A Amazônia pensa. E suas mulheres produzem conhecimento
O legado de Zélia Amador de Deus e o reconhecimento das mulheres que fazem ciência na Amazônia

Mural em homenagem a Zélia Amador de Deus no campus da UFPA, em Belém: a presença de intelectuais negras e indígenas transforma
o espaço acadêmico. Foto: Alexandre de Moraes/Ascom UFPA.
Há na Amazônia mulheres cientistas, professoras, pesquisadoras. Há mulheres formulando perguntas, construindo teorias, produzindo tecnologias e formando gerações.
Que nomes vêm à memória quando se fala dessas mulheres? Quais de suas obras são conhecidas? Quem são as professoras desse lugar que, além de floresta, é também universidade?
As imagens pelas quais a Amazônia é apresentada ajudam a compreender essas perguntas. Em À sombra da floresta: a Amazônia no jornalismo de televisão (2022), Vânia Maria Torres Costa, professora da Universidade Federal do Pará, analisa as representações da região no telejornalismo. A pesquisa que deu origem ao livro identifica narrativas nas quais os sujeitos amazônicos aparecem inferiorizados e apagados diante da importância atribuída à floresta. O estudo evidencia como essas representações reproduzem relações históricas de poder e hierarquias entre regiões e pessoas.
Para além da paisagem e da carência
A partir dessa análise, cabe pensar também no lugar reservado à produção intelectual. Quando uma região é reconhecida principalmente por sua paisagem, suas instituições, seus debates e seus pesquisadores podem permanecer fora do enquadramento.
A existência de universidades e laboratórios, por si só, não assegura que seus integrantes sejam incorporados às referências pelas quais o país reconhece a própria ciência.
A morte de Zélia Amador de Deus, em 8 de setembro de 2026, coloca em evidência uma dessas mulheres e a responsabilidade de conhecer o que ela produziu.
Professora emérita da UFPA, artista, intelectual e cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, Zélia construiu uma trajetória que atravessou a educação, a cultura, a gestão universitária e a luta antirracista.
A quem se dedica ao saber, à docência e à produção do conhecimento, cabe dedicar tempo à sua obra. Conhecê-la, reconhecê-la, estudá-la. Permitir que a homenagem se prolongue na leitura, que seu pensamento encontre novas salas de aula, novas pesquisas e novas perguntas.
As teias de Ananse e a universidade antirracista
Em sua tese, Os herdeiros de Ananse: movimento negro, ações afirmativas, cotas para negros na universidade (2008), Zélia investigou a atuação do movimento negro na construção das políticas de ação afirmativa. Aproximou a pesquisa social da linguagem teatral e utilizou a imagem das teias de Ananse para narrar estratégias de resistência.
Nessa elaboração, as culturas e a organização coletiva dos africanos e de seus descendentes ocupam um lugar central no enfrentamento ao racismo.
Sua contribuição permite compreender como sujeitos historicamente discriminados participam da elaboração de políticas e da transformação das instituições. A experiência da militância encontra, em sua obra, um trabalho de interpretação da sociedade brasileira. Ler Zélia significa entrar em contato com conceitos, escolhas metodológicas e argumentos que podem sustentar outras investigações.
O artigo “Duplo apagamento: ser mulher e construir carreira na Amazônia” discute como gênero e território atravessam o acesso a oportunidades, redes e espaços de decisão. Essa reflexão alcança o reconhecimento intelectual.
Quando a Amazônia é descrita continuamente pela carência, pela distância e pela ausência, cria-se uma dificuldade adicional para percebê-la como lugar de elaboração científica. A falta passa a definir a região, enquanto suas realizações permanecem fora de cena.
Nessa lógica, o conhecimento parece precisar chegar de algum outro lugar. Reconhecer as desigualdades de financiamento e infraestrutura é necessário, mas transformá-las na identidade de uma região acaba por ocultar o trabalho realizado em suas instituições. Uma universidade pode precisar de mais recursos e, ao mesmo tempo, produzir pesquisas relevantes. Uma cientista pode enfrentar barreiras de acesso e desenvolver contribuições que ampliam a compreensão de um problema.
Com Zélia, a discussão incorpora também a dimensão racial. Sua trajetória como mulher negra, intelectual e amazônida evidencia relações de poder que atravessam o acesso à universidade. Ela participou da construção das ações afirmativas na UFPA e produziu conhecimento sobre as disputas que possibilitaram ampliar a presença negra no ensino superior. Sua atuação conecta a transformação das condições de acesso à reflexão sobre quem pode ocupar o lugar de produtor de conhecimento.
