Quando a natureza ganha guardiões: Encantaria e conservação ambiental no Marajó

Como as narrativas da Encantaria e os saberes tradicionais atuam como mecanismos culturais de proteção e pertencimento na Resex Soure

Igarapé onde o encantado “Pretinho da Bacabeira” se manifesta. Foto: Lucas Gabriel/GRUTEMA.
Igarapé onde o encantado “Pretinho da Bacabeira” se manifesta. Foto: Lucas Gabriel/GRUTEMA.
Igarapé onde o encantado “Pretinho da Bacabeira” se manifesta. Foto: Lucas Gabriel/GRUTEMA.

Igarapé tradicionalmente associado à manifestação do Encantado “Pretinho da Bacabeira”, em Soure (Marajó). O curso d'água funciona
como um território simbólico regulado por códigos de respeito e reciprocidade coletiva. Foto: Lucas Gabriel/GRUTEMA.

Na Amazônia, natureza e cultura dificilmente podem ser compreendidas como esferas separadas. Rios, florestas, animais e paisagens integram uma complexa rede de relações que articula memória, espiritualidade, identidade e modos de vida. Em muitas comunidades tradicionais, a proteção do ambiente não depende exclusivamente de normas jurídicas ou políticas de conservação, mas também de narrativas transmitidas pela tradição oral, que atribuem presença espiritual à natureza e transformam determinados espaços em territórios de profundo significado simbólico.

Essa compreensão aproxima-se de um debate consolidado na antropologia amazônica segundo o qual diferentes povos da região compreendem rios, florestas, animais e demais elementos da paisagem como sujeitos com os quais se estabelecem relações de reciprocidade, responsabilidade e convivência. Como observa Philippe Descola (2013), essa concepção rompe com a dicotomia moderna entre natureza e cultura, característica do pensamento ocidental moderno, oferecendo uma importante chave interpretativa para compreender as narrativas da Encantaria amazônica.

No contexto amazônico, essa perspectiva dialoga diretamente com o perspectivismo ameríndio desenvolvido por Eduardo Viveiros de Castro (2002), segundo o qual humanos e não humanos compartilham relações sociais mediadas por códigos morais, espirituais e territoriais.

O Pretinho da Bacabeira: memória, território e patrimônio ambiental

Entre as narrativas analisadas neste estudo, destaca-se a do Pretinho da Bacabeira, personagem da tradição oral do município de Soure, na Ilha do Marajó. Segundo registros de Miguel Bezerra (2011), importante guardião da memória cultural do município, esse Encantado habita áreas de mata onde predominam palmeiras bacabeiras.

Relata-se que um casal de origem portuguesa vivia às margens do igarapé da Bacabeira. Durante os longos períodos em que o marido permanececia trabalhando em uma fazenda da ilha, a mulher envolveu-se com um homem negro e engravidou. Temendo que a traição fosse descoberta, a parteira lançou o recém-nascido nas águas do igarapé.

A criança, porém, não teria morrido. Ela teria passado a habitar o mundo encantado das águas, tornando-se o Pretinho da Bacabeira, cuja morada estaria associada ao igarapé Taucu. Desde então, o Encantado protege o lugar e repreende aqueles que desrespeitam o território.

Mesmo após o aterramento do antigo igarapé — realizado, segundo a memória local, mediante autorização ritual de um pajé — muitos moradores acreditam que sua presença permanece viva. Como demonstração de respeito, algumas pessoas ainda depositam garrafas de cachaça no local, oferendas que, segundo a tradição, desaparecem no dia seguinte.

Outra versão da narrativa associa o Pretinho da Bacabeira à trajetória de um menino negro escravizado que, após sofrer sucessivas violências durante o período escravista, transforma-se em um ser encantado que passa a habitar manguezais e áreas de floresta. Nessa perspectiva, sua presença é frequentemente relacionada às margens do rio Paracauari, ambiente estuarino marcado pela presença de extensos manguezais e pela forte tradição ribeirinha.

Sob a perspectiva antropológica, o interesse dessa narrativa não reside na comprovação factual da existência do Encantado, mas na compreensão de seus efeitos sociais. Ao reconhecer simbolicamente manguezais, matas e igarapés como territórios habitados por seres encantados, essas narrativas produzem formas específicas de relação com o ambiente, nas quais respeito, medo, reciprocidade e pertencimento passam a orientar práticas cotidianas de uso do território.

Assim, mais do que personagens do imaginário amazônico, os Encantados podem ser compreendidos como mediadores simbólicos das relações entre sociedade e ambiente, contribuindo para a construção de códigos morais que regulam o uso dos recursos naturais e reforçam o sentimento de pertencimento ao território.

Essa interpretação não busca estabelecer uma relação direta de causalidade entre crenças e conservação ambiental. Antes, procura compreender como sistemas simbólicos compartilhados pelas comunidades tradicionais podem influenciar formas específicas de perceber, ocupar e cuidar do território. Sob essa perspectiva, a Encantaria integra um conjunto mais amplo de saberes que contribuem para construir relações culturalmente situadas com a natureza.

