Ocupar a Cargill e retomar o Brasil: o levante indígena no Tapajós contra as rotas de sacrifício na Amazônia

Não se trata apenas de ocupar um porto, mas de garantir que os fluxos da vida continuem a correr livres, sem as amarras das 'engenharias do colapso'

Povos Indígenas cercam os silos da transnacional Cargill no Rio Tapajós. O levante denuncia a privatização de rios ancestrais e propõe o fim das 'rotas de sacrifício' na Amazônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Povos Indígenas cercam os silos da transnacional Cargill no Rio Tapajós. O levante denuncia a privatização de rios ancestrais e propõe o fim das 'rotas de sacrifício' na Amazônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Povos Indígenas cercam os silos da transnacional Cargill no Rio Tapajós. O levante denuncia a privatização de rios ancestrais e propõe o fim das 'rotas de sacrifício' na Amazônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Povos Indígenas cercam os silos da transnacional Cargill no Rio Tapajós. O levante denuncia a privatização de rios ancestrais
e propõe o fim das 'rotas de sacrifício' na Amazônia. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Há 30 dias, vários Povos Indígenas do médio e baixo curso do rio Tapajós ocupam o terminal portuário da empresa Cargill em Santarém, no Pará. Os povos exigem a imediata anulação do Decreto nº 12.600/2025, que inclui os rios Tapajós, Tocantins e Madeira no Programa Nacional de Desestatização (PND). Abre, assim, caminho para a privatização desses rios, transformando-os definitivamente em vias de exportação de commodities.

Além disso, os povos exigem a imediata anulação dos projetos, já aprovados, de dragagem do rio, somado ao respeito à Convenção 169, de modo que sejam feitas consultas livres, prévias e informadas a todos os impactados, e que sejam demarcados diversos territórios indígenas da região, que aguardam o reconhecimento formal há décadas.

Até agora, a resposta do Governo Federal foi apenas a suspensão do pregão eletrônico para as obras de dragagem do Tapajós, sem anulação do Decreto e sem uma escuta real dos indígenas que, com isso, continuam ocupando a zona portuária da multinacional norte-americana.

A luta dos Povos Indígenas do Tapajós tem sido noticiada e compreendida como circunscrita a uma questão local ou, no máximo, como uma questão amazônica sem grande repercussão no resto do país. A ausência na grande mídia e o tratamento dado até mesmo por parte da imprensa alternativa corroboram com uma ideia. É mais um episódio nos confins de uma nação que não merece muita atenção, nem análise e tampouco repercussão no mundo dos especialistas.

Esse texto quer provar o contrário e o alerta é direto: Estamos diante do evento político de caráter emancipatório mais importante dos últimos anos no Brasil. Para entender o significado dessa importância, convidamos o leitor a ter a paciência de um diálogo que terá quatro momentos.

No primeiro, queremos apresentar os processos de violação que desaguaram na mobilização indígena atual. Depois, vamos demonstrar que esses processos de violação não se restringem ao Tapajós e decorrem do projeto, materializado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC3), de abertura de rotas de sacrifício no coração da Amazônia para a expansão do mercado de commodities.

Em um terceiro momento, queremos demonstrar que o sacrifício dos Povos Indígenas, que agora resistem, é um projeto de Brasil que atravessa forças políticas à direita e à esquerda, o que é fundamental pensar em um ano eleitoral. Por fim, ouvindo as vozes e a agenda política desses povos, vamos defender a centralidade da ocupação da Cargill como construtora de outra agenda política ao país.

A pauta central da ocupação exige o fim do decreto de desestatização dos rios e o respeito à consulta prévia, livre e informada. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

A pauta central da ocupação exige o fim do decreto de desestatização dos rios e o respeito à consulta prévia, livre e informada. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

O cerco da soja aos territórios da vida no Vale do Tapajós

Para entender o porquê de 14 etnias indígenas se reunirem para dizer não à privatização de um rio, ocupando o porto de uma gigante mundial do agronegócio é necessário, primeiro, entender a destrutividade sistêmica do processo de expansão da soja nesta região da Amazônia.

