Fumaça: Expansão da fronteira agropecuária no Amazonas afeta saúde e cotidiano da população

Enquanto o fogo abre espaço para ocupação, mais de dois milhões de amazonenses respiram o ar tóxico, que atingiu níveis até 80 vezes superiores ao recomendado pela OMS

Frente de fogo avança sobre área de floresta no interior do Amazonas; queimadas para renovação e expansão de pastagens mantêm a pressão sobre o bioma e sufocam a região com fumaça tóxica. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
Frente de fogo avança sobre área de floresta no interior do Amazonas; queimadas para renovação e expansão de pastagens mantêm a pressão sobre o bioma e sufocam a região com fumaça tóxica. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.
Frente de fogo avança sobre área de floresta no interior do Amazonas; queimadas para renovação e expansão de pastagens mantêm a pressão sobre o bioma e sufocam a região com fumaça tóxica. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Frente de fogo avança sobre área de floresta no interior do Amazonas; queimadas para renovação e expansão de pastagens
mantêm a pressão sobre o bioma e sufocam a região com fumaça tóxica. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

MANAUS (AM) – Em outubro, o céu de Manaus, capital do Amazonas e a maior metrópole da Amazônia, voltou a desaparecer sob uma densa nuvem de fumaça. O horizonte perdeu os contornos, o sol virou uma mancha difusa avermelhada em meio a uma névoa cinza.

Em determinados trechos, até mesmo o rio Negro, artéria vital e marco geográfico da capital amazonense, deixou de ser visível a poucos metros da margem.

O ar tóxico, impregnado de fuligem proveniente de queimadas florestais em municípios da Região Metropolitana, do sul do Amazonas e de estados vizinhos, como o Pará, invadiu casas, escolas, universidades, locais de trabalho e unidades de saúde.

Respirar, uma necessidade básica, tornou-se um risco cotidiano para mais de dois milhões de pessoas na capital e no interior. Falta ar limpo em meio a maior floresta tropical do mundo e sobra ardência nos olhos, dor de garganta e dificuldades respiratórias.

Em 2026, os episódios mais intensos de fumaça em Manaus começaram a ser registrados no dia 8 de setembro, mas foi ao longo de outubro que o cenário se agravou significativamente.

Na sexta-feira, 30, a capital continua a registrar um quadro crítico de poluição atmosférica devido à fumaça de incêndios, com o Índice de Qualidade do Ar (IQA) variando entre moderado, ruim e muito ruim.

Só na última quinta-feira, a Defesa Civil do Amazonas emitiu três alertas abrangendo a capital e outros 38 municípios devido aos impactos dos incêndios em áreas não protegidas.

Vista aérea do Centro Histórico de Manaus e da orla do rio Negro encoberta por densa camada de fumaça; capital e interior enfrentam níveis críticos de poluição atmosférica causados por queimadas na região. Foto: Divulgação/Fiocruz Manaus.

Vista aérea do Centro Histórico de Manaus e da orla do rio Negro encoberta por densa camada de fumaça; capital e interior enfrentam níveis críticos de poluição atmosférica causados por queimadas na região. Foto: Divulgação/Fiocruz Manaus.

Sufoco em dados

Os números ajudam a dimensionar o sufoco. Na manhã do dia 17 de outubro, medições divulgadas pela plataforma IQAir registraram concentrações de material particulado fino, conhecido como PM2,5, em torno de 404,3 microgramas por metro cúbico em Manaus.

Leituras da plataforma SELVA, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também apontaram níveis extremamente elevados, entre 366,8 e 465,6 µg/m³, classificados como “péssimo”.

O índice equivale a 80 vezes a diretriz anual da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda uma concentração média anual de PM2,5 de até 5 µg/m³ e uma média de 24 horas de até 15 µg/m³. O PM2,5 é composto por partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros, pequenas o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea.

Captura de tela do aplicativo SELVA, desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), apontando índices críticos de poluição do ar em diferentes zonas de Manaus.

Captura de tela do aplicativo SELVA, desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), apontando índices críticos de poluição do ar em diferentes zonas de Manaus.

O envenenamento atmosférico alterou o funcionamento da cidade. Aulas presenciais em escolas públicas e privadas foram suspensas para evitar a exposição das crianças; voos comerciais e operações aéreas de fiscalização das queimadas tiveram decolagens atrasadas pela visibilidade nula; eventos esportivos foram cancelados e moradores passaram a adotar máscaras de proteção.

Para quem depende do trabalho nas ruas, nos mercados, nas feiras e nos canteiros de obras, permanecer em ambientes fechados nem sempre é uma opção.

A exposição ao ar tóxico está associada ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de aumentar os riscos para crianças, idosos, gestantes e pessoas com condições de saúde preexistentes.