Localização aproximada da área associada à narrativa tradicional. Imagem: Reprodução/Google Maps com adaptações.

Vista aérea da região associada à narrativa tradicional. Imagem: Reprodução/Google Maps com adaptações.

Patrimônio cultural e conservação da biodiversidade

Do ponto de vista geográfico e ambiental, o cenário descrito pelas narrativas corresponde a áreas atualmente protegidas pela Reserva Extrativista Marinha de Soure (Resex Soure), unidade de conservação federal criada em 2001 com o objetivo de proteger ecossistemas costeiros e assegurar a sustentabilidade das comunidades tradicionais que dependem dos recursos naturais da região. A reserva abrange extensos manguezais, campos naturais e praias oceânicas, ambientes que também ocupam lugar central no imaginário das narrativas sobre os Encantados (ICMBio, 2018).

Outro elemento simbólico relevante é a bacabeira (Oenocarpus bacaba), palmeira amplamente distribuída em áreas de terra firme e várzea da Amazônia. Além de sua importância alimentar e econômica para diversas comunidades amazônicas (Cavalcante, 2010), a espécie assume, na narrativa do Pretinho da Bacabeira, um papel que ultrapassa sua dimensão ecológica. A árvore passa a integrar uma paisagem carregada de significados culturais, tornando-se referência espacial da manifestação do Encantado e reforçando a estreita relação entre biodiversidade, memória e identidade territorial.

Sob essa perspectiva, as narrativas da Encantaria podem ser compreendidas como formas simbólicas de mediação entre sociedade e natureza. Os manguezais, por exemplo, além de desempenharem papel ecológico essencial como berçários naturais de peixes, crustáceos e inúmeras outras espécies, ocupam lugar de destaque na cultura e na cosmologia das populações marajoaras. A associação desses ambientes à presença de seres encantados tende a reforçar práticas de respeito ao território, produzindo mecanismos culturais que podem contribuir para sua conservação. Essa interpretação dialoga com Antonio Carlos Diegues (2008), ao reconhecer que saberes tradicionais e valores culturais constituem dimensões relevantes na proteção dos ecossistemas.

A coexistência entre a Resex Soure e as narrativas da Encantaria ilustra como políticas formais de conservação e sistemas tradicionais de conhecimento podem atuar de forma complementar na proteção do território. Além de proteger os manguezais e disciplinar o uso sustentável dos recursos pesqueiros, a unidade de conservação abriga paisagens profundamente vinculadas às narrativas locais, revelando como patrimônio natural e patrimônio cultural podem coexistir e fortalecer-se mutuamente.

Nesse contexto, o Pretinho da Bacabeira ultrapassa a condição de personagem do imaginário popular para representar uma forma de interpretar e significar o território. Mais do que explicar a origem de determinados lugares, sua narrativa evidencia como memória, espiritualidade e natureza permanecem articuladas na construção de práticas sociais de cuidado e pertencimento.

Essa relação também se manifesta na Sociedade Marajoara de Artes (SOMA) “Pretinho da Bacabeira”, localizada nas proximidades da área tradicionalmente associada ao Encantado. O espaço reúne referências à narrativa, incluindo um pequeno altar onde visitantes e moradores deixam oferendas, como água e cachaça, reafirmando a permanência dessas narrativas e de seus significados culturais no cotidiano da comunidade.

Altar dedicado ao Pretinho da Bacabeira na Sociedade Marajoara de Artes. Foto: Acervo SOMA.

Altar dedicado ao Pretinho da Bacabeira na Sociedade Marajoara de Artes. Foto: Acervo SOMA.

Reconhecer essas narrativas significa reconhecer, igualmente, os conhecimentos produzidos pelas comunidades tradicionais da Amazônia. Transmitidos entre gerações, esses saberes não apenas preservam a memória coletiva, mas também oferecem outras formas de compreender as relações entre seres humanos e natureza.

Embora não substituam instrumentos legais ou políticas públicas de conservação, estas narrativas constituem patrimônios culturais capazes de fortalecer práticas locais de cuidado ambiental. Reconhecê-las significa ampliar o próprio conceito de conservação, incorporando os saberes tradicionais como parte das estratégias de proteção da biodiversidade amazônica.

Em um contexto marcado pela intensificação das mudanças climáticas e pela crescente pressão sobre os ecossistemas amazônicos, compreender essas formas tradicionais de relação com a natureza significa ampliar o repertório de estratégias disponíveis para pensar a conservação ambiental de maneira socialmente enraizada e culturalmente plural.

Referências

Bárbara Alves é Graduada em Letras/Inglês pela Universidade Federal do Pará, escritora e poeta marajoara, membro  fundador da Academia de Letras de Soure e da Academia Marajoara de Letras.

Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Coló

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