Um bom início é saber que a empresa Cargill começou, em 1999, as obras de um terminal graneleiro em Santarém, por sobre um território sagrado dos Povos Indígenas, a praia de Vera Paz. Em 2003 o porto entrou em operação para escoar a soja vinda do Centro-Oeste brasileiro, via BR-163 (Cuiabá-Santarém) e funcionou a maior parte do tempo sem licença ambiental ou com o licenciamento vencido.

A área colhida de soja em 2002 na região do Baixo Amazonas1A região engloba os municípios de Alenquer, Almeirim, Belterra, Curuá, Faro, Juruti, Mojuí dos Campos, Monte Alegre, Óbidos, Oriximiná, Prainha, Santarém e Terra Santa., que integra Santarém e municípios de seu entorno, era de 350 hectares. Após a entrada em operação do porto, esses números explodiram, passaram para 16.985 hectares já em 2004. Dez anos após a instalação, em 2013, já eram 30.901 hectares de área colhida de soja, sendo que em 2024 esses números fecharam com impressionantes 120.900 hectares (IBGE, 2002, 2004, 2013, 2024)2INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Agrícola Municipal. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/pam/tabelas. Acesso em: 17/02/2026.. Desde a instalação do porto, a área destinada à soja na região cresceu 345 vezes. Estamos falando de um crescimento de 34.442,8%.

Logicamente, não é apenas a construção do porto da Cargill que justifica essa explosão.  Os incentivos do Estado brasileiro que serão mais bem debatidos na próxima seção deste texto, e os outros 27 portos instalados no Tapajós para transporte de soja, muitos deles sem licenciamento ambiental, também contribuirão enormemente para esses números.

Entretanto, algo precisa ficar claro diante desse assombro estatístico. Não se cresce um monocultivo com uso intensivo de agrotóxicos em uma região, em sua maioria, florestada e etnicamente diversa, sem a estruturação de um verdadeiro cerco aos territórios da vida.

Temos, há algum tempo, defendido que a dinâmica de expansão de frentes econômicas na Amazônia funciona por meio de verdadeiros consórcios da destruição, isso significa dizer que uma frente econômica, como a soja, quando entra na Amazônia, neste caso pelo oeste do Pará, não chega sozinha, uma vez que sua expansão produz a interiorização da frente do gado, que, por sua vez, interioriza outras frentes econômicas, como a madeira, a pesca predatória, o garimpo. Nesse círculo de violência e devastação, estrutura-se um verdadeiro cerco aos territórios da vida de Povos Indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses e outras comunidades tradicionais.

Povos Indígenas barram o avanço das hidrovias projetadas para o escoamento de commodities, denunciando o impacto sobre os fluxos vitais do rio. Foto: José Marcos Tapajós/Amazônia Latitude.

Povos Indígenas barram o avanço das hidrovias projetadas para o escoamento de commodities, denunciando o impacto sobre os fluxos vitais do rio. Foto: José Marcos Tapajós/Amazônia Latitude.

A pressão por sobre os territórios da vida no Vale do Tapajós se faz ver quando percebemos que duas das quatro unidades de conservação mais desmatadas do Brasil, segundo os dados do INPE, estão nas áreas de expansão da soja entre o rio Tapajós e a BR-163. São a Floresta Nacional do Jamanxim, que já perdeu 1.196,87 km² de floresta, o que representa 9.1% de seu território, e a APA do Tapajós, que teve 755,17 km² de desmatamento agregado até 2024, representando 5.79% de seu território total perdido (INPE, 2026)3INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). PRODES. Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite. São José dos Campos: INPE. Disponível em: terrabrasilis.dpi.inpe.br. Acesso em: 17/02/2026.. Podemos incluir, também, a terra indígena Munduruku e seus 101,26 km² de desmatamento acumulado, o que já representa mais de 2% do território integral da TI.

Se trouxermos para a análise os principais municípios onde a soja se instalou na região, como Mojuí dos Campos, Belterra e Santarém, temos a exata medida dessa expansão territorial como um cerco aos territórios da vida.  Mojuí dos Campos tinha 3.000 hectares voltados ao plantio de soja em 2005, passou aos 60.000 em 2024. Por lá o desmatamento em 2013 foi de 3,84 km² e passou para 91,04 km² em 2023.

