LatitudeCast#26: Milton Hatoum: “O Brasil conhece pouco a Amazônia”
No dia de sua posse na ABL, recuperamos falas de 2016 em que o escritor reflete sobre leitura, desigualdade e a Amazônia que moldou sua obra

Milton Hatoum, escritor amazonense, toma posse na Academia Brasileira de Letras e reafirma a centralidade da Amazônia em sua obra.
Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Pense por um momento em uma folha de papel amarelada, guardada por 35 anos dentro de uma bolsa. Era a primeira redação de um menino de Manaus, e a professora que o alfabetizou esperou décadas para devolvê-la ao escritor que ele se tornaria.
Essa história, contada pelo próprio Milton Hatoum, diz muito sobre quem ele é: um homem que acredita que a literatura nasce da vida, da memória e do encontro com o outro.
As falas reunidas neste texto foram registradas em uma palestra realizada na Universidade do Estado do Amazonas, em 2016, e são retomadas agora pela Amazônia Latitude em um momento simbólico: sua posse na Academia Brasileira de Letras.
Eleito com 33 dos 34 votos possíveis para a cadeira 6 da instituição, Hatoum toma posse nesta sexta-feira, 24 de abril, tornando-se o primeiro escritor amazonense entre os imortais da ABL, precedido, na tradição amazônica da instituição, pelos paraenses Inglês de Sousa e José Veríssimo.
Seus livros ultrapassam 500 mil exemplares vendidos e foram publicados em 17 países. Mas, antes dos prêmios, das traduções e das adaptações para a televisão, havia um menino em Manaus.
Nos anos 1960, ele leu Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em uma escola pública que nunca esqueceu, espaço onde começou a se formar como leitor e como escritor.
Ao longo desta conversa, Hatoum fala sobre a formação do leitor, sobre a Manaus que conheceu, e que a especulação imobiliária desfigurou, sobre os anos da ditadura e sobre um de seus poemas censurado quando tinha apenas 16 anos.
Mais do que revisitar sua trajetória, ele ajuda a compreender por que acredita que o acesso ao conhecimento é também uma forma de autonomia, e de resistência.
É essa voz, literária, ética e, sobretudo, amazônica, que se apresenta a seguir.
Ouça:
A formação do leitor
Eu queria começar a falar sobre a importância da leitura, sobre a formação do leitor. Porque não há literatura sem o leitor. E não há boa literatura, literatura de qualidade, sem um leitor de qualidade.
Uma coisa é esse público enorme de pessoas que só leem best-sellers. Por exemplo, 50 tons de cinza. Esses não são os meus leitores. Podem ser, daqui a algum tempo. Muito menos são leitores de O Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Eu tive muita sorte porque eu estudei numa escola pública de qualidade aqui em Manaus. Eu tive sorte porque eu fui alfabetizado por uma senhora que completou 100 anos há pouco tempo, a Dona Maria Luísa de Freitas Pinto, tia de um ilustre professor, intelectual do Amazonas, professor Renato Freitas Pinto e da Leyla Leong, que também é uma jornalista importante. E nesse encontro com a professora Maria Luísa Freitas Pinto, eu lembro que eu lancei o meu primeiro romance em 89 e eu vi uma senhora na fila que se aproximou e eu demorei um pouco a reconhecer essa minha professora, a mulher que me alfabetizou. Aí ela me abraçou. Eu fiquei emocionado com a presença dela. Ela tirou da bolsa uma folha de papel amarelado e disse: Essa é a primeira redação que você fez. Eu guardei durante 35 anos, porque eu esperava esse momento para dar para você essa folha de papel.
Então, o que foi a minha primeira formação de leitor, por exemplo? De menino, amazonense nos anos 60. Eu li Vidas Secas, do Graciliano Ramos. Alguém leu? Então há esperança. Nem tudo está perdido. Eu li Infância, do Graciliano Ramos. Eu li um volume do Continente, do Érico Veríssimo. Li uma edição que ainda existe, Os Contos, do Machado de Assis. Comecei pelos contos, infelizmente, porque se tivesse começado pelos romances, seria complicado aos 13, 14 anos. Li trechos dos Sertões, que foi um castigo do professor. Jogaram uma bombinha lá na escada do Colégio Estadual e a punição foi ler e fichar trechos do Sertões, do Euclides da Cunha. Foi terrível, porque é um texto preciosista, um texto com um vocabulário muito difícil, mas comecei a consultar dicionários e enriquecer um pouco o meu repertório, o repertório da Língua Portuguesa. O fato é que foi uma leitura muito áspera, porque o Machado é muito mais, vamos dizer, fluente, menos difícil do ponto de vista da linguagem. Mas foi com esse repertório, e mais as aulas particulares de uma professora de francês, foi com esse repertório que eu saí de Manaus, muito jovem, para morar em Brasília.
