Quando a vida deixa de caber: o corpo como fronteira de resistência ao esgotamento do mundo-mercadoria

A floresta queima e o peito aperta. O rio seca e a garganta fecha. O futuro desaparece e a gente não consegue respirar. Mas isso não é o fim, é o limite. E todo limite é também um ponto de ruptura

Diante do esgotamento do mundo-mercadoria, o corpo e a presença territorial erguem-se como a última e inegociável fronteira de resistência. Foto: Alice Palmeira/Amazônia Latitude.
Diante do esgotamento do mundo-mercadoria, o corpo e a presença territorial erguem-se como a última e inegociável fronteira de resistência. Foto: Alice Palmeira/Amazônia Latitude.
Diante do esgotamento do mundo-mercadoria, o corpo e a presença territorial erguem-se como a última e inegociável fronteira de resistência. Foto: Alice Palmeira/Amazônia Latitude.

Diante do esgotamento do mundo-mercadoria, o corpo e a presença territorial erguem-se como a última e inegociável fronteira
de resistência. Foto: Alice Palmeira/Amazônia Latitude.

Os que vivem no Cosmo há milênios
são perseguidos por mãos de ganância,
olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim. 

Quem são vocês,
incendiários desde sempre,
ferozes construtores de ruínas? 

Os que queimam, impunes, a morada ancestral,
projetam no céu mapas sombrios:
manchas da floresta calcinada,
cicatrizes de rios que não renascem.

Qual Brasil se esconde
atrás da humanidade amazônica?

Poema ‘O fim que se aproxima’, Milton Hatoum

Há um cansaço no ar.
Não é só o seu. Nem o meu.
Não é só psicológico. Nem só econômico.
É um cansaço de mundo.

Ele está no corpo que acorda já cansado. No rio que baixa antes do tempo. Na floresta que queima mais do que chove. Na cabeça que não consegue mais imaginar nada diferente. Vivemos dentro de uma máquina que não para e que, por isso mesmo, já não sabe mais para onde vai.

Chamaram isso de crise. Mas crise é intervalo, desvio, algo que se resolve ou se recompõe. Isso aqui não volta. Isso aqui é outra coisa. É mais parecido com um processo de exaustão contínua, um sistema que só se mantém ao custo de corroer tudo aquilo de que depende.

O que se impõe agora é um esgotamento. Esgotam-se os rios, os corpos, as formas de vida, mas também a própria capacidade de imaginar saídas. O que chamamos de policrise (climática, econômica, psíquica) talvez seja apenas o nome técnico de um fenôm  eno mais profundo: a falência das condições que tornavam a vida habitável.

O processo tem algo de novo, mas algo também profundamente antigo. O mecanismo é conhecido. O que mudou foi sua escala.

Disseram que esse sistema era inevitável.
Disseram que era natural.
Disseram que era o fim da história.
E, de tanto repetir, virou.
Não como verdade, mas como atmosfera.
Um ar difícil de perceber, impossível de evitar: não há alternativa.

Você sente isso quando pensa no futuro e não vê nada.
Ou pior: vê apenas versões do presente.
O colapso parece plausível.
A mudança, não.

Esse é o triunfo do sistema: não vencer, mas impedir que se imagine outra coisa. Chamamos esse regime de capitalismo. Mas essa palavra já não dá conta. O que se consolidou é uma atmosfera mais densa e totalizante, quase imperceptível, que organiza não apenas a economia, mas o modo como percebemos o real. Um sistema que não precisa mais se justificar porque se apresenta como natureza.

É isso que Mark Fisher chamou de realismo capitalista: não uma ideologia, mas um limite do imaginável. Um cerco invisível. A sensação difusa de que não há alternativa e, mais do que isso, de que nunca houve. Trata-se de um regime de realidade.

Um regime que colonizou o possível. O efeito é devastador: torna-se mais fácil conceber o colapso do planeta do que a transformação do sistema que o produz. Ou como bem sentenciou Fisher: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Esse regime não se expande apenas acumulando riqueza. Ele avança apropriando-se do que antes não era mercadoria. A engrenagem é simples e total. Tudo o que existe precisa virar alguma coisa vendável. Terra vira ativo, tempo vira produtividade, atenção vira dado, vida vira índice.

A Amazônia é o lugar onde isso se mostra sem filtro. A floresta, que para seus povos é corpo, memória e continuidade, é recodificada como ativo e empurrada para dentro de uma linguagem que não é a sua. Não apenas madeira ou minério, isso já era conhecido, mas carbono, crédito, derivativo, token, NFT, compensação. A própria possibilidade de vida passa a ser convertida em unidade de valor.

Vende-se a promessa de não destruir, compra-se o direito de continuar destruindo. Em algum lugar, sempre em algum outro lugar, o mundo vira uma contabilidade de danos.

Não se trata mais apenas de destruir para lucrar, mas de lucrar com a promessa de não destruir. A floresta em pé torna-se garantia financeira. A preservação vira título negociável. Vende-se, em mercados distantes, a ausência de devastação, enquanto a devastação real segue deslocada, invisibilizada, terceirizada.