Belterra, por sua vez, em 2004 possuía cerca de 1.400 hectares plantados de soja, em 2024 esse número chegou aos 30.000 hectares. Nesse município, em 2011, o desmatamento foi de 1,57Km² e passou, 10 anos depois, em 2021, para 16,36 km². Santarém seguiu o mesmo caminho, uma vez que possuía 200 hectares de soja plantada em 2002, que se transformaram em 30.000 hectares em 2024, o que também está associado com o aumento do desmatamento que chegou a 57,17 km² em 2024 (IBGE, 2024; INPE, 2026).

Uma outra dimensão desse cerco territorial é o envenenamento do território. Se usarmos a média de 12 litros de agrotóxicos por hectare de lavoura de soja, média bastante subdimensionada, mas usada em diversos trabalhos técnicos, temos que o consumo de agrotóxicos na região saiu de 4.200 litros de agrotóxico em 2002 para cerca de 1,5 milhões de litros em 2024.

Nesse cenário, os casos de contaminação por agrotóxicos na região do Planalto Santareno (Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos) aumentaram 545% nos últimos cinco anos. Eles saíram de 31 casos entre 2016 e 2020 para 200 registrados entre 2021 e 2025, segundo o Painel de Vigilância em Saúde das Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA), do Ministério da Saúde. (Repórter Brasil, 2025)4MACIEL, Isabelle. Intoxicações por agrotóxicos crescem 545% em área de soja e milho no Pará. Repórter Brasil, 08/12/2025..

Em sua tese de doutorado, Figueiredo (2022)5FIGUEIREDO, Annelyse Rosenthal. Nos corpos e nos territórios: impactos do agronegócio de soja e milho em Belterra-PA. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, na Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 2022., analisando o uso intensivo de agrotóxicos na região, identificou uma alta de 667% nas mortes por doenças do sistema nervoso em Belterra entre 2011 e 2020, bem como o aumento de internações por contaminações. No início de 2026, uma professora de uma escola municipal em Belterra, Heloise Rocha, que denunciou a contaminação de estudantes por agrotóxicos, foi transferida da escola que atuava, sem aviso prévio, fato amplamente divulgado e denunciado pela imprensa.

Os povos do tapajós estão, literalmente, no front de uma guerra química!

Rotas de sacrifício sangram a Amazônia

O que agora acontece no vale do Tapajós, no Pará, infelizmente não é um fato isolado. A privatização do rio Tapajós integra um projeto muito mais violento de transformar os portos do norte brasileiro nos principais centros de exportação de grãos do país.

O denominado Arco Norte prevê a utilização de cinco grandes rotas do Brasil setentrional para fazer fluir os grãos, os minérios, o petróleo, as carnes, a celulose…barateando os custos de exportação para a China, principal destino das commodities nacionais.

Três dessas rotas cortam a Amazônia, pelo rio Tapajós, pelo rio Tocantins e pelo rio Madeira. Não sem razão são os três rios incluídos no decreto de desestatização que motiva a revolta dos Povos Indígenas.

Mas esses sistemas técnicos pensados para a fluidez das commodities e facilitação as exportações, que temos chamado de “engenharias do colapso”, são apenas um dos processos decorrentes de uma escolha: a de transformar as exportações de commodities agrícolas e minerais como o caminho único de desenvolvimento. Assim, aprofunda uma forma de expansão capitalista, em que a produção de riqueza se dá pelo cercamento dos territórios da vida, pela substituição da diversidade territorial por uma forma de ocupação homogênea, com paisagens monoculturais produzidas à base de violência e muito veneno, à base de mortes no campo e do aumento dos índices de desmatamento.

A sobreposição entre as áreas de desmatamento e os índices de assassinatos no campo revela o custo humano das rotas de sacrifício abertas no coração da floresta. Fonte: Geografias do Bolsonarismo.