Os serviços de saúde também sentiram os efeitos. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), os atendimentos relacionados à fumaça cresceram mais de 23 vezes nas três primeiras semanas de outubro, na comparação com o mês anterior.

Entre 1º e 18 de outubro, foram registrados mais de 600 atendimentos de emergência associados a quadros como intoxicação aguda, asma, bronquiolite, insuficiência respiratória e desconfortos cardiovasculares. Em setembro, foram 26 atendimentos.

Tosse, falta de ar, dor de cabeça, febre, dor no peito, coriza, irritação na garganta, fadiga e náuseas estão entre os sintomas relatados em episódios de exposição intensa. O quadro forçou a instalação emergencial da Força Nacional do SUS pelo Ministério da Saúde para organizar estoques de oxigênio e medicamentos, na capital e interior.

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) manifestou preocupação e solidariedade não apenas aos povos quilombolas e indígenas, mas a toda a população do estado, e destacou o sofrimento coletivo dos impactos sanitários e ambientais da emergência climática.

As queimadas afetam diretamente territórios quilombolas de Barreirinha, Itacoatiara, Manaus, Rio Preto da Eva e Parintins. Em relato à Conaq, seu Valcimar Negreiros, liderança do Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, localizado a cerca de oito quilômetros de Itacoatiara, fala do impacto na saúde coletiva:

Temos que respirar esse ar poluído de muitas queimadas que estão acontecendo no Amazonas. Isso está fazendo com que a população […] sofra com a falta de ar, dores na garganta, ardor nos olhos, e essa população que está sofrendo corre para a cidade para superlotar os hospitais e as UBSs por atendimento. Eu mesmo, há duas semanas, já venho sofrendo com um pouco de falta de ar, pulmão carregado de muita fumaça. E a gente não tem muita opção de se esconder disso. Só rogamos a Deus que ele mande uma chuva que possa abafar essa fumaça e apagar um pouco esses incêndios para que volte tudo ao normal”.

Em Manaus, no Quilombo Urbano do Barranco de São Benedito, no bairro Praça 14 de Janeiro, a pedagoga e mestra em Ensino Tecnológico (IFAM-CMC) Rafaela Fonseca, de 52 anos, descreve a angústia de ver sua família adoecer dentro de casa:

Tem dia que a gente sente aquele aperto no peito, não pode nem ligar o ar-condicionado, porque o ar puxa a fumaça toda para dentro da casa. E aí a gente vai inalando aquilo até que parece que o peito sobrecarrega. Para respirar é uma coisa muito ruim, parece que a gente tá numa caixa e colocaram fumaça ali até asfixiar. A impressão que eu tenho é de estarem nos matando aos poucos. Outro dia meu companheiro amanheceu se sufocando e com os olhos vermelhos, ardendo. Meu filho também amanheceu assim, com tosse. É uma tristeza só quando você olha para fora e você não vê nada, só aquela fumaça e aquele odor forte. Horrível.”

A fumaça não se limita a encobrir a paisagem, ela entra nos corpos, compromete o cotidiano e transfere para a população os custos de uma crise ambiental que não se distribui igualmente entre seus responsáveis e suas vítimas.

Mas, para compreender por que Manaus e outros municípios respiram fumaça, é preciso olhar para além do céu da capital. O problema começa também nas áreas onde a floresta é derrubada, a vegetação é queimada e a terra passa a ser disputada como mercadoria.

O fogo como ferramenta de expansão agropecuária

Área queimada e desmatada no município de Autazes, a mais de 100 quilômetros da capital Manaus. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Área queimada e desmatada no município de Autazes, a mais de 100 quilômetros da capital Manaus. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Entre 1º de setembro e 19 de outubro de 2026, o Amazonas registrou 5.647 focos de incêndio, número 195% superior ao observado no mesmo período de 2025, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Só em setembro foram 3.726 focos.

Mais de 80% dos focos de fogo identificados nesse período ocorreram em áreas de desmatamento recente ou já consolidado.

Em 10 de outubro, diante do agravamento da situação, o governo estadual declarou emergência em 36 dos 62 municípios amazonenses.

Os focos são registros de anomalias térmicas detectadas por satélites. Eles não equivalem automaticamente a incêndios distintos, nem medem diretamente a extensão da área queimada.

Ainda assim, quando analisados em conjunto com as informações sobre desmatamento, uso do solo e localização das ocorrências, esses dados ajudam a identificar a dimensão territorial da crise.

O avanço da fronteira agropecuária é uma peça central desse cenário. A pecuária extensiva, baseada na criação de animais em grandes áreas de pastagem, historicamente tem funcionado como uma das principais formas de ocupação econômica de áreas desmatadas na Amazônia.