Nesse rearranjo, corporações assumem funções que já foram do Estado. Planejam territórios, reconfiguram rios, redesenham mapas. Operam como poderes paraestatais, guiados não por projetos de bem estar coletivo, mas por fluxos logísticos.

A linguagem do mercado faz esse truque parecer razoável. Mas no chão, no barro, no rio, nas comunidades, o que se vê não é só a degradação ambiental, mas também a desagregação. Comunidades atravessadas por violência, economias locais desfeitas, modos de existência tornados inviáveis.

A Amazônia não é o “pulmão do mundo”. Essa metáfora já serve ao capital. Ela é o lugar onde o sistema mostra seu limite biológico. E começa a encontrar resistência.

Porque o movimento não para no território. Ele avança sobre o corpo.

O sistema não quer só a terra. Ele quer o dentro, quer a sua atenção, seu desejo, seu tempo desperto. Ele quer o que você sente, o que você sonha. E consegue. Você acorda e já está conectado. Rola, clica, responde, consome sem pausa. Não há tempo para elaborar, só para reagir. Então vem o cansaço.

E quando você quebra, porque você vai quebrar, eles dizem: é problema seu. Ansiedade, depressão, exaustão, tratadas como falha química. Nunca como consequência política. Tome algo, durma melhor, produza mais. Isso tem nome: privatização do sofrimento.

Se antes o capital precisava disciplinar o corpo do trabalhador, hoje ele precisa habitar o sujeito. Modular seus afetos, capturar sua atenção, orientar seus desejos. A exploração torna-se íntima.

É por isso que o sofrimento psíquico se espalha com tanta consistência, já não é a exceção, mas a regra.

Daí a necessidade de entender o adoecimento não como falha individual, mas como sintoma lógico de um mundo que exige desempenho constante enquanto retira qualquer horizonte de sentido. Sofre-se muito, mas sempre em silêncio, como se a dor fosse privada, incomunicável, quase vergonhosa.

Essa é uma das operações mais eficientes do capitalismo: sequestrar o sofrimento e devolvê-lo como culpa privada. Isolar o que é estrutural, silenciar o que poderia virar conflito e neutralizar sua potência política.

Enquanto isso, o tempo é triturado em estímulos curtos, sucessivos, inconclusos. Notificações, telas, uma sucessão de pequenos choques que impedem qualquer elaboração mais longa. Vive-se em fragmentos, pensa-se em interrupções, sente-se por espasmos, vive-se em estado de excitação contínua e baixa intensidade.

Uma espécie de cansaço sem descanso. Uma vida ocupada demais para se compreender.

E então vem a sensação difusa e persistente de que algo está errado, mas não se sabe exatamente o quê, nem por onde começar.

Essa é a forma contemporânea da captura: não impedir o pensamento, mas fragmentá-lo até que ele não consiga se sustentar.

Não por acaso, a cultura reflete esse bloqueio. Sem futuro, o presente se repete. O novo rareia e a cultura gira em falso. O que se produz é repetição, remakes, reedições, revivalismos. Recicla formas, revive estilos, reorganiza restos.

O resultado é um tempo travado. Um presente contínuo que se alimenta do passado porque perdeu a capacidade de produzir diferença. Não por falta de talento, mas por falta de horizonte.

O novo exige tempo, risco, ruptura. E tudo isso se torna cada vez mais raro em um sistema que precisa garantir previsibilidade.

Quando o futuro desaparece como horizonte de transformação, ele reaparece como objeto de cálculo.

Multiplicam-se mercados que não produzem nada, apenas especulam sobre o que virá. Apostas sobre eleições, guerras, catástrofes. O amanhã convertido em probabilidade negociável. Já não se disputa o futuro, aposta-se nele.

Essa mutação corrói qualquer ideia de ação coletiva. Se tudo é risco a ser gerenciado, resta pouco espaço para imaginar rupturas. O mundo passa a ser administrado como uma sequência de cenários possíveis, não como algo passível de reinvenção. Resta apenas adaptar, sobreviver.

Não é à toa que a sensação dominante seja essa: tudo está errado e nada pode ser feito. Essa impotência não é falha. É produto.

E enquanto tudo isso acontece, nos dizem que não há alternativa, que o mundo é assim mesmo, que sempre foi, que sempre será.

Mentira.

Isso é o que sustenta a máquina: a incapacidade de imaginar o novo. O futuro foi cancelado. Não por acidente, mas por projeto.

A cultura repete.
A música recicla.
O cinema revisita.
Tudo já foi.
Tudo já aconteceu.
Tudo já está à venda.

Mas há algo que não foi totalmente capturado.

O corpo.

O corpo que adoece e recusa.
O corpo que sofre e denuncia.
O corpo que não se encaixa e por isso revela a violência da forma.

Há algo que não se deixa capturar completamente. E é aí que o sistema começa a rachar.

As fissuras aparecem onde o capital encontra algo que não consegue traduzir completamente em valor.

