha. Porque Manaus era cheio de palacetes, e as histórias que nós escutávamos sobre esse tempo era referente a pessoas que nós víamos. Esse exercício de compreender aquilo que nos sonegavam, porque, na verdade, estava se sonegando a verdadeira história da Amazônia.
E, por outro lado, havia o isolamento de Manaus, por exemplo, em relação ao Brasil. Era muito difícil sair de Manaus e ir para outro lugar. Hoje continua, mas muito menos. Então, começamos, por exemplo, a pegar o navio, ir a Belém, viajar de terceira classe nos barcos, ir para o interior, começou a ir para o interior. Tinha um amigo que o pai tinha sido prefeito de Autazes, então a gente ia em Autazes, que foi uma grande descoberta para mim. Fomos avançando cada vez mais. “Ah, vamos ao Alto Rio Negro”, sabe? Então, na medida que íamos crescendo, nós fomos avançando para descobrir essa Amazônia que nos era sonegada.
E aí começa-se a descobrir que havia indígenas morando em Manaus, que cada bairro de Manaus era habitado por alguma tribo, por alguma nação indígena, por alguma etnia indígena. E isso foi se construindo.
Depois, começou a surgir os movimentos pró-índios, de defesa das comunidades indígenas, começou a surgir os jornais. O Porantim, por exemplo, um jornal importante nessa redescoberta da nossa memória ancestral. Em Brasília, eu fui parte de um grupo, nós criamos um jornal chamado Tribo. As coisas foram se organizando de uma maneira que nós pudéssemos afirmar que o indígena era muito mais do que aquilo que nos era ensinado na escola ou em nossas casas.
Amazônia Latitude: E no teu artigo, você vai construindo esse elo entre filmes, entre relatos pessoais. E aí você cita alguns documentários também interessantes. E eu relendo o teu artigo para essa conversa, eu gostei muito quando você cita o Herzog, o Aguirre, a Cólera dos Deuses. E ali você utiliza esse filme como uma metáfora desse colonizador ensandecido mesmo, louco. E você descreve dessa forma a chegada do europeu, como ela transformou o paraíso, no caso a Amazônia, em horror, os rios inundados em cadáveres, populações desumanizadas, os indígenas transformados em intrusos. Eu gosto muito dessa tua análise no teu artigo, quando você fala que o índio era um intruso nesse processo todo contra os caras da borracha, os barões da borracha. Achei fantástico esse teu insight. Ainda me atendo à questão do Herzog, o que esse filme nos diz sobre a Amazônia ainda hoje?
Aurélio Michiles: Eu acho que ele continua sendo, para mim, um dos maiores, talvez o filme mais importante da Amazônia, e também sobre o processo de colonização, seja aqui ou em alhures, sabe? Na África, na Ásia, o processo é o mesmo, sabe? Quando o invasor chega, ele traz o terror, ele vem armado de blasfêmias, de audácia e de terror, sabe? É uma audácia, um desrespeito que mostra muito bem o momento que estamos vivendo da distopia.
E o filme, para mim, quando vi pela primeira vez… Já vi esse filme tantas vezes. A primeira vez que vi, fui arrebatado pelo filme, por tudo, pela música, pelos atores, pelo figurino, pela estética do filme, aquele cara ali enlouquecido no meio. Eu vi muita gente, eu vi mesmo, conheci pessoas que foram para a Amazônia e piraram, piraram, gente que se matou, inclusive.
Conheci, por exemplo, um funcionário da FUNAI, que vai morar na comunidade indígena, representante da FUNAI, e a solidão, o confronto civilizatório levou, pelo menos uma pessoa que eu conheci, a se matar. Ela não conseguiu. De uma forma horrorosa. Foi para a beira do rio, jogou gasolina, combustível e tocou fogo no corpo. Foi lá no Sateré-Mawé isso que aconteceu. E os indígenas contando para mim. Ele começou a pirar, a se desentender com a comunidade e aquela solidão, ao mesmo tempo que ele não queria voltar para a cidade, ao mesmo tempo que ele não queria mais ficar. E aí ele decidiu assumir uma atitude radical, que foi tirar a própria vida.
Para mim é isso. O Aguirre é exatamente essa pessoa. A ambição dele é tão enorme diante de tanta abundância, e na abundância ele não tem condições de se apossar dela. A natureza é muito mais violenta que ele.
Então isso aconteceu, por exemplo, com a ambição do Henry Ford de construir uma cidade na Amazônia, ela foi consumida pela floresta. Aconteceu com Ludwig, quando ele plantou a fábrica de celulose, e muitos outros projetos que se tentou implantar na Amazônia, e a própria floresta se encarrega de dar um sentido àquilo. Ou você se adapta ou você é devorado por ela. E a Amazônia tem sido isso.
