Utopias Amazônicas #06 | Renan Freitas Pinto — As Utopias Indígenas: Instruções para o Futuro
O pensamento social brasileiro, a resistência contra o extrativismo cultural e o papel dos povos isolados como a expressão mais radical da alteridade na Amazônia

Renan Freitas destrincha a potência do pensamento social brasileiro, a resistência contra o extrativismo cultural e o papel dos povos
isolados como a manifestação mais radical de alteridade e sobrevivência na Amazônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
“Depois de 500 anos de invasão das Américas, conseguiram acabar com boa parte das populações indígenas. Mas agora, em que o fim do mundo se transformou em um problema para todos, são esses mesmos povos indígenas os que mais podem nos ensinar a prolongar ou adiar esse fim do mundo, como diz o escritor Ailton Krenak”.
A frase de Eduardo Viveiros de Castro é o coração do artigo do professor Renan Freitas Pinto. Porque as utopias indígenas, como ele mostra, não são apenas utopias dos indígenas, são utopias de todos nós.
O professor é o entrevistado do sexto episódio do Utopias Amazônicas: conversa com os autores. A série, do LatitudeCast, é inspirada no livro organizado por Marcos Colón e publicado pela Ateliê Editorial.
Renan Freitas Pinto é professor emérito e titular da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisador visitante da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Ele é coordenador do Grupo de Pesquisa sobre o Pensamento Social Brasileiro na Amazônia e responsável pela publicação dos três volumes de Vozes da Amazônia, em parceria com a professora Elide Rugai Bastos.
Foram 50 autores falando sobre mais de 50 outros autores, abordando o pensamento social da região. Este livro é seminal para todos aqueles que se debruçam a entender a complexidade social da Amazônia. O professor Renan Freitas Pinto é pesquisador dos temas do trabalho, da mulher e do pensamento social brasileiro, com pesquisas sobre Florestan Fernandes — tema de sua tese de doutorado —, Octavio Ianni e Celso Furtado. É também pesquisador da agricultura familiar na Amazônia, organizador de grupo de pesquisa sobre teoria crítica e realizou seu pós-doutorado na USP (2013), com foco na obra e no pensamento de Theodor Adorno.
No livro Utopias Amazônicas, o professor assina o artigo “As Utopias Indígenas”, um ensaio que percorre as múltiplas formas de esperança, de resistência e transformação que os povos originários carregam e que cada vez mais dizem respeito a todos nós.
Acesse o episódio aqui:
Amazônia Latitude: Professor Renan, seja muito bem-vindo aqui ao LatitudeCast.
Renan Freitas: Obrigado pelo convite. Eu gostaria de fazer um comentário introdutório a respeito dessa ideia, ou mito, da “terra sem males”. Que, aliás, um dos autores indígenas falou que esse termo, “mito”, não é um termo indígena. Eles não usam essa expressão para se referir às suas narrativas.
Em relação a esse mito ou narrativa da terra sem males, que se manifesta historicamente através dos tempos, a sua primeira grande ocorrência se dá justamente contra o colonialismo, ou seja, já desde o início desses 500 anos. Ou seja, contra a presença dos primeiros invasores e escravistas, e que sua presença foi, desde esses tempos, predatória contra os povos originários, contra a natureza e todos os seus biomas.
Amazônia Latitude: Perfeito, professor. Como a gente tem feito aqui com todos os autores, eu queria começar essa conversa perguntando ao senhor: o que é a Utopia Amazônica?
Renan Freitas: Bem, eu imagino que os desejos expressos nessas utopias dos povos originários da Amazônia são as que melhor expressam o que poderíamos enxergar como a utopia amazônica, pois elas representam mais completamente as utopias de toda a região — como, por exemplo, a permanência da floresta e de tudo o que ela representa e encerra em termos naturais e humanos. Ou seja, seria essa a minha primeira percepção do que significa a utopia amazônica.
Amazônia Latitude: O senhor poderia falar um pouco sobre o que são essas utopias e o que as une? Apesar de virem de povos, línguas e territórios tão diferentes, o que essas utopias carregam como ponto de convergência?
Renan Freitas: Talvez a gente pudesse, antes de propriamente responder isso, imaginar, por exemplo, o mito da Boiúna, ou da Cobra Grande. Ele aparece também lá do outro lado do mundo, na Austrália. Há uma universalidade dessas utopias que, aparentemente, são locais, mas podem se manifestar em diversas geografias. Talvez o professor que abordou a questão da utopia e geografia na obra tenha mencionado algo a respeito.