A sobreposição entre as áreas de desmatamento e os índices de assassinatos no campo revela o custo humano das rotas de sacrifício abertas no coração da floresta. Fonte: Geografias do Bolsonarismo.

As muitas Amazônias, como a dos indígenas que agora ocupam as instalações portuárias da Cargill, precisam ser interrompidas para o gado, a soja, o ferro e outras commodities passarem, garantindo o superávit primário do país.

Para manter o volume de exportações do país e a consequente concentração de riqueza nas gigantes do agro e da mineração, é necessário produzir um processo contínuo de expansão espacial do sacrifício. Ou seja, é preciso abrir caminhos territoriais por frentes econômicas, ancoradas em sistemas logísticos de infraestrutura (engenharias do colapso), produzindo um cerco aos territórios da vida.

Verdadeiras rotas de sacrifício são abertas no coração da Amazônia por engenharias do colapso, que conectam corredores rodoviários, ferroviários e hidroviários a portos de exportação. Elas fazem fluir valor, matéria e energia e interrompem os fluxos da vida amazônicos, impossibilitando a existência territorial de povos, comunidades e grupos sociais atravessados por essas rotas.

Transformam a reprodutividade biológica primária da floresta em monocultivos, o manejo agroflorestal em um envenenamento do território, a complementariedade entre ciclos vitais em um circuito econômico de capital, as temporalidades da natureza em ritmo acelerado da circulação de commodities. Enfim, todo o sistema de seres integrados de um rio é convertido em uma via para passagem de mercadorias.

Mas o sacrifício imposto por essas rotas não é apenas em nome dos lucros extraordinários das grandes corporações do agronegócio, da mineração e de outros negócios que mercantilizam a vida. No topo das torres de vidro da Faria Lima, o Brasil é um gráfico ascendente, uma abstração de dividendos reluzindo rentabilidade das ações de empresas do agronegócio. A classe média, por sua vez, para garantir a elevação de seu padrão de vida, deixa de colocar seu dinheiro na poupança e passa a investir em Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que representam mais de 30% do crédito total do agronegócio. Isso aumenta sua rentabilidade em um número limpo, que alimenta sonhos de consumo, mas não cheira a agrotóxico, nem ecoa o ranger de motosserras.

A repetição absurda de um único projeto de Brasil

Estamos em 2026, ano eleitoral, e não há em nenhuma força política institucionalizada no Brasil, um projeto de país que não seja a continuidade da geração de superávit primário por meio da exportação de commodities abrindo rotas de sacrifício, que, como navalhas, vão sangrando nossos biomas, especialmente o amazônico.

Vivemos, entre 2003 e 2015, um projeto de Brasil primário-exportador que surfou na elevação do preço das commodities, mas que tentou usar as divisas do superávit primário para o combate à fome e à desigualdade, via programas sociais. Além disso, ao passo que remunerava o agronegócio e a grande mineração, tentava edificar, com um recurso infinitamente menor que o drenado ao mercado de commodities, um conjunto de políticas públicas para o campo brasileiro, fomentando um outro sistema agroalimentar, com programas de aquisição e alimentos, assistência técnicas, cooperativas agrárias.

Tal tentativa de conciliação demonstrou sua impossibilidade real com o golpe de 2016. Ao menor sinal de diminuição de sua rentabilidade, o mercado de commodities não hesitou em orquestrar um golpe parlamentar.

Não adiantou muito Dilma Roussef, em sua defesa no senado, mostrar os gráficos da diminuição do preço das commodities para acalmar o mercado, o golpe foi consumado com o voto do então deputado Jair Bolsonaro em nome do torturador de Dilma na ditadura, Coronel Carlos Brilhante Ustra. A crueldade deste voto não pode ser pensada como ato isolado.

Com Temer, vimos a ofensiva do mercado de commodities atacar todas as legislações que ainda protegiam os territórios da vida no Brasil, transformando a violência e a devastação em regras e acumulação. Estava claro ali que a drenagem de recursos públicos ao mercado de commodities, operada pelos governos Lula e Dilma, fortaleceu negócios que nunca conviveram bem com a democracia.