Cientistas da floresta
Há outras trajetórias a conhecer. Na UFPA, Joyce Kelly do Rosário da Silva pesquisa óleos essenciais e compostos bioativos de espécies amazônicas. Em 2013, recebeu o prêmio L’Oréal–Unesco–ABC Para Mulheres na Ciência.
Na genética humana e médica, Ândrea Ribeiro dos Santos já reunia mais de 200 artigos em periódicos especializados, segundo perfil publicado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP em 2023. São exemplos documentados de produção e reconhecimento científico.
Nas humanidades, Jane Felipe Beltrão articula antropologia, história, gênero e direitos de povos indígenas. Na comunicação, a própria investigação de Vânia Torres Costa oferece instrumentos para compreender as representações da Amazônia.

Vânia Maria Torres Costa, professora da UFPA e autora de À sombra da floresta: a Amazônia no jornalismo de televisão. Foto: Acervo Pessoal.
Essas trajetórias mostram a diversidade de campos nos quais mulheres vinculadas a instituições paraenses elaboram perguntas e produzem respostas.
Mencionar esses nomes é um ponto de partida. O reconhecimento intelectual se aprofunda quando o contato com uma trajetória leva à leitura de um artigo, ao debate de uma hipótese ou à inclusão de uma autora no currículo. A presença pública das pesquisadoras ganha consistência quando suas ideias também circulam.
A floresta, os rios e os povos indígenas e ribeirinhos são dimensões fundamentais da Amazônia. Seus conhecimentos têm autoria, história e complexidade. Reduzi-los a imagens folclorizadas também apaga sua capacidade de investigar, criar e transformar. O mesmo olhar que converte uma comunidade em paisagem pode deixar de perceber uma mulher como autora de uma ideia.
A afirmação de que a Amazônia produz ciência amplia esse reconhecimento. Há produção intelectual em suas universidades, instituições de pesquisa e redes de colaboração. Há saberes sendo elaborados e transmitidos em suas comunidades. O diálogo entre essas formas de conhecimento pode preservar suas particularidades, reconhecer seus sujeitos e abrir possibilidades de investigação compartilhada.
Para as mulheres que constroem suas trajetórias aqui, ter suas obras lidas, citadas e debatidas amplia as possibilidades de participação. Uma pesquisadora reconhecida pelo que pensa também oferece às próximas gerações uma referência de futuro. Sua presença ajuda a tornar imagináveis caminhos que o silêncio mantinha distantes.
Esse reconhecimento pode orientar escolhas concretas: incluir autoras amazônidas nos currículos, convidá-las a participar de debates nacionais, financiar suas pesquisas e ampliar sua participação nas decisões sobre ciência, educação e desenvolvimento. Nas instituições de ensino e nos veículos de comunicação, há espaço para apresentar suas contribuições com a mesma atenção dedicada aos problemas que investigam.
A permanência pela leitura
Zélia deixa uma obra à qual retornar. Estudá-la é uma forma de dar continuidade às perguntas que ela colocou em movimento. Sua permanência também se constrói nesse encontro entre o que escreveu e quem encontrará, em suas páginas, uma possibilidade de pensar.
Há na Amazônia mulheres produzindo conhecimento sobre o mundo. Que seus nomes sejam conhecidos. Que suas ideias sejam discutidas. Que seus livros sejam abertos.
A Amazônia pensa. E suas mulheres precisam ser lidas.
Thaís Fernandes é mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, na linha de pesquisa Sociedade, Representações e Tecnologia, graduada em Marketing e possui MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente, é diretora da Afya Educação Médica em Belém. Tem mais de dez anos de trajetória no setor educacional, com experiência em docência, gestão acadêmica, pesquisa, extensão e liderança. Atua também em projetos de consultoria em gestão, desenvolvimento organizacional e territorial, estratégia e pessoas. É autora de artigos e revisora técnica de livros, com produção nas áreas de comunicação, educação, gestão e Amazônia. Ministra palestras, cursos e workshops no Brasil e no exterior sobre gestão, liderança, comunicação, sustentabilidade, inovação, educação e protagonismo feminino.
Edição, Revisão e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