A terra sem males encerra múltiplas utopias indígenas, como, por exemplo, o respeito à integridade territorial e cultural dos povos, a demarcação permanente de suas terras, a manutenção dos chamados povos isolados, a permanência da consciência mítica e a manifestação das diferentes culturas através da edição de obras indígenas. Como foi o caso recente da publicação de uma obra em que a antropóloga Luiza Garnelo participa, intitulada Comidas Tradicionais Indígenas do Alto Rio Negro.
Essa obra é uma espécie de exemplo de como as outras culturas indígenas poderiam se manifestar através de edições de obras sobre seus diferentes aspectos culturais, a respeito complexidade cultural — como o xamanismo do pajé, a culinária e assim por diante.
Amazônia Latitude: Isso é muito interessante, porque o senhor mencionou a questão desses aspectos que unem as utopias desses povos. Mas o senhor também apresenta que os povos isolados são uma das formas mais radicais de utopias indígenas. Por quê? Porque eles se recusam a ser assimilados, a perder a língua, os mitos, as técnicas de agronomia ou a arquitetura culinária. Mas o senhor também reconhece a dificuldade de manter essa condição a médio e longo prazo. Essa utopia ainda é possível ou está fadada a se tornar uma peça de museu?
Renan Freitas: Não, pelo contrário. Eu acho que essa ideia de povos isolados funcionaria como uma espécie de uma utopia geral dos povos indígenas. Não apenas daqueles que são considerados propriamente isolados, mas dos outros que perderam esse isolamento, essa distância com os invasores ou os representantes da sociedade nacional.
A luta dos chamados povos isolados é certamente a luta mais radical por essa utopia de se manterem preservados dos diferentes assédios que sofrem pelos agentes da sociedade global — sejam eles missionários, viajantes, comerciantes, grileiros, indigenistas, antropólogos, agentes da FUNAI e, eventualmente, até povos vizinhos, indígenas ou não. [Eles são] Ameaçados de perderem os seus modos originais de vida, suas línguas, seus mitos e histórias, sua agronomia, suas técnicas de caça e pesca, sua arquitetura, sua culinária e sua interação equilibrada com a natureza.
Amazônia Latitude: Como o senhor acabou de falar desses aspectos que representam essa outra autoridade radical da utopia indígena, no mesmo artigo o senhor fala também sobre essa permanência dos mitos e da consciência mítica. E aí o senhor fala que “é uma das formas essenciais das utopias indígenas”. E existe essa explicação que os mitos carregam cosmogonias, explicações da origem do mundo, do universo, dos seres. Em certo sentido, um mito também é uma utopia. O que se perde quando ele desaparece junto com o povo que o guarda?
Renan Freitas: [Sobre] os mitos como utopias, o que se perde quando eles desaparecem e em que sentido o mito é também uma utopia, é que essas utopias indígenas normalmente são enunciadas através de suas narrativas e dos seus mitos, que constituem, portanto, as formas essenciais para a explicação e a compreensão da origem do mundo e dos seus próprios povos indígenas com suas cosmogonias relacionadas com o mundo, ou seja, o mundo natural e também o mundo humano. As narrativas míticas, portanto, representam também o universo poético e simbólico dos povos, em que se manifestam de várias maneiras nas expressões literárias e até recentemente cinematográficas ou fotográficas dos seus diferentes povos.
Amazônia Latitude: No artigo, o senhor menciona o Daniel Munduruku. É muito interessante essa conexão que se constrói. O senhor o cita: “o conhecimento dos nossos avós foi deixado para os nossos netos de forma oral como teia que une o passado e o futuro”. O senhor aponta que missionários, pesquisadores e viajantes se apropriaram dessas histórias sem, de uma forma legítima, reconhecer a autoria coletiva, nem repartir os dividendos com essas comunidades. Agora, neste século, vivemos o boom editorial de autores indígenas, que o senhor descreve como uma resposta a esse extrativismo cultural. Esse boom editorial, ao resgatar essas narrativas, é uma utopia que já está se tornando realidade?
Renan Freitas: A crescente publicação de obras de autores indígenas, como expressa o Daniel Munduruku, vem contribuindo para abrir um caminho novo para o conhecimento de seus universos artísticos, culturais e políticos. E um fato que deve ser destacado é que os escritores indígenas estiveram reunidos no Rio de Janeiro, em 2004. para realizar o Primeiro Encontro Nacional de Escritores Indígenas.