O fogo é a ferramenta primária e mais barata para eliminar a vegetação derrubada, preparar o terreno e renovar pastos. É uma técnica comumente usada de baixo custo imediato, mas que pode provocar incêndios fora de controle, sobretudo durante os efeitos provocados pelo fenômeno El Niño, que intensifica períodos de seca e calor extremo.

Os dados do Relatório Anual de Desmatamento de 2025 (RAD 2025), divulgado pelo MapBiomas, ajudam a compreender a escala dessa transformação.

No ano passado, 99% do desmatamento no Amazonas teve como principal vetor a agropecuária, com 67.709 hectares desmatados, o que equivale, aproximadamente, a 95 campos de futebol.

A criação de gado avança a cada ano. O rebanho bovino do estado cresceu 2,95% entre 2024 e 2025, passando de 2.609.796 para 2.686.769 cabeças de gado (um aumento de 76.973 animais), superando até mesmo a produção de peixes, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) divulgada pelo IBGE.

É importante ressaltar que esses números não significam que toda pastagem tenha sido aberta ilegalmente ou que todo incêndio no Amazonas esteja ligado à pecuária.

Demonstram, porém, a relevância histórica da atividade na conversão da floresta e reforçam a necessidade de investigar quem se beneficia da abertura de novas áreas de maneira criminosa, quem financia essa transformação e como a terra passa a integrar circuitos econômicos formais e informais.

“Toque sua boiada para o maior pasto do mundo”

Na Amazônia, a expansão da pecuária não pode ser entendida apenas como uma decisão produtiva. Ela também está ligada à história da ocupação territorial, à concentração fundiária e à transformação de terras públicas em patrimônio privado, a famosa grilagem.

Durante a ditadura empresarial-militar instaurada em 1964, políticas de ocupação da Amazônia estimularam a abertura de estradas, a instalação de grandes empreendimentos e a transferência de incentivos fiscais para projetos agropecuários.

A floresta passou a ser tratada, em muitos desses projetos, como um obstáculo a ser removido para dar lugar à produção e à valorização da terra. A pecuária se encaixou nessa lógica.

Em comparação com outras atividades, a criação extensiva exige relativamente pouca mão de obra por hectare e pode ser implantada com menor complexidade operacional.

A formação de pastagens também pode servir como sinal de ocupação de uma área, alimentando disputas fundiárias e processos de grilagem. Em contextos de fiscalização insuficiente, derrubar e ocupar a floresta pode se tornar parte de uma estratégia de apropriação e valorização patrimonial, mesmo quando a produção efetiva é baixa.

Em 2025, a agropecuária ocupava cerca de 65,3 milhões de hectares do bioma Amazônia, dos quais 50,8 milhões eram destinados a pastagens, aproximadamente 12% de toda a área do bioma.

Entre 1985 e 2025, a área de pastagens cresceu 556%. Em média, a pastagem foi o primeiro uso dado à terra após a perda de vegetação nativa em 77% dos casos analisados pelo projeto.

A propaganda oficial da época sintetizava esse projeto em slogans que convocavam os interessados a levar seus rebanhos. A mensagem era clara: “toque sua boiada para o maior pasto do mundo”.

Anúncio institucional veiculado durante o regime militar na década de 1970, incentivando a ocupação da Amazônia com projetos pecuários sob o lema de integrar o território. Foto: Reprodução.

Anúncio institucional veiculado durante o regime militar na década de 1970, incentivando a ocupação da Amazônia com projetos pecuários sob o lema de integrar o território. Foto: Reprodução.

Grandes empresas também participaram dessa corrida. No fim dos anos 1970, a fazenda-modelo da Volkswagen no sul do Pará ganhou projeção internacional pelas denúncias de desmatamento associadas ao empreendimento.

Décadas depois, a lógica de ocupação da terra continua a ajudar a explicar por que a destruição da floresta persiste mesmo quando existem alternativas produtivas e compromissos públicos de redução do desmatamento.

Sul do Amazonas: a fronteira avança sobre a floresta

No sul do Amazonas, municípios como Apuí, Lábrea e Novo Aripuanã estão inseridos em uma região de expansão da fronteira agropecuária que se conecta ao chamado Amacro, área que abrange territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia.

Para se ter uma ideia do peso da região nessa atividade, os cinco municípios com maior rebanho bovino do estado são de lá: Lábrea, com 738.930 cabeças de gado, seguida por Boca do Acre (479.795), Apuí (312.226), Manicoré (199.939) e Novo Aripuanã (107.663).