A impressionante semelhança, em 2018, entre o mapa de votação de Jair Bolsonaro e os mapas de expansão da soja, do gado, do garimpo, da madeira, da mineração, dos negócios de milícias urbanas, escancarava que a crueldade dos discursos do novo presidente encontrava lastro territorial nos modos operandi de produção de riqueza generalizado no Brasil, seja nos garimpos da Amazônia ou nos mercados das milícias, nas favelas do Rio.

Correlação entre a expansão da fronteira da soja e a geografia política no Brasil. À esquerda, a mancha de ocupação do monocultivo em 2019; à direita, o mapa eleitoral que evidencia como a expansão das frentes econômicas no oeste do Pará encontra lastro em determinados projetos de poder.

Correlação entre a expansão da fronteira da soja e a geografia política no Brasil. À esquerda, a mancha de ocupação do monocultivo em 2019; à direita, o mapa eleitoral de 2018, que evidencia a expansão das frentes econômicas no oeste do Pará em determinados projetos de poder. Fonte: Geografias do Bolsonarismo.

 

Percebíamos ali que a expansão dessas frentes econômicas do agronegócio, da mineração, mas também das milícias urbanas não é apenas um fenômeno econômico, mas sociocultural. Por onde esses negócios se instalam também se generaliza modos de pensar, agir, comer, ouvir música e se divertir absolutamente refratários à diferença, que começaram a encontrar vocalização de sua racionalidade nas narrativas daquele que se transformaria em presidente da república.

Os quatro anos do governo Bolsonaro deram engrenagens novas e muito mais violentas a esse capitalismo que funciona contra a vida. Essa estrutura favoreceu a expansão da pata do boi, do garimpo ilegal e da exploração madeireira através da flexibilização de legislações ambientais, do ataque aos direitos territoriais e da generalização de uma razão miliciarizada de defesa da propriedade privada. A violência das frentes econômicas encontrou a violência política de um cortejo fúnebre que foi chamado de governo.

Um grande arco de alianças se montou em 2022 para derrotar o bolsonarismo e novamente Lula, representando um governo de coalizão ampla, conseguiu uma vitória eleitoral. Havia a oportunidade histórica de enfrentar o bolsonarismo não apenas nos tribunais, mas também em suas bases espaciais.

Entretanto, continuamos vendo seguidamente os maiores Planos Safra da história, remunerando o agronegócio como nunca nesse país. Continuamos vendo a retomada do Plano de Aceleração do Crescimento, no qual se encontra a Hidrovia do Tapajós, projetando infraestruturas do colapso em direção aos nossos biomas para garantir a fluidez dos mercados de commodities. Sem contar a insistência da exploração de petróleo na foz do Amazonas e o completo desmonte de qualquer sistema de políticas públicas que, nos longínquos primeiro e segundo governos Lula, costuravam outro sistema agroalimentar não baseado em monocultivo, morte e veneno.

A contínua insistência da esquerda institucionalizada brasileira nesse modelo de desenvolvimento que alarga rotas de sacrifício e tritura os mundos da vida na Amazônia e em outros biomas é enfrentado cotidianamente por lutas territoriais levadas a cabo pelos povos que estão no caminho dessas rotas, como agora acontece no Tapajós.

Infelizmente, o sistema de ideias que estrutura as agendas políticas à esquerda no Brasil, asfixia o horizonte político dessas lutas territoriais, restringindo seu alcance, relativizando sua centralidade, questionando sua capacidade de mudança, mistificando sua linguagem e espetacularizando seus símbolos.

Mas os Povos Indígenas do baixo e médio Tapajós, como representantes dessas lutas territoriais, insistem em mostrar o que nenhum partido político institucionalizado tem sido capaz: não há projeto de Brasil possível pensando em conciliação com os negócios que mercantilizam a vida; não há projeto de Brasil possível com a continuidade da expansão dessas frentes econômicas e com o colapso ambiental que elas provocam; não há projeto de Brasil possível por esse sistema agroalimentar pautado no monocultivo, no envenenamento e na violação ambiental; não há projeto de Brasil possível destruindo territórios diversos para implementar paisagens homogêneas.