Então, qual é o sentido hoje em relação a isso? É destruir completamente a Amazônia. É derrubar tudo, matar tudo, não deixar nada em pé. Porque a única forma de você impor essa ordem civilizatória capitalista é a terra arrasada, é o que fizeram agora na Faixa de Gaza. E eu, ainda assim, não acredito que seja o fim, porque sempre haverá uma resistência. Daí a importância da utopia. Utopia é isso, sabe? É esse esperançar das descobertas. Sempre há de se descobrir uma forma de estar ali naquele lugar, no meio das ruínas, construindo a sua utopia, a sua esperança. Isso, pelo menos, me faz me pôr numa condição de continuar acreditando em alguma coisa e realizando as histórias que tenho para contar.
Amazônia Latitude: No teu filme, Segredos do Putumayo, sobre o Roger Casement e as denúncias do trabalho escravizado durante o ciclo da borracha… E a gente está aqui hoje passado mais de um século depois do massacre, e a gente hoje está vendo diferentes formas de gramática, digamos, capitalista, a bioeconomia, a bio aquilo. O que continua igual nas formas de exploração dos povos e dos territórios amazônicos hoje?
Aurélio Michiles: Marcos, eu não vejo muitas mudanças, infelizmente. Ontem mesmo o parlamento aprovou, liberou geral para explorar a Amazônia. A ganância é muito grande. O capitalismo não tem respeito nenhum pela vida. O capitalismo não dialoga com comunidade, com coletivo. Ele dialoga com o indivíduo. Ele leva que o ser humano acredite que ele sozinho é capaz de fazer as coisas. Essa é a grande maldição do capitalismo, fazer as pessoas acreditarem que elas sozinhas conseguem fazer alguma coisa. E é uma ilusão, porque nós somos animais que gostamos de estar em comunidade. Nós nos sentimos bem em volta de uma mesa. E eu espero que nós, em algum momento, todos nós voltemos a deixar o celular do lado e voltar a conversar na mesa.
Uma coisa que na Amazônia hoje, para mim, que é o contraditório, mas que é o contraditório saudável, é que quando eu fui morar com o Sateré-Mawé, que eu realizei dois filmes, dois documentários, que é Guaraná: Olho de Gente e o Sangue da Terra, de lá para cá, isso já faz mais de 40 anos, quantas lideranças surgiram, como os indígenas se transformaram em protagonistas, as conquistas que eles conseguiram.
Hoje, você vai na universidade, você encontra indígenas em todas as áreas, na medicina, na enfermagem, na engenharia, enfim, qualquer área que você vá tem um indígena hoje. Você tem hoje um filósofo de uma grandeza, de uma sabedoria arrebatadora, que é o Ailton Krenak. Você tem em Manaus, por exemplo, a Vanda Witoto e tantos outros. Hoje, não me sinto na condição de pensar na minha ancestralidade, porque acho que a minha ancestralidade hoje é palpável. Ela está nessas pessoas que estão ocupando o espaço.
Um dia desse, eu recebi uma foto que foi enviada por um indígena Sateré-Mawé, que eu estou na foto, um grande líder indígena, ancião, o filho dele e o neto dele, eu estou com eles, são as grandes lideranças com quem eu convivi naquele momento e com quem eu aprendi muita coisa. E a foto desse, que deve ser o bisneto, é uma foto emoldurada num plástico. Eu fiquei tão emocionado por eles terem guardado aquela foto que eu desconhecia, e ela é colocada num lugar especial ali da casa deles, com plástico. Isso me conectou. Eu ainda espero fazer um filme com eles. Nós ainda temos histórias para contar conjuntamente. E, com certeza, eu não vou estar mais sozinho. Com certeza vai ter realizadores do audiovisual ali na comunidade. Com certeza nós vamos realizar mais um trabalho que fale dessas nossas angústias, das nossas utopias e das distopias que ora vivemos.
Amazônia Latitude: Você dedicou décadas da sua vida a documentar a Amazônia, seus ciclos econômicos, seus povos, como você mesmo colocou, as suas contradições. O que o cinema consegue capturar da Amazônia, que a literatura, por exemplo, que você conhece tão bem quanto eu, e o jornalismo, e a própria academia não consegue? O que ainda falta a ser filmado?