A abertura de novas áreas, a ampliação das pastagens e a disputa pela terra pressionam florestas e comunidades, ao mesmo tempo que favorecem a instalação de atividades econômicas dependentes da conversão da vegetação nativa.

Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) relativos a 2025 apontaram 14.621 hectares desmatados em Apuí, um aumento de 26% em relação a 2024. Em Lábrea, foram 10.922 hectares, uma redução de 6,3% na comparação anual. Os números mostram a dimensão da pressão sobre o território.

A série histórica do MapBiomas indica que o Amacro perdeu aproximadamente 7 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, o que representa uma redução de 16% da cobertura original do território. Para se ter noção, a perda é de 70.000 km² e é equivalente a cerca de 9,8 milhões de campos de futebol padrão FIFA.

No mesmo intervalo histórico, a área de pastagens da região tornou-se cerca de 15 vezes maior, com acréscimo de aproximadamente 6,6 milhões de hectares.

Dos 7 milhões de hectares perdidos no total da série histórica, 2,7 milhões de hectares foram desmatados somente na última década, entre 2015 e 2025.

O avanço da fronteira não ocorre apenas pela derrubada direta da floresta. Em muitos casos, ele se desenvolve por etapas: abertura de estradas e ramais, ocupação de áreas públicas, retirada da vegetação, uso do fogo, formação de pastagens e posterior valorização ou transferência da terra.

Essa sequência não é idêntica em todos os lugares, mas ajuda a compreender como a devastação pode se transformar em estratégia econômica.

2. Na seção do Sul do Amazonas (Fronteira e Rebanho Bovino)Imagem para inserir: 6 - A produção agropecuária no Amazonas cresce a cada ano... (Mapa do IBGE / PPM) Onde encaixar: Logo após o parágrafo que detalha os municípios com maiores rebanhos (Lábrea, Boca do Acre, Apuí, etc.) ou na introdução do bloco do Sul do Amazonas.Por que funciona: Transforma os números frios de cabeças de gado em uma visualização espacial clara, mostrando onde o rebanho se concentra no estado.Legenda Sugerida: Mapa da Pesquisa da Pecuária Municipal (IBGE) evidenciando a concentração do rebanho bovino nos municípios do sul do estado e na calha do eixo rodoviário. Fonte: IBGE.

2. Na seção do Sul do Amazonas (Fronteira e Rebanho Bovino)Imagem para inserir: 6 – A produção agropecuária no Amazonas cresce a cada ano… (Mapa do IBGE / PPM) Onde encaixar: Logo após o parágrafo que detalha os municípios com maiores rebanhos (Lábrea, Boca do Acre, Apuí, etc.) ou na introdução do bloco do Sul do Amazonas.Por que funciona: Transforma os números frios de cabeças de gado em uma visualização espacial clara, mostrando onde o rebanho se concentra no estado.Legenda Sugerida: Mapa da Pesquisa da Pecuária Municipal (IBGE) evidenciando a concentração do rebanho bovino nos municípios do sul do estado e na calha do eixo rodoviário. Fonte: IBGE.

Queda do desmatamento e a cortina de fumaça: paradoxo?

A crise da fumaça, a princípio, parece contrastar com os dados divulgados pelo governo federal que apontam a maior queda histórica do desmatamento.

As estimativas divulgadas em outubro pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do INPE, indicaram redução de 41,8% no desmatamento do bioma Amazônia no período de agosto de 2025 a julho de 2026, que chegou a 3.335 km², o menor valor da série desde 1988.

No Amazonas, a redução anual do desmatamento foi de 46,4%, caindo de 979 km² em 2025 para 525 km² em 2026. Esse é o menor patamar dos últimos dez anos, com uma redução de quase 80% em comparação com os 2.594 km² registrados em 2021.

Mas como o desmatamento pode cair enquanto há incêndios? O governo federal explica que os indicadores medem fenômenos diferentes. O Prodes 2026 se refere ao período de agosto de 2025 a julho de 2026; os incêndios de outubro, portanto, estão fora desse intervalo.

Mesmo no mesmo período, pode haver menos supressão de vegetação e mais fogo. Incêndios podem atingir áreas já abertas ou vegetação nativa e causar danos graves, sem que toda a área atingida seja classificada como desmatamento. O Prodes monitora anualmente a supressão de vegetação nativa.

A plataforma Terra Brasilis, do INPE, mostra que do dia 1º de setembro ao dia 19 de outubro, mais de 80% das ocorrências de fogo aconteceram em áreas de desmatamento recente (2.291 focos – 51.8%) e áreas de desmatamento consolidado (1.719 focos – 29.8%). Em áreas de vegetação nativa foram 17% (1.029 focos).

