Utopias Amazônicas #08 | Alberto Acosta — O Bom Viver e a Armadilha do Progresso

Extrativismo, Kawsak Sacha e os limites do desenvolvimento na Amazônia

Alberto Acosta debate o Bem Viver, a armadilha do progresso e os limites do extractivismo no 8º episódio do LatitudeCast. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Alberto Acosta debate o Bem Viver, a armadilha do progresso e os limites do extractivismo no 8º episódio do LatitudeCast. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.
Alberto Acosta debate o Bem Viver, a armadilha do progresso e os limites do extractivismo no 8º episódio do LatitudeCast. Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Alberto Acosta debate o Bem Viver, a armadilha do progresso e os limites do extractivismo no 8º episódio do LatitudeCast.
Arte: Fabrício Vinhas/Amazônia Latitude.

Há palavras que o poder aprendeu a tolerar: sustentabilidade, transição, economia verde. Repete-as em cúpulas climáticas, imprime-as em relatórios corporativos, financia-as com mercados de carbono. E, enquanto isso, a Amazônia queima.

Alberto Acosta diz há décadas o que o poder prefere não ouvir: que o problema não é a falta de regulação, mas o próprio sistema. Economista equatoriano, ex-ministro de Energia e Minas, ex-presidente da Assembleia Constituinte do Equador —onde ajudou a escrever pela primeira vez na história os direitos da Natureza em uma Constituição—, candidato à presidência do seu país e autor de um dos livros mais influentes do pensamento latino-americano contemporâneo: O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos.

No livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial, Alberto Acosta assina o capítulo que dá título a Amazônia: a armadilha do progresso, violência, resistência, transformações, utopias. E o abre com uma imagem de Walter Benjamin: o anjo da história. Esse ser que vê naquilo que chamamos de progresso não uma promessa, mas uma catástrofe que não para de se acumular. É a partir dessa imagem e dessa honestidade incômoda que começa esta conversa.

Ouça:

Amazônia Latitude: Professor Alberto Acosta, seja muito bem-vindo ao LatitudeCast.

Alberto Acosta: Para mim é um prazer poder compartilhar algumas reflexões sobre um tema que sem dúvida alguma é de interesse para toda a humanidade. Ou que deveria ser de interesse para toda a humanidade. Porque quando falamos da Amazônia, falamos de um território de vida. E essa vida está entrelaçada com diversas, com praticamente todas as regiões do planeta. O que acontecer na Amazônia terá repercussões em todas as partes do mundo.

É fundamental, então, começar a recuperar uma visão diferente sobre a Amazônia para alcançar um processo que permita o sustento dessas bases de vida existentes na Amazônia, que estão severamente ameaçadas por um sistema que se caracteriza por sufocar a vida dos seres humanos e da natureza.

AL: E queria começar esta conversa com uma pergunta que fazemos a todos os autores do livro Utopias Amazônicas, e a pergunta é talvez um pouco abrangente, mas: o que é utopia amazônica para o senhor? Não a do dicionário, mas essa utopia que norteia seu trabalho, sua perspectiva de um bem viver, por exemplo.

AA: Bem, a utopia é, em primeiro lugar, uma opção de vida diferente, uma opção de vida desejável, uma opção de vida que garanta uma existência digna para todos os seres vivos. Essa seria a minha aproximação da utopia. E, no caso da Amazônia, a utopia está em alguns lugares de certa forma construída, naqueles povos que conseguiram sustentar suas formas de vida, inspirados no que pode ser o sumak kawsay ou o bem viver, inspirados no que pode ser o ñandereko, o teko porã, no Brasil ou na Bolívia, inspirados nessas formas de se relacionar de maneira equilibrada com a natureza e no respeito comunitário.

As comunidades são fundamentais. Mas, além disso, eu acho que é preciso recuperar aqui essa utopia que podemos realizar. Então, na Amazônia temos utopias realizadas, que precisamos assumir, estudar, não copiar e trasladar a outros territórios —e esse é um processo que exige muita humildade e respeito para conhecer essas existências diferentes das que existem no mundo mestiço, no mundo capitalista— e, simultaneamente, essas utopias nos oferecem opções para construir utopias no futuro.

utopias realizadas na Amazônia e há elementos para ter utopias por construir na própria Amazônia. A utopia é uma das grandes ferramentas que serve inclusive para incomodar o poder, e isso também me parece fundamental.