Aurélio Michiles: Eu acho que essas coisas não competem entre si, sabe? Cada um tem a sua categoria, o seu território de comunicação. É claro que o cinema, as imagens, é uma espécie de segunda pele da humanidade. Hoje nós somos vestidos de imagens. São camadas e camadas de imagens. Vivemos mergulhados nesse oceano de imagens. Mas, mesmo assim, eu acho que nada se esgota. Quantos filmes sobre o amor já foram feitos? Quantos filmes de guerra já foram feitos? Quantos filmes de terror já foram feitos? Quantos filmes de comédia já foram feitos? E nem por isso são gêneros ou temas esgotados. Porque sempre o olhar de cada um é o olhar de cada um. É um diferencial.
É tão bonito você ver um curta-metragem, por exemplo, falando da Cabanagem, falando de um mito da onça, ou falando da chuva, como já vi. São filmes esclarecedores, mas não se esgota.
Tem um filme, por exemplo, de um curta-metragem feito há muitos anos atrás pela Jorane Castro, que é uma realizadora paraense, que ela faz sobre a chuva de Belém. E aí você tem, no final dos anos 20, 30, você tem aquele curta-metragem do Joris Ivens chamado A Chuva. São pontos de vista, são filmes geniais, contados por pessoas de gerações distintas, diferentes, morando em continentes diferentes. A chuva que ele filmou não é a chuva amazônica, mas a chuva que a Jorane filmou não é a chuva do Joris Ivens. E, no entanto, são dois grandes filmes sobre a chuva.
Então, acho que o sistema da Amazônia, o que muda são as ameaças que se colocam presentes. No caso do Roger Casement foi a borracha que o Silvino filmou. Aí você vai ter o ciclo do ouro, aí você vai ter a agropecuária, a madeira, as rodovias rasgando a Amazônia, as hidrelétricas. Você vai tendo esses grandes eventos do avanço econômico invadindo e usurpando valores da Amazônia.
Isso aí não sei onde vai parar. Isso aí, na verdade, não é uma coisa contra a Amazônia, é contra o planeta. A única casa que temos no cosmos é o planeta Terra. Essas ações, na verdade, estão ameaçando o próprio planeta. A Amazônia faz parte desse cardápio apocalíptico.
Amazônia Latitude: Aurélio, você nasceu em Manaus, cresceu olhando o Teatro Amazonas pela janela da tua casa, que privilégio. Paulatinamente, sem perceber, você estava reproduzindo de alguma forma, lendo, traduzindo posteriormente em teus filmes várias utopias também: utopias da imagem, utopias de pensar outros possíveis para a região, de resgatar visões e perspectivas dos povos da região. E aí, quando você olha numa perspectiva, talvez, nesse arco da infância colonizada ao cinema decolonial, o que esse arco te ensinou sobre o que é, afinal, a utopia amazônica?
Aurélio Michiles: É, para mim, a utopia é isso. A Marilene Chaui, ela mata com uma frase: “-A utopia tem como ponto de partida o horror do presente”. E nós estamos vivendo um horror, estamos vivendo um momento de ameaças, de implosão de todos os valores que você possa imaginar, valores éticos, geopolíticos, os Estados Unidos se mostrando como o dono do mundo, invadindo países, sequestrando pessoas, fazendo exatamente o que eles sempre fizeram, mas agora de uma forma sem eira nem beira, como se fala.
Quando eles, nos anos 60, sequestraram o Patrice Lumumba, eles esconderam o sequestro e o assassinato do Patrice Lumumba para impedir que ele continuasse como grande líder no Congo. E agora não, agora eles ameaçam, vão invadir Venezuela, Cuba, Groenlândia, enfim, ameaça invadir o Brasil, Colômbia, quem eles quiserem.
Para mim, falar de utopia agora é um ato de resistência, é um ato de rebeldia, é um ato de continuar a manter esperança, de descobrir novas possibilidades de vivermos comunitariamente aqui no planeta Terra.
Amazônia Latitude: Aurélio, muito obrigado pela sua conversa, por ouvir os teus pensamentos e as tuas ideias tão íntimas e pessoais, mas que também são plurais e que chegam até nós, não somente através da tua voz, mas através da tua arte, do teu processo criativo. Muito obrigado.
A conversa com Aurélio Michiles deixa uma imagem que não para de reverberar: a utopia é a esperança da descoberta. Talvez seja disso que a utopia amazônica seja feita, não de grandes projetos ou conferências climáticas, mas da persistência silenciosa de quem nunca aceitou que aquele território lhes pertencia. E da floresta que continua crescendo teimosamente de dentro para fora.
Para ler o artigo de Aurélio Michiles “Amazônia: Utopia para quem?” basta adquirir o livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial.
Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