O recado agora ecoado pelos povos que ocupam as instalações portuárias de uma das maiores multinacionais do agronegócio não apenas tensiona uma escolha que nos trouxe ao colapso. Oferece também uma agenda concreta a um ambiente político completamente incapaz de pensar nas soluções aos próprios problemas que criou. Talvez a promessa não cumprida feita por Guilherme Boulos aos povos do Tapajós ainda durante a COP30, de que as obras da hidrovia seriam feitas com consulta livre, prévia e informada, demonstre, ao mesmo tempo, o total esgotamento das forças da esquerda institucionalizada em frear os projetos de morte, até porque elas fazem parte dele, mas também demonstram a radicalidade da mudança exigida pelos Povos Indígenas.

Povos Indígenas no centro da reconstrução do Brasil

Gerações de povos do Tapajós em movimento para proteger Idixidi (o Rio), compreendido como um ancestral vivo que organiza o cosmos e garante a existência. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

Gerações de povos do Tapajós em movimento para proteger Idixidi (o Rio), compreendido como um ancestral vivo que organiza o cosmos e garante a existência. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

Os Munduruku, assim como diversos Povos Indígenas e de origem africana, compreendem que a humanidade não é um atributo restrito aos humanos. Por essa perspectiva, compartilhamos a vida com diversos seres que possuem capacidade de agência e influenciam na organização do cosmos.

São seres compartilhantes, como definiria Nego Bispo6SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023., em alusão a formas de organização social e política que não interrompem o fluxo da vida para produzir sua existência. Nelas, a existência ganha sentido na biointeração e na confluência entre as muitas forças que organizam a vida na terra.

O rio Tapajós, a partir dessa perspectiva, foi criado do suco de caroços de tucumã por um ancestral muito poderoso chamado Karosakaybu. Dentre as muitas interpretações dessa história, há aquela que indica que Karosakaybu teve seu filho levado por um bando de porcos queixadas, que eram Munduruku que haviam sido transformados em suínos, justamente por terem negado comida ao menino.

O ancestral criador ainda correu atrás de seu filho, mas os porcos continuaram fugindo. Ele fez emergir colinas para bloquear caminhos, mas sem sucesso, até que então, de sementes de tucumã, criou o Rio Tapajós para evitar a fuga. O rio ganha personalidade na língua materna ao ser chamado de Idixidi e indica fazer parte do equilíbrio de forças que compõe o cosmo dos Munduruku.

Essa e muitas outras histórias compõem e diversificam os significados e a importância cósmica do rio Tapajós para os Povos Indígenas. Esse modo de compreensão do rio como um sujeito, como um ancestral, como um parente, como um elemento fundamental e fundacional na organização das forças cósmicas que garantem a vida, pode soar uma abstração utópica e apolítica para quem pensa em controlar e interpretar o mundo apenas pela cognição humana.

Mas é importante dizer, primeiro, que essas perspectivas de mundo foram capazes de fazer com que o consórcio entre as espécies produzisse força e diversidade a sistemas produtivos. Foram elas, portanto, que diversificaram a floresta e a mantiveram de pé, legando-nos a região hoje ainda capaz de ainda adiar o fim do mundo: a Amazônia.

É fundamental também reforçar que quando o Estado tenta dragar um rio para torná-lo navegável às balsas gigantes de transporte de soja e outras commodities, os Povos Indígenas ocupam o porto de uma das maiores multinacionais do agronegócio dizendo NÃO. Um “não”, aliás, que não é apenas baseado no confronto de projetos de desenvolvimento, em pontos de vista distintos. É ancorado na clareza de que dragar um rio, privatizar um bem comum, é interromper os fluxos vitais, é colocar em risco o já frágil equilíbrio das forças cósmicas que garantem a vida, o que, em tempos de caos climático, é um argumento absolutamente respaldado pela ciência.

