Da memória às urnas: as lutas indígenas que atravessam as eleições de 2026

Entre histórias de resistência, formação política e novas candidaturas, a participação indígena no último pleito revela que exercer o voto é carregar a memória de quem lutou antes

A política institucional encontrada pela vida e pela ancestralidade: eleitores do povo Wajãpi na fila de votação na Aldeia Aramirã (AP), mostrando que o voto indígena carrega a força dos territórios. Foto: Divulgação/TRE-Amapá.
A política institucional encontrada pela vida e pela ancestralidade: eleitores do povo Wajãpi na fila de votação na Aldeia Aramirã (AP), mostrando que o voto indígena carrega a força dos territórios. Foto: Divulgação/TRE-Amapá.
A política institucional encontrada pela vida e pela ancestralidade: eleitores do povo Wajãpi na fila de votação na Aldeia Aramirã (AP), mostrando que o voto indígena carrega a força dos territórios. Foto: Divulgação/TRE-Amapá.

A política institucional encontrada pela vida e pela ancestralidade: eleitores do povo Wajãpi na fila de votação na Aldeia Aramirã (AP),
mostrando que o voto indígena carrega a força dos territórios. Foto: Divulgação/TRE-Amapá.

Antes de chegar à urna, o voto indígena carrega histórias.

Carrega as reivindicações de quem lutou pelo direito à terra, pela preservação dos territórios, pela educação, pela saúde e pelo reconhecimento de seus próprios modos de vida. Carrega a trajetória de organizações e lideranças que, durante décadas, ocuparam espaços de decisão que não foram construídos originalmente para recebê-las.

Assim, o voto indígena passa a ser o reconhecimento desses direitos, que não surgiram de forma natural. Houve luta. Por isso, quando penso na participação eleitoral dos povos indígenas, não consigo separar a escolha feita diante da urna das pessoas que vieram antes e ajudaram a construir esse caminho. É assim que compreendo essa relação. Votar, nesse sentido, também significa continuar lutas iniciadas por outras gerações.

Os números das eleições de 2026 ajudam a dimensionar a presença indígena nesse processo. Levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) registrou 191 candidaturas indígenas, o maior número desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a coletar informações de raça e cor dos candidatos. Foram 99 candidaturas para deputado estadual, 75 para deputado federal, quatro para senador e outras para cargos do Executivo e suplências. A Amazônia Legal concentrou 80 candidaturas, o equivalente a 42% do total.

No eleitorado, o TSE contabilizou 287.157 pessoas autodeclaradas indígenas aptas a votar em 2026.  O número representa crescimento de 84% em relação às 155.661 registradas em 2024. No Norte, onde está concentrada a maior parcela desse eleitorado, eram 136.978 pessoas. O Amazonas aparece como o estado com maior crescimento absoluto: passou de 37.359 eleitores indígenas em 2024 para 73.580 em 2026.

Os dados mostram crescimento, mas não explicam sozinhos o que existe por trás dele. Para entender esse movimento, é preciso voltar à memória.

O “futuro ancestral” e o combate ao coma colonial

Danielle Munduruku, diretora do Instituto Intercultural de Educação, Saúde e Território do Rio Negro (IEST/UFAM): "Sem memória, a gente entra em estado de coma, coma colonial". Foto: Acervo pessoal.

Danielle Munduruku, diretora do IEST/UFAM: “Sem memória, a gente entra em estado de coma, coma colonial”. Foto: Acervo pessoal.

Para Danielle Munduruku, diretora do Instituto Intercultural de Educação, Saúde e Território do Rio Negro (IEST/UFAM), a memória política indígena é construída a partir da relação entre os conhecimentos transmitidos pelos parentes e as experiências vividas no presente. Ela afirma:

Nós, povos indígenas, tivemos que sobreviver ao processo da colonização e, hoje, aos diferentes processos da colonialidade”.

Na visão de Danielle, compreender o passado é também compreender o presente para pensar o futuro. Ela chama essa relação de “futuro ancestral”, em que passado, presente e futuro não são momentos isolados, mas partes de um processo contínuo.