AL: Mas, professor, o senhor abre seu capítulo com Walter Benjamin e o anjo da história. É uma imagem que nos deixa pouca escapatória, porque o progresso nessa leitura não é um desvio nem um acidente, é o sistema operando exatamente como foi projetado. Como se diz isso a alguém que ainda acredita que a solução é “mais desenvolvimento”?

AA: Eu diria que, se queremos entrar em matéria assumindo o potencial de uma utopia que nos serve para caminhar e as propostas que vêm das civilizações, das culturas indígenas que vivem na Amazônia, temos que lembrar e insistir que a Amazônia é uma região que foi assumida precocemente dentro do processo de revalorização do capital. Isso é importante, é fundamental.

A Amazônia, os grupos dominantes, há muitíssimo tempo —eu diria centenas de anos—, a têm visto como uma opção de recursos naturais, como um grande depósito de riquezas a serem extraídas, revalorizadas, mercantilizadas. Lembremos que a Amazônia se integrou na atual Divisão Internacional do Trabalho há muito tempo, há vários séculos, e então a Amazônia vive uma lógica extrativista de exportação da natureza, seja na época colonial ou nas repúblicas com governos progressistas ou com governos neoliberais.

É muito importante ter em mente que a Amazônia foi incorporada nessa lógica de mercantilizar a natureza, de mercantilizar a vida, e foi incorporada empunhando a espada e a cruz, usando o poder imperial, a espada, e a fé, a cruz. E, desde então, começou um interminável processo de exploração das riquezas naturais com a consequente destruição de territórios, de culturas, de civilizações, de povos. E isso é muito importante.

Adicionalmente, todas as receitas dos extrativismos, sobretudo mineiros e petrolíferos, estão gerando destruições violentas. Sabemos muito bem, e vale a pena lembrar, que os extrativismos não apenas ocasionam violência, ocasionam corrupção e demandam governos autoritários, mas também se nutrem da violência, da corrupção e do autoritarismo para poder avançar. Dito em outras palavras e de forma muito simples: a violência e a corrupção não são apenas uma consequência dos extrativismos da colonização na Amazônia, mas são uma condição necessária, e esse é um ponto medular que temos que ter em conta.

Não nos esqueçamos de que a Amazônia foi vista e continua sendo vista como um território vazio onde os processos de desenvolvimento, a busca incessante pelo progresso, demandam sua integração na lógica da modernidade. E essa realidade é a que cobra a conta, tanto dos povos originários e das pessoas que vivem na Amazônia quanto da própria mãe terra, a natureza.

AL: E pensando um pouco mais sobre o progressismo e o extrativismo, talvez este seja o ponto mais incômodo do seu texto. E quero pressioná-lo aqui de uma maneira muito construtiva, porque o senhor foi ministro, foi presidente da Assembleia Constituinte, candidato à presidência. O que o senhor viu por dentro que confirmou o que já sabia por fora? Ou seja, que o extrativismo sobrevive a qualquer sigla partidária?

AA: Essa é a triste realidade, e isso começa a cobrar a conta dos grupos e das organizações progressistas que não impulsionaram uma verdadeira transformação. Tentaram introduzir certas mudanças cosméticas em um sistema que em essência é destruidor, que sufoca a vida. Tentaram administrar de melhor maneira o capitalismo, mas este sistema em si é o que arrasta todos esses elementos tão brutais que estão afetando a vida, não só na Amazônia, mas em muitos outros setores.

E assim estamos vendo, por exemplo, que em todos os países da Amazônia as florestas estão sendo transformadas a uma velocidade incrível em desertos de monoculturas ou em quase desertos como produto do desmatamento massivo, seja legal ou ilegal.

Depois, as florestas tropicais estão desaparecendo à medida que avança a fronteira agrícola intensiva com cultivos em grande escala, com as grandes fazendas de pecuária. E, claro, tudo é muito mais complicado e difícil quando vemos esses extrativismos mineiros e petrolíferos que arrasam tudo pelo caminho. E os centros urbanos, por definição não sustentáveis, aceleram todo o processo de destruição na Amazônia.