De acordo com o governo, a estratégia federal de prevenção e controle do desmatamento combina monitoramento por satélite, fiscalização, ordenamento territorial e fomento a atividades produtivas sustentáveis, com instrumentos normativos e econômicos voltados à conservação e ao uso sustentável da vegetação nativa.

As ações estão organizadas pelo Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), restabelecido em 2023, e são executadas por órgãos federais em cooperação com estados e municípios.

Uma análise do INPE, baseada no cruzamento de registros de focos de calor com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) entre 1º e 15 de outubro, indicou que aproximadamente 80% das ocorrências em todo o estado estavam dentro de propriedades rurais privadas inscritas no cadastro, ou seja, 8 em cada 10.

A presença de um foco dentro de um imóvel cadastrado não prova, por si só, quem iniciou o fogo, se houve autorização ou se ocorreu crime. O CAR é um registro declaratório, não um título de propriedade nem uma certificação automática de regularidade ambiental.

Ainda assim, o cruzamento de dados territoriais oferece uma pista importante para direcionar a fiscalização e identificar os responsáveis diante das evidências de infração.

Grupos políticos têm usado a desinformação, misturando intencionalmente métricas distintas, desmatamento (supressão definitiva da vegetação nativa) e áreas atingidas por fogo temporário ou queimadas induzidas pela estiagem e ações criminosas ordenadas, como veremos mais à frente.

Desmatamento e fogo são fenômenos relacionados, porém diferentes: um mede a supressão da vegetação nativa; o outro pode ocorrer tanto em áreas recém-desmatadas quanto em pastagens, terrenos já alterados e florestas em pé.

Uma queda no desmatamento não impede que queimadas intensas, somadas à seca e às condições meteorológicas, produzam episódios graves de poluição.

A fumaça que chega a Manaus pode, portanto, coexistir com a redução da taxa anual de desmatamento. Para entender sua origem e sua intensidade, é necessário observar a distribuição dos focos de calor, o uso do solo, as condições climáticas e as práticas adotadas nos territórios atingidos.

O entorno de Manaus também queima

A crise não está restrita ao sul do estado. A região metropolitana e os municípios do entorno da capital concentram focos de calor em áreas de floresta, terras públicas e propriedades rurais.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), divulgado em 21 de outubro, contabilizou 15.674 focos de calor em 19 municípios da região metropolitana e do Amazonas central entre 1º de janeiro e 14 de outubro de 2026.

O número ficou 109,4% acima da média histórica considerada pelo estudo, tornando o ano o segundo com mais ocorrências no período analisado, atrás de 2023.

Autazes registrou 2.827 focos, 138% acima da média histórica; Maués, 2.431; e Itacoatiara, 1.639. Somados, os três municípios concentraram 44% dos focos identificados em um raio de 300 quilômetros de Manaus.

4. Seção de Mapas e Dados Satelitais (Contexto Técnico)Imagens Escolhidas: 3 - Satélite Aqua mostra fumaça na Amazônia central... (NASA) OU 9 - Incêndios na região metropolitana acontecem, principalmente, em cidades com intensa expansão da agropecuária... (IPAM) Onde encaixar: Na transição em que o texto aborda o cruzamento de dados do INPE/IPAM e a distribuição espacial dos focos de calor na região central do estado.Legenda Sugerida: Concentração de focos de calor e mapeamento da fumaça na Região Central do Amazonas, evidenciando a sobreposição com eixos de expansão agropecuária. Fonte: IPAM / NASA Earth Observatory.

4. Seção de Mapas e Dados Satelitais (Contexto Técnico)Imagens Escolhidas: 3 – Satélite Aqua mostra fumaça na Amazônia central… (NASA) OU 9 – Incêndios na região metropolitana acontecem, principalmente, em cidades com intensa expansão da agropecuária… (IPAM) Onde encaixar: Na transição em que o texto aborda o cruzamento de dados do INPE/IPAM e a distribuição espacial dos focos de calor na região central do estado.Legenda Sugerida: Concentração de focos de calor e mapeamento da fumaça na Região Central do Amazonas, evidenciando a sobreposição com eixos de expansão agropecuária. Fonte: IPAM / NASA Earth Observatory.

O agravamento foi especialmente intenso em outubro. Entre os dias 4 e 14, foram registrados 5.598 focos nos municípios analisados, ante 149 no mesmo intervalo de 2025, uma quantidade aproximadamente 37 vezes maior.

Apesar do aumento regional, Manaus respondeu por 1,3% dos focos identificados nos 19 municípios.

A distribuição territorial dos registros também chama atenção. De acordo com o IPAM, 77% dos focos ocorreram em vegetação nativa e 23% em áreas já alteradas. Florestas públicas não destinadas concentraram 39,4% das ocorrências; outras terras públicas, 22,6%; assentamentos rurais, 15%; e terras indígenas, 6,8%. O levantamento também identificou 5.155 focos em imóveis rurais privados.