Na Amazônia, isso se manifesta nas cosmologias indígenas que não separam terra e corpo, humano e natureza, vida e território. Aqui, a natureza não é exterior ao humano. Não é recurso, não é objeto. É relação, é continuidade.

Uma diferença que além de cultural, é ontológica. Ela impede que a floresta seja plenamente capturada como mercadoria porque dissolve a própria separação que torna essa captura possível.

Porque, se não há separação, não há objeto. E, sem objeto, não há mercadoria. É simples assim. E, por isso mesmo, é insuportável para o sistema.

Quando uma liderança diz que não possui a terra, mas é a terra, não está fazendo poesia. Trata-se de uma recusa radical à gramática que organiza o mundo moderno. Uma recusa que, por isso mesmo, é também a forma mais concreta de resistência.

Algo semelhante acontece quando olhamos para a própria Amazônia como este chão onde corporalidade e territorialidade se cruzam. A floresta também é habitat de corpos que escapam às gavetas da norma colonial: vivências trans, dissidentes, ribeirinhas e periféricas que se recusam a caber no binarismo rígido importado pelo colonizador. 

Corpos que não se deixam domesticar nem pela lógica do gênero único, nem pela lógica do território-mercadoria.

Esses corpos expõem, pela própria existência, que aquilo que parecia natural (masculino, feminino, normal, desviante) é, na verdade, produto de regimes históricos de poder e domesticação.

O que frequentemente é tratado como desvio pode ser lido como fricção: um atrito entre formas de vida que emergem e estruturas que já não conseguem contê-las.

Por isso são patologizados, corrigidos, administrados. Mas também por isso são perigosos. Porque onde há inadequação, há fissura. E onde há fissura, há possibilidade.

Nesse sentido, o mal-estar não é apenas sofrimento, pode ser também sinal. Indício de que algo está fora de lugar, não no indivíduo, mas no mundo.

É o que filósofo Paul B. Preciado sugere ao falar em uma espécie de disforia em relação ao próprio sistema: não uma patologia a ser corrigida, mas uma inadequação que aponta para a necessidade de transformação.

Esses corpos indígenas, trans, dissidentes, não são exceção, são vanguarda, porque carregam uma recusa fundamental: a recusa de virar mercadoria.

E talvez seja isso que estamos sentindo. Esse mal-estar difuso. Esse cansaço que não passa. Essa sensação de inadequação. Pode não ser doença, pode ser lucidez. O mundo está errado e o corpo sabe.

A floresta queima e o peito aperta. O rio seca e a garganta fecha. O futuro desaparece e a gente não consegue respirar. Mas atenção: isso não é o fim. Isso é o limite. E todo limite é também um ponto de ruptura.

Então a questão já não é apenas compreender o esgotamento, mas localizar as forças que podem interrompê-lo. E elas não estão onde o sistema gostaria que estivessem.

Na Amazônia, elas aparecem quando corpos se colocam diante de máquinas. Quando comunidades interrompem fluxos logísticos com a própria presença. Quando a resistência deixa de ser discurso e se torna obstáculo material.

A mera abstração se dilui e dá lugar ao risco, conflito e enfrentamento direto.

E é nesse ponto que o sistema encontra seu limite mais concreto: quando aquilo que ele tenta transformar em coisa se levanta como corpo.

No plano subjetivo, a ruptura começa quando o sofrimento deixa de ser vivido como falha individual e passa a ser reconhecido como experiência compartilhada. Quando a dor encontra linguagem, e a linguagem encontra coletivo.

No plano cultural, implica romper com a repetição. Recuperar a capacidade de invenção, não como inovação mercadológica, mas como criação de formas de vida que escapem à lógica da destruição.

Nada disso é garantia de saída, mas é deslocamento. Porque o capitalismo já não se sustenta como promessa. Ele se sustenta como ausência de alternativa. Ele persiste, mas à custa de um desgaste contínuo da terra, dos corpos, do tempo. Romper isso, mesmo que minimamente, já é começar a sair.

O mais perigoso não é sua força, mas a nossa dificuldade em imaginar sua superação. Porque, no limite, o que está em disputa não é apenas um modelo econômico. É a própria possibilidade de futuro.

A pergunta não é apenas se outro mundo é possível, é se ainda conseguimos desejá-lo.

E essa possibilidade, cada vez mais, parece depender daqueles que, há muito tempo, aprenderam a viver no interior da catástrofe sem se confundir com ela.

Nas margens, onde o mundo foi sucessivamente destruído e recriado, ainda se ensaia algo como continuidade. Não a continuidade do sistema, mas da vida.

A resposta parece vir dos lugares onde o mundo já acabou várias vezes e, mesmo assim, continua sendo feito de novo. Ali, entre ruínas, há gente insistindo. Não em sobreviver apenas. Mas em viver de outro modo.

No fim, isso é o mais perigoso de tudo: não o colapso, mas a possibilidade de que, mesmo dentro dele, algo ainda esteja começando.

Referências

Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

 

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