Tais conhecimentos em forma de narrativas, chamadas pelo Ocidente de “mitos”, foram inicialmente apropriados por autores ocidentais que não levaram em conta a autoria, as autorias indígenas dessas histórias. Não se preocuparam, portanto, com os seus verdadeiros donos e não repartiram com eles, com essas comunidades, os dividendos provenientes da sua comercialização no mercado editorial nacional e mundial, internacional. Esse boom editorial vem a romper com essa situação, restituindo aos autores as suas respectivas autorias.
Amazônia Latitude: Nessa sequência, o senhor cita professores indígenas Pataxó, menciona Baniwa, e a gente vê o papel da escrita indígena não apenas como preservação, mas como instrumento político, como uma forma mesmo de autoafirmação diante da sociedade tão envolvente que a gente tem nos dias atuais. O senhor menciona essa educação indígena diferenciada como descolonizadora e autônoma. O senhor menciona essa educação indígena diferenciada como descolonizadora, autônoma. Existe hoje no Brasil uma educação indígena que seja genuinamente indígena ou ainda estamos presos em modelos que reproduzem, mesmo sem querer, a lógica colonial?
Renan Freitas: Eu acho que, em termos do que nós podemos chamar de uma educação indígena profundamente descolonizadora, ela está ainda a caminho. Já existem experiências muito próximas disso. Mas, no Brasil, a estrutura para a comunidade propriamente indígena ainda nos mantém presos a modelos que reproduzem, num certo sentido, essa lógica colonial.
Mas eu acho que estamos a caminho de uma educação, digamos assim, autenticamente indígena, com professores indígenas, com conteúdo indígena, autônomos.E isso aí é, digamos assim, uma utopia não somente para eles, para os indígenas, mas para a própria sociedade brasileira, que com isso ganharia muito em termos de um enriquecimento cultural da Amazônia. Depois dessa educação indígena em pleno vigor, há uma mudança fundamental da visão dessas sociedades.
Amazônia Latitude: Professor, o senhor menciona também o exemplo da medicina, da gastronomia e do próprio reconhecimento cultural desses povos que pensam essas relações inseparadas. O senhor menciona isso como uma forma também de utopia. No artigo, professor, o senhor menciona o exemplo da Colômbia, que já reconhece pelo menos duas medicinas na sua estrutura hospitalar, a medicina ocidental e por outro lado a medicina indígena, dos xamãs e pajés que coexistem fisicamente nos mesmos hospitais.
Professor, o Brasil parece que está um pouco longe disso. O que impede esse reconhecimento e o que seria necessário para que a medicina indígena deixasse de ser tratada como curandeirismo e passasse a ser reconhecida como o que verdadeiramente é, um sistema de conhecimento, mas que foi construído ao longo dos milênios. A gente pode ter o exemplo do próprio Carlos Walter e outros autores que defendem todo esse saber cultural milenar dos povos indígenas. O que o senhor acha que precisa ser feito para que o Brasil chegue nesse nível, nesse patamar de reconhecimento?
Renan Freitas: Na verdade, há algumas experiências. Eu estava tentando lembrar de uma autora, a Danielle Kambeba, que é uma indígena médica, formada em medicina mesmo, convencional, mas que tenta fazer existir essa alternativa. Ela, como uma espécie de elo de passagem ou de comunicação entre as duas medicinas, a medicina ocidental e a medicina xamânica. E ela pretende ser a primeira mulher xamã, ou seja, a primeira mulher pajé, para exatamente exercer esse papel.
Portanto, essa é a experiência que eu me lembro que faz com que no Brasil já comece a ser encaminhado esse tipo de situação em que as duas medicinas coexistem.
Amazônia Latitude: Nessa mesma direção, tem uma passagem no artigo. Na página 85, o senhor menciona o Sidney Pazuello num artigo em que ele menciona: “o futuro dos indígenas está intimamente ligado àquilo que seremos”. Eu queria pedir, por gentileza, que o senhor lesse, a partir dessa nota do Sidney.
Renan Freitas: “O futuro dos índios está intimamente ligado àquilo que seremos. Observo que a condição de índio isolado não se restringe ao seu isolamento geográfico. Há os que resistem fortemente ao contato e à penetração dos brancos, mas há os que recebem de braços abertos que são, na verdade, uma minoria. E adverte, como aponta o título do seu artigo, que o futuro desses índios está ligado ao que seremos, indicando em relação a eles que não temos melhorado em nada, o que implica reconhecer que nenhum mais vai poder viver como índio, pois as coisas estão visivelmente mudando para pior. Apesar de tudo, ele deseja sorte e vida longa para todos eles”.