A sombra da impunidade

A localização de focos de calor em áreas privadas e terras públicas torna ainda mais importante a apuração sobre a origem dos incêndios. No Amazonas, relatos de queimadas em linhas geométricas dentro de áreas florestais e denúncias de pessoas lançando recipientes com combustível às margens de estradas, inclusive nas proximidades do rio Urubu, de Autazes e da BR-319, levantaram suspeitas de ação deliberada.

Diante do cenário, a Polícia Federal (PF) investiga, em pelo menos nove inquéritos, se ações criminosas estão por trás da onda de queimadas no Amazonas. As apurações são feitas com base em monitoramento, análise de imagens de satélite e coleta de informações junto a órgãos públicos para identificar as causas dos incêndios e os responsáveis.

Além da PF, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e forças estaduais investigavam mais de 120 ocorrências relacionadas a incêndios.

Durante entrevista coletiva em Manaus dia 14 de outubro, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, lembrou de situações similares de incêndios criminosos ocorridos em 2024, quando houve o chamado “Dia do fogo”, quando foram registrados mais de dois mil incêndios simultâneos, em São Paulo e no Pará. Ele completou:

Existe uma suspeita de ação organizada. Por isso, além de todos os que estão aqui, todas as investigações, também temos a participação da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, para verificar se está se repetindo aqui o que ocorreu em outro momento no chamado ‘Dia do Fogo”.

O ministro também indicou o teor criminoso das queimadas recentes no Amazonas baseado nos relatos de profissionais que atuam no combate aos incêndios florestais:

Temos relatos, inclusive, de veículos, caminhonetes jogando combustível, garrafas com combustível, na floresta ou em estradas. Temos relatos de pessoas que, quando os bombeiros ou os brigadistas estão apagando o fogo, dizem que, quando eles forem embora, vão colocar fogo de novo”.

Após o primeiro turno das eleições de 2026, que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Lula (PT), que virou e venceu no segundo turno, os incêndios quadruplicaram, com crescimento de 416%.

De acordo com o Inpe, o número acumulado de focos de calor em outubro de 2026 aumentou entre os dias 4 e 16, passando de 354 para 1.830 registros. Nesse intervalo, foram detectados mais 1.476 focos, com destaque para o dia 10, que concentrou 494 ocorrências, o maior total diário do período.

No Amazonas, o Ministério Público Federal recomendou providências urgentes a órgãos federais e estaduais e a nove municípios. A Defensoria Pública do Estado do Amazonas também acionou a Procuradoria-Geral da República em busca de novas medidas diante da crise, incluindo a avaliação de providências institucionais cabíveis.

Respostas emergenciais

Diante da crise, os governos federal e estadual mobilizam recursos para apoiar as ações de combate ao fogo. Cerca de R$14 milhões foram destinados para a execução do plano de combate ao fogo.

No campo da fiscalização, o Ibama informou a aplicação de mais de R$ 2 milhões em multas, a lavratura de 19 autos de infração e o embargo de mais de 250 hectares em Autazes e Careiro da Várzea contra os responsáveis pelos incêndios florestais que espalharam fumaça por Manaus e outras cidades do Amazonas e do Pará nas últimas semanas.

Segundo balanço divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima até 26 de outubro, aeronaves federais haviam lançado mais de 2 milhões de litros de água nas operações, acumulado 591 horas de voo e realizado 369 lançamentos. O balanço também registrava 355 incêndios extintos, 15 aeronaves federais mobilizadas e 478 profissionais do Ibama e do ICMBio envolvidos nas ações.

Aeronaves e equipes de fiscalização mobilizadas em operações de combate a incêndios florestais em áreas sob pressão de queimadas ilegais. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

Aeronaves e equipes de fiscalização mobilizadas em operações de combate a incêndios florestais em áreas sob pressão de queimadas ilegais. Foto: Edmar Barros/Amazônia Latitude.

O apoio financeiro federal ao Amazonas não se limitou às operações emergenciais realizadas durante a crise. Em setembro de 2024, o Fundo Amazônia aprovou R$45 milhões para o ProAmazon, projeto executado pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), com o objetivo de ampliar a estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais.

Até março de 2026, R$34,7 milhões haviam sido desembolsados, cerca de 77% do total. O projeto prevê a construção de bases operacionais em Careiro Castanho, Humaitá e Lábrea, a aquisição de cinco caminhões de combate a incêndios, 16 caminhonetes e equipamentos para as equipes.