Passei dois anos em Brasília, num colégio também público, foi criação do colégio de aplicação, foi criado pelo Darcy Ribeiro e pelo Anísio Teixeira. E depois, com a repressão violenta da UNB, porque o colégio pertencia à UNB e ficava na entrada do campus, eu fui a São Paulo. Fui estudar arquitetura, mas eu, por alguma razão, que depois a gente descobre que é uma paixão, que é um interesse muito forte, que é o desejo que nos move, eu comecei a me dedicar à literatura. O fato é que a imaginação do leitor é uma das coisas mais preciosas e fascinantes da literatura. Porque sem essa imaginação do leitor, o romance não existe, o conto não existe, a poesia não existe. A imaginação do leitor fala diretamente às várias possibilidades de interpretação. Por exemplo, quem leu Dois Irmãos pode imaginar que o pai do narrador é o Omar. Os outros podem imaginar que não é o Omar, é o Yakub. E já ouvi leitor afirmar, categoricamente, que o pai é o avô dele. Leu o resumo”.
Ao visitar a infância em Manaus, Milton Hatoum mostra como a experiência na escola pública e o convívio entre diferentes realidades sociais foram decisivos para sua escrita. Segundo ele, a experiência de vida é determinante para o escritor.
Um pouco da história da pergunta desse meu filho com nove anos, quando nós entrávamos numa farmácia, tinha um homem caído, negro, um mendigo, e ele me perguntou: – Por que todos os negros são pobres? – Nove anos. Aí eu, que já estava com enxaqueca, aí explodiu, minha cabeça começou a… eu só pensava numa dipirona, num analgésico. Como que eu ia responder para essa criança, explicar a escravidão Aí eu falei, falei dos escravos, da escravidão. Aí eu disse: – O problema é que com o fim da escravidão, a maioria dos negros, dos brasileiros de origem africana, não puderam estudar.
Aí eu falei para ele: – Olha, seu pai não seria escritor, talvez, ou não teria escrito Dois Irmãos se ele não tivesse estudado numa escola em que filhos de lavadeiras, que na época havia muitas, estudavam com filhos de desembargadores, de comerciantes, que era o meu caso, de professores. E isso, essa convivência de ter ido ao Igarapé de Manaus, uma palafita, ou esses meus amigos terem frequentado a minha casa, me lembro com nitidez do Paulo de Tarso, um jovem, um menino muito pobre e brilhante, o mais brilhante da minha sala, sem essa convivência eu não poderia, dificilmente eu poderia, vamos dizer, imaginar, construir a personagem do Nael.
Então, a experiência de vida, de leitura, é fundamental para quem escreve, é fundamental. E é fundamental também para o leitor. Se vocês já leram Vidas Secas, vocês têm alguma experiência sobre a família do Fabiano. Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos. Sabem que vivem, vamos dizer, nessa busca, na busca de uma saída para aquela miséria, para aquela fome, sertaneja. Sabem que no fim do livro, o sonho dele, de Fabiano, de ir para a cidade grande, é educar os seus filhos. Porque o Graciliano, ele percebeu, ele foi genial, ele percebeu que a questão toda era essa, era educação. Quer dizer, a extrema desigualdade, ela segrega, ela usurpa o futuro desses jovens filhos de desvalidos.
E o Graciliano escreveu um romance que hoje é um clássico, faz tempo que é um clássico, já vendeu milhões e milhões de exemplares, mas ele problematizou a fome e a fome de saber. A carência não é só a carência material, mas é também a carência espiritual, do saber. Ele não sabe sequer lidar com aquele soldado, o soldado amarelo, vocês lembram? Aquela cena bruta. O Brasil ainda é isso”.
Cidade, memória e transformação
Mas essa experiência não se limita à escola. Ela se estende a Manaus, uma cidade que foi profundamente transformada ao longo das décadas.
Então, o que eu quis fazer, a partir da minha experiência de criança em Manaus, depois de jovem aqui, e depois de ter lido, não digo milhares, mas alguns livros fundamentais da nossa literatura, da literatura estrangeira, depois de ter escrito o primeiro romance, o Relato de um Certo Oriente, que eu escrevi aqui em Manaus, terminei aqui em Manaus, publiquei quando ainda morava aqui, em 89.