Algumas perguntas se fazem necessárias para reposicionarmos o sentido e a abrangência política da ação indígena no Tapajós. Se vivemos uma repetição histórica absurda de projetos de desenvolvimento nacional entre forças de esquerda e direita, que insistem no saque neocolonial de nossos bens comuns, transformados em ativos financeiros, como única via de crescimento econômico, o que há de mais central, em termos de luta de classes, do que as revoltas territoriais que empreendem a paralização desses fluxos de matéria e energia? Em tempos que o imperialismo estadunidense apresenta sua face mais violenta na América Latina, o que há de mais antagônico a essa arrogância que a ocupando das instalações portuárias de uma multinacional norte-americana do agronegócio?

Em meio à polarização total da sociedade brasileira, em que pontos de vista se cristalizam em certezas que impossibilitam o diálogo, o que há de mais emancipatório do que Povos Indígenas pensando a partir de pontos de vida e alertando que sem a conexão com esse sistema vivo que chamamos de terra é impossível pensar saídas ao caos que vivemos?

O “não” do Tapajós tem o caráter urgente para o cancelamento do projeto de transformação de rios ancestrais em rotas de commodities, mas essa resistência urgente, como ensinou o mestre Carlos Walter Porto-Gonçalves, é, também, re-existência, ela é um oásis de novas imaginações políticas em meio ao deserto da política institucional brasileira.

O recado da ocupação da zona portuária da Cargill é de que não podemos continuar alimentando um sistema agroalimentar pautado no monocultivo, no envenenamento e na violação ambiental. A produção de alimento precisa significar saúde e vida, além de produção de autonomia de comunidades, por circuitos curtos de comercialização, com agroecologia, não com agronegócio.

A integração entre vários povos do Tapajós e as lutas sociais empreendias por diversas comunidades, povos e grupos sociais do rio Tocantins e do rio Madeira é um recado de que não é possível continuarmos pensando a integração nacional apenas integrando frentes econômicas que sempre nos mataram. É preciso parar de integrar os circuitos da morte para pensar em integrar os territórios da vida: quilombolas, ribeirinhos, indígenas, camponeses articulados por circuitos da vida, não atravessados por infraestruturas do colapso.

A energia ancestral que agora emana dos povos do Tapajós mostra-nos que a real saída ao colapso apenas começa com a redução do desmatamento e o freio à drenagem de recursos públicos aos agro-mínero-hidro-bio-carbono-negócios. É necessário frear essa expansão, mas é preciso coragem de dizer que precisamos reflorestar mentes, reflorestar nossos modos de compreender o mundo para que os Territórios da Vida, com toda sua diversidade florestal, étnica e linguística, não apenas resistam, mas avancem por sobre os territórios do agronegócio, da mineração e das demais frentes da destruição.

Para os povos do Tapajós, a ancestralidade é a bússola para enfrentar o caos climático e garantir que a vida não seja convertida em mercadoria. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

Para os povos do Tapajós, a ancestralidade é a bússola para garantir que a vida não seja convertida em mercadoria. Foto: José Marcos Tapajós / Amazônia Latitude.

Esses povos nos apontam a expansão de uma fronteira da vida por sobre territórios da morte, a reconexão às forças cósmicas que nos fazem vivos por sobre a desconexão produzida por territórios homogêneos. Mais que isso, o reencantamento do mundo como política de afeto às energias e ciclos vitais por sobre o desencantamento do mundo operado pelo pragmatismo político que esvazia de sentido o mundo para transformá-lo em mercadoria.

Quando os corpos indígenas barram as engrenagens da Cargill, é o próprio Rio Tapajós que retoma sua voz ancestral contra o silêncio do veneno. Não se trata apenas de ocupar um porto, mas de garantir que os fluxos da vida continuem a correr livres, sem as amarras das engenharias do colapso. Que o recado de Idixidi ecoe: a vida não cabe em barcaças, e o futuro só será possível se soubermos ser, outra vez, a correnteza indomável que sustenta o cosmos.

Bruno Malheiro é escritor, professor, roteirista e músico. É professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), doutor em Geografia, autor dos livros “Horizontes Amazônicos” e “Geografias do Bolsonarismo”, co-roteirista do filme “Pisar suavemente na Terra” e autor do álbum musical “Segura o Céu”.

Edição e montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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