Amazônia Latitude: Professor, se o futuro dos indígenas está intimamente ligado àquilo que seremos, o que será então dos povos indígenas?
Renan Freitas: O que nós vemos concretamente é que houve um relativo avanço em relação a isso, mesmo que seja pequeno ainda, diante do tamanho do problema. Mas eu acho que há, digamos assim, avanços importantes do ponto de vista de reconhecimento.
Por exemplo, uma liderança como Daniel Munduruku, que se faz presente, que tem uma voz ativa e ouvida pela sociedade brasileira, eu acho que aí podemos imaginar que já existe uma mudança desse quadro, no sentido melhor da coisa.
Amazônia Latitude: Professor, o senhor poderia ler na página 87 o parágrafo que começa “a utopia da difusão de seus mitos” … até o final, por favor?
Renan Freitas: Bem, nos referindo às várias utopias, eu chego a escrever que “a utopia da difusão de seus mitos nos propiciará a representação simbólica da origem do universo, dos astros, do homem e da mulher, da distribuição dos povos pelas margens dos rios empreendidos pela Cobra Grande, pela Boiúna, dos fenômenos meteorológicos, dos mapas celestes e das observações astronômicas, muitas vezes mais poéticas e imaginativas do que as do ocidente”.
Ou seja, o mapa celeste indígena é mais poético do que o ocidental.
“[…] dos mitos de origem da mandioca, do guaraná, do açaí e de tantas outras formas de manifestação da natureza vegetal, do masculino sol e da feminina e noturna lua, o mito do roubo do fogo e sua infindável lista de mitos.
A utopia da demarcação das terras indígenas prossegue até o presente como a sua principal luta, que já enfrentou vários obstáculos ao seu estabelecimento, sendo o mais recente o da criação do marco temporal, objeto de múltiplas e controvertidas interpretações. As forças sociais e políticas envolvidas nessa disputa têm grande poder frente à fragilidade dos instrumentos da luta disponíveis aos povos indígenas, que, na verdade, já perderam parte substancial de seus territórios, implicando muitas vezes em seu próprio silenciamento e mesmo desaparecimento”.
Amazônia Latitude: Professor, para encerrar, o senhor faz uma alusão muito poderosa ao Eduardo Viveiros de Castro, que os bárbaros que agora ameaçam destruir o mundo somos nós mesmos e que os povos indígenas reaparecem como alternativa à destruição, mostrando que existem outras formas de viver, outros mundos capazes de coexistir. Como o senhor lê esse momento em que as utopias indígenas deixam de ser utopias dos povos indígenas e se tornam, em suas palavras, utopias de todos nós?
Renan Freitas: Bem, nós procuramos apontar, nesses vários momentos, que todas essas utopias indígenas estão vivas e cada vez mais legítimas. Vejamos, por exemplo, a luta pela preservação não só da floresta em pé, mas de todos os elementos que a constituem, como a preservação e ampliação de seus recursos naturais, de seus recursos humanos, como n são os povos indígenas em suas terras demarcadas, os chamados povos isolados, resguardando a sua situação de defesa contra os vários assédios da sociedade envolvente. Portanto, [são] as comunidades não indígenas preservadas em suas condições de vida, como quilombolas, os trabalhadores rurais e demais grupos vivendo no interior da região.
Amazônia Latitude: Nós agradecemos por essa conversa, essa troca e esse aprendizado de poder ouvi-lo. É sempre uma gratidão por toda a contribuição, por tudo que o senhor tem feito a gente pensar sobre esse panorama da Amazônia.
Renan Freitas: Eu também agradeço e peço aos leitores que recorram ao artigo para coisas que a gente não conseguiu, nessa nossa conversa, demarcar de um modo mais claro. Agradeço também o convite e espero que a gente tenha esclarecido um pouco mais dessa questão tão controvertida.
Esta conversa nos deixa com a imagem potente dessa teia: o conhecimento dos avós deixado para os netos de forma oral, como uma teia que une o passado e o futuro. Cada vez que um povo desaparece, cada vez que uma língua se apaga, cada vez que uma terra é grilada, um pedaço dessa teia se rompe. E não é só o indígena que perde, somos todos nós.
As utopias indígenas não são nostalgias do passado, são instruções para o futuro. E o professor Renan Freitas Pinto nos lembrou aqui hoje que ainda há tempo de aprendê-las, se tivermos a humildade de escutar.
Para ler o artigo completo do professor Renan Freitas Pinto, “As Utopias Indígenas”, adquira o livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial.
Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