A frase que mais me chamou atenção durante a entrevista resume essa preocupação: “Sem memória, a gente entra em estado de coma, coma colonial.”

Interpreto essa ideia como o risco de uma sociedade ficar paralisada diante das próprias experiências, deixando de reconhecer as disputas que ajudaram a construir os direitos existentes. É como se esquecer das lutas anteriores significasse também baixar a cabeça diante de decisões que podem caminhar em sentido contrário àquilo que essas gerações reivindicaram.

Danielle também relaciona memória e formação de novas lideranças. Para ela, conhecer as histórias dos povos permite compreender de onde se veio e, a partir disso, construir caminhos para o futuro.

Essa transmissão ganha importância em uma sociedade em que o acesso à informação é cada vez maior. Se existem registros, pesquisas e relatos sobre as trajetórias de quem lutou pela garantia de direitos, considero cada vez mais difícil justificar o desconhecimento sobre essas histórias. Ignorá-las significa abrir mão de uma parte da própria consciência política.

Conhecer essas histórias, na minha percepção, produz uma pergunta inevitável: o que estamos fazendo hoje com aquilo que foi construído antes de nós?

A memória não se mantém sozinha. Ela precisa ser transmitida.

Danielle destaca o papel da educação escolar indígena nesse processo. Segundo ela, a escola, que historicamente também foi utilizada como instrumento de assimilação cultural, pode ser transformada em espaço de resistência e fortalecimento das histórias indígenas. Segundo ela:

A educação escolar indígena hoje tem papel fundamental na manutenção e na propulsão das nossas histórias e memórias”.

A universidade também aparece nessa disputa. Para Danielle, a presença indígena no ensino superior não deve significar apenas a entrada de estudantes indígenas em instituições acadêmicas, mas também o reconhecimento de seus saberes como formas legítimas de produção de conhecimento.

“A comunicação quebra paradigmas, abre portas e janelas. É uma aliada mais que importante”, diz Danielle.

Democracia, alianças e o papel do jornalismo

A fala também me faz pensar no peso da formação jornalística diante de uma pauta como essa. Quando o jornalista escreve sobre comunidades indígenas, não está apenas reproduzindo informações. Existe uma responsabilidade na escolha das fontes, na apuração, na linguagem utilizada e na forma como essas comunidades são apresentadas.

O jornalismo pode contribuir para preservar a memória justamente quando deixa de repetir estereótipos e passa a buscar dados, documentos, pesquisas e diferentes perspectivas. Também pode ampliar a visibilidade de estudos específicos sobre a participação indígena na política, uma área que ainda precisa ser mais explorada.

A primeira coisa que esse processo me fez pensar foi na democracia: no que ela significa e em como interpretamos liberdade de voto, liberdade de expressão e convivência em comunidade. Todos podem ter opiniões diferentes. Mas as candidaturas e as alianças políticas chamaram especialmente minha atenção porque existe uma história por trás da ocupação desses espaços.

É impossível não pensar na luta que foi necessária para que os povos indígenas chegassem a espaços de decisão política. Por isso, quando aparecem candidaturas que parecem tratar a representação apenas como ocupação de vaga, sem uma trajetória de luta que ajude a explicar aquela chegada, considero necessário olhar com mais cuidado.

Em 2026, também chamou minha atenção a existência de candidaturas e alianças que se apresentam próximas a setores da direita. Isso não significa negar a liberdade democrática dessas escolhas. Significa reconhecer que essas alianças também precisam ser analisadas dentro da história dos direitos indígenas e das posições políticas defendidas por cada grupo.

Formação política, cartilha e a complexidade das candidaturas

É nesse cenário que surge a cartilha “Tem Aldeia na Política – Povos Indígenas e as Eleições 2026”, elaborada pelo Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (Foreeia) e pela Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI).

Seminário "Tem Aldeia na Política" debate estratégias de formação e participação eleitoral dos povos indígenas. Foto: Lara Marubo/Amazônia Latitude.