Eu acho que temos que ter isso muito claro, mas anotaria uma coisa. Não é fácil entender o que realmente significa a Amazônia a partir do mundo onde a mensagem dominante é: preciso fazer as economias crescerem, preciso aumentar a produção da economia, preciso me integrar ao mercado mundial. Superar isso não é fácil, insisto.

Para mim, pessoalmente, foi um processo de muitos anos. Eu repito com frequência que venho do lado sombrio da força. Tive aproximações com a Amazônia, com um critério um pouco romântico, de aventura. Cheguei à Amazônia há mais de 70 anos —tinha 6 anos na época— e fui de passeio a um vilarejo na Amazônia equatoriana, e voltei várias vezes em plano de aventura. Posteriormente, trabalhei na indústria petrolífera —estamos falando do início dos anos 80 do século passado— e via na Amazônia o potencial de recursos naturais, particularmente petróleo no meu país. Mas gradualmente comecei a me dar conta de que aquilo não tinha futuro.

Acho que foi no ano de 1984, fui com a minha atual companheira de passeio à Amazônia e mostrava a ela o que significava o oleoduto transequatoriano e dizia: Por ali flui a riqueza do Equador”. Ela, bióloga, me dizia: Não, Alberto, por ali está fluindo o sangue da Amazônia.

Efetivamente, com o tempo entendi que a extração de recursos naturais, particularmente petróleo no Equador, não resolvia os problemas de pobreza, de miséria, de concentração de riqueza, não servia para melhorar os níveis de democracia, para alcançar o inalcançável desenvolvimento e continuar na busca perversa pelo progresso. Gradualmente comecei a entender e, quando cheguei ao Ministério de Energia e Minas, já tinha dado muitos passos nessa direção e me dei conta de quão difícil e complexo é impulsionar transformações realmente profundas.

E aí temos o que você apontava no início desta conversa, interessante tudo o que significa essa chamada economia verde. Que, de uma forma ou de outra, o que está fazendo é simplesmente seguir uma lógica perversa, muito perversa, de mercantilizar a vida, as florestas, os serviços ecológicos, de mercantilizar tudo o que possa ser objeto de acumulação para o capital.

AL: Eu queria, talvez, pressionar um pouquinho mais aqui, porque não estamos falando apenas de uma empresa ou de um grupo corporativo, mas me parece que há uma cumplicidade dos Estados amazônicos. Nesse sentido, no seu artigo no livro, o senhor descreve a Amazônia como a “periferia da periferia”. Não é só o capitalismo global que a trata assim, são os próprios países amazônicos, incluindo, neste caso, o Brasil. O senhor menciona de maneira muito categórica, talvez única da perspectiva que critica o que chama de subimperialismo. A pergunta direta é: quem governa a Amazônia hoje? Está defendendo-a ou liquidando-a?

AA: Essa é uma pergunta muito interessante, porque poderíamos ou deveríamos começar a nos perguntar o que significa “quem governa”. Quem governa? No sentido estrito da institucionalidade que conhecemos, poderíamos dizer que é o conjunto dos Estados amazônicos. Essa é uma primeira aproximação. Mas, na prática, esses Estados amazônicos estão vinculados, sintonizados, inter-relacionados com a lógica de acumulação do capitalismo global. E então há uma sorte de espaço de ação limitado dentro dessa grande maquinaria, a megamáquina do capitalismo, porque nossos governos e nossos Estados, claro, de uma forma ou de outra, o que veem na Amazônia é a oportunidade de extrair recursos.

As elites dominantes veem o verde da Amazônia e imaginam que é o verde dos dólares. Não é o verde da biodiversidade, não é o verde dessa enorme capacidade de vida que a Amazônia tem, mas integraram a Amazônia como uma possibilidade de obter recursos naturais. E isso é algo que vem de muitos séculos atrás.

Lembremos que a Amazônia foi, entre muitas aspas, “descoberta” por Francisco de Orellana. Acho que, se a memória não me falha, foi lá por volta do ano de 1540. E anos depois, um século depois, quando fracassou o retorno da expedição conquistadora de Orellana, os reis da Espanha enviaram um padre jesuíta, Cristóbal de Acuña, para relatar à coroa espanhola sobre as riquezas existentes nos territórios “descobertos”.