Já durante a emergência de outubro de 2026, a Defesa Civil Nacional aprovou R$45,2 milhões em 47 planos de trabalho para assistência humanitária no Amazonas, destinados tanto ao enfrentamento das queimadas quanto aos efeitos da estiagem. Desse montante, parte corresponde a ações de resposta emergencial, e não necessariamente à estruturação permanente dos órgãos de combate.

A crise também trouxe à tona a não aquisição de uma aeronave prevista em uma articulação parlamentar anterior. Em 2023, uma emenda do senador Omar Aziz viabilizou recursos federais do Ministério da Justiça para a compra de um avião de combate a incêndios.

O convênio firmado entre a Secretaria Nacional de Segurança Pública e a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas previa R$15 milhões da União, além de contrapartida estadual. A aeronave, porém, não foi adquirida.

Em outubro de 2026, Aziz afirmou que os recursos continuavam sem utilização e cobrou explicações sobre a ausência do equipamento.

É possível produzir sem derrubar

A ideia de que a pecuária amazônica depende necessariamente de novas áreas desmatadas não encontra respaldo nas alternativas técnicas já estudadas.

Em 2021, o projeto Amazônia 2030 e o Imazon publicaram o estudo ˜Políticas para desenvolver a pecuária na Amazônia sem desmatamento˜. O trabalho analisou caminhos para ampliar a produção de carne sem expandir a fronteira sobre a floresta.

O estudo parte da projeção de crescimento da demanda por carne bovina e compara dois caminhos: abrir novas áreas para a criação extensiva ou recuperar pastagens degradadas e aumentar a produtividade nas áreas já utilizadas.

Segundo as estimativas da pesquisa, recuperar entre 170 mil e 290 mil hectares de pastagens degradadas por ano até 2030 exigiria investimentos da ordem de R$270 milhões a R$873 milhões anuais, considerando custos estimados em cerca de R$3 mil por hectare. O aumento da produtividade poderia elevar a produção de carne de aproximadamente 80 para 300 quilos por hectare.

O estudo também estimava que a expansão baseada em novos desmatamentos poderia exigir a abertura de 634 mil a 1 milhão de hectares por ano, com custos anuais entre R$950 milhões e R$1,63 bilhão.

O investimento total para aumentar a produção com a reforma de pastagens equivaleria a 28% e 53% do custo de desmatar, dependendo do cenário de custo de reforma.
Os valores são estimativas corrigidas pela inflação (IPCA) entre a época da estimativa dos estudos consultados e junho de 2021 e ajudam a demonstrar que a abertura de novas áreas não é a única alternativa econômica disponível.

Recuperação de pastagens e aumento de produtividade apontam caminhos viáveis para ampliar a pecuária sem a necessidade de novos desmatamentos. Foto: IBGE.

Recuperação de pastagens e aumento de produtividade apontam caminhos viáveis para ampliar a pecuária sem a necessidade de novos desmatamentos. Foto: IBGE.

Os autores indicaram, ainda, que uma parcela do crédito rural já contratado poderia financiar a recuperação de pastagens. Em vez de direcionar recursos apenas à compra de mais animais ou à ampliação das áreas, políticas públicas poderiam estimular ganhos de produtividade, assistência técnica e regularização ambiental.

Se há alternativas, por que a expansão sobre a floresta persiste?

A resposta envolve fatores que ultrapassam a tecnologia produtiva: terra barata, baixa produtividade, disponibilidade de mão de obra pouco especializada, infraestrutura precária, fiscalização insuficiente e especulação fundiária.

Em determinadas circunstâncias, o lucro associado à apropriação e à valorização da terra pode ser mais atraente do que investir para produzir mais em uma área já aberta.

Mudar esse cenário exige direcionar o crédito e os incentivos públicos, recuperar áreas degradadas, fortalecer a assistência técnica e impedir que a grilagem seja premiada com a consolidação de ocupações irregulares.

Também exige rastreabilidade efetiva da cadeia da carne, capaz de identificar a origem dos animais e evitar que irregularidades sejam ocultadas por fornecedores intermediários.

O Ministério Público Federal (MPF) divulgou um balanço neste ano apontando que quase 142 mil bois comercializados foram criados em fazendas desmatadas ilegalmente na Amazônia, com trabalho escravo ou indícios de lavagem de gado entre 2023 e 2024.

A instituição auditou as compras feitas por dezenas de frigoríficos em seis estados da Amazônia Legal: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins, e encontrou irregularidades em todos. No Amazonas, um total de 27.633 cabeças de gado foram identificadas como irregulares.

O dado não representa toda a produção de carne na região, mas evidencia uma vulnerabilidade da ausência de controles eficazes sobre os fornecedores indiretos. Animais criados em áreas com irregularidades podem entrar na cadeia comercial por meio de propriedades aparentemente regulares.

A responsabilidade não termina na porteira da fazenda. Ela alcança os compradores, os frigoríficos, os financiadores e os mecanismos de fiscalização que deveriam impedir que produtos associados à devastação fossem incorporados ao mercado sem a devida verificação.

Crise climática também ameaça a própria produção

A expansão agropecuária baseada na derrubada da floresta pode comprometer as condições ambientais das quais a própria atividade depende. A vegetação amazônica participa da regulação do ciclo da água, influencia a umidade atmosférica e contribui para a formação de chuvas.

A perda de floresta pode agravar o aquecimento local e alterar os regimes de precipitação, aumentando a vulnerabilidade de lavouras, pastagens e rebanhos à seca.

Isso cria um paradoxo: uma atividade que avança sobre a floresta para ampliar a produção pode contribuir para deteriorar as condições climáticas necessárias à sua continuidade.

Pastagens submetidas a calor extremo e períodos prolongados sem chuva perdem produtividade; animais sofrem com o estresse térmico; e a escassez de água pressiona os custos de produção.

O risco não é apenas ambiental, mas também financeiro. O Banco Central (BC) tem apontado a exposição de setores como a pecuária aos riscos climáticos de transição, além dos impactos que eventos extremos podem provocar sobre instituições e atividades econômicas.

Em relatório de estabilidade financeira publicado em 2025, o BC registrou que a proporção de instituições financeiras brasileiras que relataram impactos de eventos climáticos extremos aumentou de 17% em 2023 para 44% em 2024.

A proteção da floresta não se opõe necessariamente à produção. Pode ser uma condição para sua viabilidade de longo prazo. O desafio é romper com um modelo que transforma a abertura de novas áreas em atalho econômico, enquanto distribui os custos ambientais, sanitários e climáticos para toda a sociedade.

Quem lucra com o fogo, quem paga com o próprio corpo

A fumaça que cobre Manaus torna visível uma desigualdade que costuma permanecer escondida na paisagem. Os benefícios econômicos da abertura de áreas podem se concentrar nas mãos de proprietários, grileiros, investidores e agentes da cadeia produtiva.

Os prejuízos, porém, são compartilhados por quem respira o ar contaminado, não consegue trabalhar direito, tem o cotidiano afetado pela fumaça, cuida de crianças e idosos vulneráveis ao ar tóxico, ou vive em comunidades distantes, onde o acesso à assistência médica é limitado.

Os custos também recaem sobre povos indígenas, comunidades ribeirinhas e populações tradicionais, cujos territórios são pressionados pela expansão econômica e cujos modos de vida dependem da integridade da floresta e dos rios.

Em períodos de seca, o fogo e a fumaça se somam às dificuldades de transporte, à redução da disponibilidade de água e à insegurança alimentar.

Essa distribuição desigual dos benefícios e dos danos deve estar no centro da questão. Não se trata de colocar toda a pecuária ou todos os produtores rurais sob suspeita, mas sim de identificar e responsabilizar aqueles que provocam incêndios, desmatam ilegalmente, ocupam terras públicas ou lucram com cadeias produtivas que não controlam adequadamente a origem de seus produtos.

Também não basta tratar a fumaça como um desastre natural. A seca, o calor, o El Niño e as mudanças climáticas ajudam a explicar a intensidade e a propagação das queimadas, mas as decisões sobre o uso da terra, a fiscalização e a destinação de recursos públicos determinam parte importante das condições em que a crise se desenvolve.

O Amazonas precisa de políticas que combinem prevenção, combate ao fogo, assistência à população e transformação das práticas produtivas. Isso significa investigar os incêndios, fortalecer os órgãos ambientais, impedir a grilagem, rastrear a cadeia da carne, recuperar pastagens degradadas e ampliar os investimentos em alternativas econômicas que não dependam da destruição da floresta.

Significa, ainda, garantir que a resposta do Estado não termine quando a fumaça se dissipa. Sem responsabilização e mudança nas condições que tornam a devastação lucrativa, cada nova temporada de seca pode reabrir a mesma crise, com outras nuvens sobre a capital, novos atendimentos hospitalares e mais territórios sob pressão.

A floresta amazônica não é apenas uma reserva de terras disponíveis para a expansão econômica, mas também parte das condições de existência de milhões de pessoas.

Enquanto a especulação fundiária continuar sendo lucrativa e a responsabilização dos infratores permanecer insuficiente, o direito fundamental à respiração, à saúde e ao futuro da população amazonense seguirá ameaçado pela expansão descontrolada da fronteira agropecuária.

Texto: João Felipe Serrão
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón

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