Seminário “Tem Aldeia na Política” debate estratégias de formação e participação eleitoral dos povos indígenas. Foto: Lara Marubo/Amazônia Latitude.

A publicação é uma atualização de material produzido para as eleições de 2022 e propõe que as experiências eleitorais anteriores sejam utilizadas como instrumento de formação política. O documento pretende contribuir para o debate nas comunidades sobre a importância das eleições, do voto e dos efeitos dos resultados sobre os direitos indígenas.

A cartilha explica o funcionamento do pleito e apresenta uma análise de partidos e de votações no Congresso relacionadas a temas estratégicos, como a Lei 14.701/2023 (o chamado marco temporal) e o projeto de licenciamento ambiental conhecido como “PL da Devastação”.

De acordo com o levantamento da publicação, parlamentares de partidos de direita e centro-direita tiveram maioria de votos favoráveis à Lei 14.701, enquanto partidos de esquerda e centro-esquerda registraram maior proporção de votos contrários.

O crescimento das candidaturas indígenas em 2026 também levanta outra questão: ser indígena e ocupar um espaço político significa, necessariamente, representar os interesses dos povos indígenas?

A resposta, para mim, é não. As candidaturas carregam trajetórias diferentes, pertencem a partidos distintos e podem defender projetos políticos diversos. A própria diversidade de alianças demonstra que não existe uma única posição política entre os candidatos indígenas. Essa pluralidade faz parte da democracia, mas reforça a importância de olhar além dos rótulos.

Conquistas históricas nas urnas e a continuação da luta

Os resultados do primeiro turno de 2026 já trazem reflexos concretos dessa expansão. Em São Paulo, Sônia Guajajara (PSOL) foi reeleita deputada federal com 54.207 votos. Na Amazônia, um resultado chama atenção pelo caráter inédito: Clóvis Curubão (PT) foi eleito deputado estadual com 34.869 votos, tornando-se o primeiro indígena eleito para a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).

Indígena do povo Tariana e ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira — um dos municípios com maior presença indígena do país —, Curubão obteve ali 17.563 votos, mais da metade de seu total. O resultado coloca no Parlamento estadual uma trajetória que nasceu no município e passou pela administração pública antes de chegar à Assembleia.

Isso mostra que a representação indígena não acontece de uma única maneira. No Amazonas, a Apib registrou candidaturas por siglas como Rede, MDB e PSB, além do PT. No Pará, houve candidaturas pelo PSB, PT, PSD, Avante e PSOL; em Roraima, por PT, Agir e PSOL. Isso impede que a presença indígena seja compreendida apenas como uma questão partidária: ela envolve territórios, organizações e diferentes estratégias institucionais.

Essa discussão ganha dimensão particular no Amazonas, estado que concentra o maior eleitorado indígena do país e reúne povos com diferentes línguas e histórias, como os Tikuna e Kokama. Por isso, a participação eleitoral não pode ser reduzida ao ato de depositar um voto na urna.

É justamente essa compreensão que aparece na fala de Danielle Munduruku. Para ela, os povos indígenas precisam olhar para o passado para compreender o presente e projetar o futuro. A política, nessa perspectiva, não é ruptura, mas continuação.

O crescimento das candidaturas e a eleição de novas lideranças mostram que essa presença se amplia. Por trás de cada voto existe uma comunidade que interpreta o presente a partir de sua própria história.

A cadeira ocupada a partir de 2027 é nova, mas a história que a levou até ali não começou em 2026. A memória política indígena é formada pelo encontro entre aquilo que os parentes transmitem e aquilo que as novas gerações constroem no presente. É desse encontro que nasce o futuro.

E, para os povos indígenas, esse futuro também passa pela urna.

Lara Marubo é estudante de Jornalismo (UFAM), pesquisadora na área de Ciência da Comunicação, comunicadora da rede de estudante indígena do Vale do javari-REIVAJA, e escritora do programa de extensão ligação, na Revista Maloca Digital.

Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Diretor de redação: Marcos Colón

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