Tenho à mão uma citação do padre Cristóbal de Acuña em um livro de 1641, onde se diz que este é, em suma, o novo descobrimento deste grande rio que, encerrando em si grandiosos tesouros, a ninguém exclui. Ao pobre oferece sustento, dizia esse texto de Cristóbal de Acuña, ao trabalhador satisfação do seu trabalho, ao mercador empregos, ao soldado ocasiões de valor, ao rico maiores crescimentos, ao nobre honras, ao poderoso estados e ao próprio rei um novo império.

Muitas dessas palavras sintetizam o que se continua fazendo na Amazônia, e vemos como atualmente as grandes potências do capitalismo metropolitano continuam vendo a Amazônia como uma possibilidade de negócios, de acumulação de riquezas e de controle político. A disputa na Amazônia, então, não está centrada apenas no papel que cumprem os Estados amazônicos, mas na própria lógica do sistema. Esse é um tema que temos que levar em consideração para não buscarmos simplesmente remendos que não vão resolver os problemas.

Temos que entender que o caminho seguido de incorporar a Amazônia como fonte de recursos naturais, como opção de negócio, como um grande mercado de onde se podem extrair recursos, está conduzindo à sua destruição, com gravíssimas afetações aos povos originários que formam a essência da Amazônia.

Porque, atenção aqui, não é que a Amazônia seja uma floresta prístina sem povos, sem sociedades, sem civilizações humanas; muito pelo contrário. A Amazônia é a simbiose da própria vida, onde os povos amazônicos fazem parte de um processo no qual se constrói e reconstrói a vida. Acho que esta é uma das grandes tarefas que nos cabe agora: recuperar a essência da Amazônia e entender que ela não pode continuar sendo a fronteira viva da colonização. Não podemos aceitar que continue a expansão do mercado capitalista na Amazônia, seja tradicional, com a exploração de recursos, ou através dos mercados fictícios: mercados de carbono, patentes e serviços ambientais. É importante dar passo a uma leitura diferente de respeito e dignidade para a Amazônia, para a natureza e para os povos amazônicos.

AL: Entrando um pouco nesta perspectiva sobre o bem viver como proposta política real, que trata justamente de resgatar esse valor de vida da Amazônia. O bem viver entrou na Constituição do Equador e depois o mesmo governo que presidiu essa assembleia voltou a ampliar a fronteira petrolífera, o que é uma contradição. Quando pensamos onde está o limite entre a utopia transformadora e o slogan cooptado, onde está o limite aí?

AA: Preocupa-me muito que as elites vejam na Amazônia essa possibilidade de fazer negócios, algo que vem de centenas de anos e continua se reproduzindo, seja com governos progressistas ou neoliberais, com a pressão de empresas transnacionais, com ação direta ou indireta de organismos multilaterais de crédito e grandes potências.

Mas aqui me parece que há algo a resgatar em positivo. Em primeiro lugar, já é aceito e cada vez mais a nível mundial que quem realmente está fazendo ações concretas para enfrentar o colapso ecológico —um dos quais é a mudança climática— são os povos indígenas que vivem na Amazônia. Quando eles defendem seus territórios e suas condições de vida, estão defendendo possibilidades certas de ações que não acontecem nas grandes cúpulas do clima, as famosas COPs, onde há discursos muito bonitos e propostas geniais que depois nem são cumpridas.

E este é o segundo elemento importante: os povos indígenas nos oferecem uma série de opções diferentes. No livro, por exemplo, menciono a proposta do povo de Sarayaku, na Amazônia equatoriana, onde se fala que a floresta, para os povos indígenas, é vida. A floresta é vida, não é uma opção de negócio. Esses povos falam do Kawsak Sacha ou “floresta vivente”, que é uma forma de entender o bem viver ou o sumak kawsay, o teko porã, ñandereko, suma qamaña. E eles nos dizem que esse mundo do Kawsak Sacha tem energia, simboliza o espírito humano tanto por sua fortaleza quanto por sua grandeza. Recupera um pensamento interior onde a alma e a vida são uma só coisa com a Pachamama.

Isso é chave entender. Povos indígenas, como o povo de Sarayaku, nos propõem uma opção de vida sintonizada com o bem viver, que é a vida em harmonia do ser humano consigo mesmo, do indivíduo que se realiza em comunidade, da harmonia entre as comunidades e em equilíbrio com a mãe terra. Este é um mensagem que devemos recuperar e assumir para enfrentar e superar esta civilização do capital e esta ideia de progresso, que é uma das invenções mais perversas da humanidade.

AL: O conceito de Kawsak Sacha, floresta vivente, funde passado e futuro trazendo-os ao presente. Mas este presente de reconstrução está conectado com lutas e resistências intermináveis pelos direitos das comunidades. Mais adiante no capítulo, o senhor menciona Ailton Krenak em uma citação muito interessante:

Temos que acabar com a fúria de meter asfalto e cimento em tudo. Nossos córregos estão sem respirar, porque uma mentalidade de catacumba agravada com a política do marco sanitário acha que tem que meter uma placa de concreto em cima de qualquer riacho, como se fosse uma vergonha ter água correndo ali. A sinuosidade do corpo dos rios é insuportável para a mente reta, concreta e ereta de quem planeja o urbano.”

O senhor coloca esta epígrafe e mais adiante menciona a necessidade de reorganizar os centros urbanos consolidados na Amazônia, como Manaus. Como avançar dessa perspectiva de morte para uma perspectiva de vida?

AA: O primeiro é assumir a realidade da Amazônia não a partir da mercantilização da vida. É preciso entendê-la como um território de sustentabilidade, onde a vida em si é o que conta, não o potencial econômico medido por investimentos, exportações ou crescimento econômico.

A Amazônia tem que ser entendida a partir de sua lógica ecológica, dos ritmos ecológicos, das visões dos povos originários. O rio Amazonas sintetiza e recolhe uma biodiversidade única no mundo.

Outro ponto chave é derrubar todo o discurso do capitalismo verde, da economia verde, dos mercados de carbono, da venda de serviços ecológicos.

Em terceiro lugar, recuperar todas as lutas de resistência na Amazônia, desde a resistência à escravidão no ciclo da borracha até a resistência contra a atividade petrolífera e mineradora atual. A Amazônia tem que encontrar respostas a partir da Amazônia, e não dos escritórios de governos ou transnacionais. A Amazônia não pode ser governada a partir de Washington, Beijing ou Moscou.

Por isso falo do progresso como uma armadilha. É preciso derrubar essas ideias e recuperar opções como o bem viver e o Kawsak Sacha.

AL: No seu artigo, o senhor se refere aos mercados de carbono como os “espelhinhos do século XXI”, a versão atualizada das baratijas da conquista europeia. De que maneira estamos sendo enganados novamente por esses espelhinhos através da gramática da bioeconomia?

AA: Lembremos que, quando os europeus chegaram à América, entregavam espelhos e baratijas aos povos originários em troca de ouro ou minerais valiosos. Isso se reproduz uma e outra vez. Para permitir a expansão mineradora, petrolífera ou de monocultivos de palma, oferecem-se “benefícios” às comunidades para evitar rejeição e resistência.

Em conclusão, essa reformatada lógica colonial mercantil, coberta com discursos tecnológicos, sintoniza-nos com o que aconteceu há 500 anos. Não podemos continuar confiando ingenuamente que a ciência e a tecnologia mudarão por si sós o rumo desta história de morte. É preciso ir desnudando essas visões e construindo utopias renovadas.

Precisamos de uma grande transformação em essência cultural, que vá derrubando fetiches como o do crescimento econômico permanente, propiciando a desmercantilização da natureza e dos bens comuns, favorecendo a descentralização e a redistribuição da riqueza e do poder.

Menciono no livro o caso da consulta popular no Equador, impulsionada pela sociedade civil, que obrigou a suspender a exploração de petróleo no Parque Yasuní (Yasuní significa “sagrado”). A grande tarefa é “yasunizar” o mundo, tornando viáveis mundos em chave de pluriverso, onde todos possamos viver com dignidade, respeitando os direitos humanos e os direitos da natureza.

AL: O senhor cita Galeano ao dizer que a utopia serve para caminhar. Mas, na Amazônia, quem caminha em direção a essa utopia frequentemente é assassinado: líderes indígenas, quilombolas, ribeirinhos, defensores do território. A conta de mudar o mundo está sendo paga com a vida por quem tem menos. O senhor termina seu artigo citando Gandhi: “Precisamos fazer a paz com a mãe terra para caminhar em paz entre os homens”. O senhor, como economista que conheceu o petróleo por dentro e hoje sonha diferente: depois de tudo o que viu, viveu e escreveu, o que ainda lhe dá esperança na Amazônia?

AA: Eu cheguei, como disse, há muitos anos como criança e jovem aventureiro, depois pensando no potencial do petróleo para o desenvolvimento do Equador. Aos poucos comecei a entender o que a Amazônia significa e cheguei a amá-la.

Amo a Amazônia não só pelo que significa em termos de vida, mas pelas oportunidades que nos oferece para repensar o planeta. Dá-me muito ânimo ver essas comunidades indígenas —muitas vezes criminalizadas, perseguidas e vítimas de ataques violentos por parte de Estados aliados a transnacionais ou ao crime organizado— continuarem lutando e defendendo a floresta vivente.

Elas nos oferecem alternativas que precisamos conhecer, proteger e difundir. Não se trata de copiar a visão do bem viver amazônico e trasladá-la para outra realidade, mas menos ainda aceitar que o urbanismo moderno continue destruindo os espaços amazónicos.

Sei que não verei uma mudança real, mas faço isso com entusiasmo pensando nos meus netos e netas. Temos que começar a pensar o mundo fora dos horizontes estreitos do capitalismo —que é uma civilização de morte— e construir horizontes que garantam uma vida digna.

AL: As utopias amazônicas não são sonhos de um futuro distante, são memórias de formas de vida que existiram e continuam existindo. Se a Amazônia pudesse falar com a voz do bem viver, o que diria ao mundo que ainda não sabe escutá-la?

AA: A Amazônia fala. A Amazônia está falando de múltiplas maneiras. Está a voz dos povos que resistem, a voz dos povos que propõem e a voz da própria floresta que reage diante do colapso ecológico.

Vimos nos últimos anos secas e inundações brutais porque todo o equilíbrio ecológico está sendo alterado. A grande pergunta é se já não ultrapassamos o ponto de não retorno. O que aconteceria se a Amazônia se transformasse em uma savana? Isso alteraria o sistema climático de toda a América e do planeta, acelerando inclusive o derretimento do permafrost na Sibéria.

Cabe-nos recuperar e assumir, sem idealizações, os projetos coletivos de futuro das comunidades indígenas, que têm centenas, talvez milhares de anos de organização em função dos equilíbrios ecológicos. É um dos grandes desafios da humanidade: reencontrarmo-nos com a mãe terra.

AL: Para encerrar, no final do seu capítulo o senhor cita Nemonte Nenquimo quando ela diz: “Não esperem que apenas os povos indígenas continuem fazendo isso”. Por que a mensagem dela ecoa de maneira tão urgente para nós neste momento?

AA: Porque há uma sorte de “ADN extrativista”. As elites assumiram a extração de recursos como opção para alcançar o progresso, e sabemos que isso não funciona.

O capitalismo é uma máquina que demanda cada vez mais recursos, dinheiro e destruição, e que sufoca a vida. É preciso libertarmo-nos da religião do crescimento econômico permanente e da acumulação material.

Sintonizando com Nemonte Nenquimo, a indígena waorani equatoriana: defender a vida é defender o planeta. Ela nos convoca a não esperar que apenas os povos indígenas continuem defendendo a Amazônia. Temos que lutar todos unidos para mudar o futuro das próximas gerações. Em jogo está o futuro dos seres humanos em todo o planeta.

AL: Muito obrigado, professor Alberto Acosta, por esta conversa tão rica e por esta aula que o senhor sempre nos dá.

A Amazônia não pede licença para existir. Existe. Respira. Resiste. E enquanto o mundo debate em cúpulas climáticas o preço do oxigênio que ela produz, suas comunidades, seus rios e suas florestas continuam carregando sozinhos o peso de um planeta que ainda não entendeu o que está perdendo.

Alberto Acosta passa décadas dizendo isso de maneiras diferentes —no governo, na academia, nas ruas. E cada vez que o sistema parece tê-lo absorvido, ele encontra uma forma de voltar a incomodar. Isso é o que faz a utopia quando é honesta: não promete o paraíso, obriga-te a continuar caminhando.

Para ler o artigo do professor Alberto Acosta, você pode adquirir o livro Utopias Amazônicas, publicado pela Ateliê Editorial. 

Produção e Direção: Marcos Colón
Roteiro: Lucas Monteiro e Marcos Colón
Edição de áudio: Lucas Monteiro
Tradução, Edição e Montagem de Página: Juliana Carvalho

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