Depois eu passei anos tentando, refletindo sobre um romance que saísse um pouco do âmbito familiar e falasse um pouco da cidade. Como que essa cidade, que foi linda. Quem tem mais de 50 anos sabe, sobretudo os sessentões como eu, sabe que Manaus foi uma joia de cidade, com essas colinas suaves, casarios baixos, igarapés. Não é uma nostalgia, não estou falando em tom saudosista. É que, quando você preserva a memória urbana, você está oferecendo aos futuros moradores a história da sua cidade. Então, quando você destrói, como é que um jovem hoje vai reconhecer a cidade do Dois Irmãos ou do Cinzas do Norte? Só reconhece pela literatura ou pela fotografia. Então, eu tentei, vamos dizer, expandir mais essa trama dos Dois Irmãos em relação ao meu primeiro romance, que é um romance muito intimista e mais complicado para ler, porque são vários narradores, várias vozes que se alteram”.
Desigualdade como estrutura
Ao falar de desigualdades, Hatoum abandona qualquer neutralidade e trata o tema como uma questão estrutural do país.
A desigualdade, para mim, não é uma normalidade. É isso que eu quero dizer. A extrema desigualdade não é uma coisa normal. Não existe. Sabe, quando eu conheci, foi uma espécie de grande figura humana da minha vida, o doutor Heitor Dourado, que o reitor certamente conhece, um dos homens mais incríveis, um dos médicos. Paraense que adotou o Amazonas, foi adotado pelo Amazonas, tem um instituto de medicina com o nome dele.
O Dourado me disse uma vez: – Milton, eu não consigo cobrar uma consulta. – O cara que descobriu em mim a mononucleose quando eu tinha 12 anos de idade, com um toque aqui, não foi preciso nem fazer exames. O cara que dedicou a vida toda à medicina tropical e fez acordos com Deus e o diabo para construir o Hospital de Medicina Tropical. Quando você pensa nessas figuras, para mim são exemplos de um amazonense, de um paraense, de um amazônida que fez um bem enorme pelo nosso povo. No fundo é o seguinte, ou você é ao mesmo tempo compassivo e crítico, ou você está em outra tribo.
Ou você pensa no outro, e é o que faz a literatura o tempo todo, pensar no outro. A literatura tem alguma coisa da antropologia, porque ela pensa no outro, ela constrói o outro. E a antropologia tenta traduzir, com todas as suas limitações, seus erros, tenta traduzir a cultura do outro. Então é você pensar, é você sair de si mesmo e entender o outro. Como é que eu vou pensar os Yanomami, que estão tão longe da minha cultura? Tem uma maneira de conhecer os Yanomami, é ler o livro do xamã Yanomami Davi Kopenawa, A Queda do Céu, um livraço maravilhoso.
Mas tem outra maneira também de falar dos Yanomami, da tragédia dos Yanomami. É dizer que esse cara chamado Romero Jucá, esse senador, quando foi presidente da FUNAI, no final dos anos 80, permitiu a entrada de garimpeiros na área Yanomami, o que acarretou mais de mil mortes Yanomami. Inclusive, crianças que foram trucidadas. Isso é Romero Jucá. E só a BBC do Brasil deu essa informação”.
Conhecimento como autonomia
Para o escritor manauara, o acesso ao conhecimento é também uma forma de autonomia e de resistência.
Porque o impasse do Brasil é o impasse dos filhos de Fabiano, de Vidas Secas. Não tenha a menor dúvida, porque quando você tem acesso ao conhecimento, à leitura, você não é manipulado, você não é enganado, nem por político, nem por pastor, nem por qualquer religioso.
Você não é enganado. O Machado tem uma frase importantíssima. Em 1890 ele disse, ele que era neto de escravos, ele disse: – Eu aceito tudo na vida, menos ser empulhado, menos ser enganado -. Então, uma pessoa que tem acesso ao conhecimento, ela não é manipulada facilmente, ela pensa antes, o que que há por trás daquilo, por que que eu vou acreditar nessas promessas?”.
Ao longo dessas falas, Milton Hatoum não apenas revisita sua trajetória, mas reafirma um compromisso: o de pensar o Brasil, e a Amazônia, a partir da experiência, da memória e da escuta.
Sua chegada à Academia Brasileira de Letras inscreve, de forma mais visível, a literatura amazônica em um espaço historicamente marcado por outras centralidades do país.
Ao ocupar a cadeira 6, Hatoum se soma a uma tradição de escritores que narraram a complexidade da região, como Dalcídio Jurandir, Thiago de Mello, Leandro Tocantins e Márcio Souza, vozes que, por muito tempo, permaneceram à margem dos grandes circuitos de legitimação literária.
Em um país que ainda conhece pouco a Amazônia, sua presença na ABL amplia a possibilidade de que outras histórias, outros territórios e outras formas de ver o mundo também sejam escutados.
Mais do que uma conquista simbólica, trata-se de um deslocamento, ainda que parcial, no modo como o Brasil se lê e se reconhece.
Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Juliana Carvalho, Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Revisão, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho
