A voz e a força de uma mulher curadora na Amazônia
O corpo como território das águas e as encantarias dos povos dos rios e das florestas

Dona Cléia, zeladora de santo em Manaus (AM), posa ao lado de um pé de arruda florido. Ela compartilha as memórias, os preceitos e as
práticas de cura que resistem na costura profunda entre os corpos e os territórios das águas. Foto: Acervo pessoal/Dona Cléia.
Começo este texto agradecendo pelo relato generoso de Dona Cléia, como carinhosamente é conhecida por quem recebe seus cuidados e convive com ela. Agradeço também por sua presença generosa em minha vida. Falar sobre e com a Dona Cléia é falar de um encontro e uma relação que se iniciou muito antes do mero agendamento da entrevista. Afinal, já foram tantos encontros desde que ela cruzou os meus caminhos, em agosto de 2021.
O momento de registar essa conversa em formato de entrevista, a fim de compartilhar fragmentos de vivências reservadas a um espaço sagrado (onde nem mesmo fotografias são permitidas em dias de cerimônias de festa, porque ela preza pelo anonimato e pela simplicidade), foi uma experiência que começou antes mesmo do encontro daquele dia acontecer e estarmos frente a frente.
Quando entrei em contato para expressar minha intenção de escrever sobre a importância de comunicar suas encantarias ao mundo, ela me respondeu tranquilamente e de forma firme como de costume, como quem afirma o óbvio: precisava perguntar aos seus guias, aos seus encantados pois não poderia falar nem fazer nada sem autorização. Eu já imaginava aquela resposta.
Esperei alguns dias. Quando ela respondeu dizendo que estava autorizada, senti que não era apenas um aceite, mas uma missão. Eu não estava apenas indo entrevistar uma velha conhecida que se tornou amiga próxima, com laços fraternos. Eu estava sendo recebida em um campo de cuidado de outra dimensão.
Escrever sobre essa experiência me desafia a ir além do que estou habituada. Isto porque, foge de uma escrita acadêmica mais engessada, que segue as normas e critérios do campo de comunicação do que convencionamos que fosse esse ambiente. Contudo, precisava falar sobre esse cuidado que não começa no momento da fala: ele antecede a comunicação verbal e o encontro presencial. É um cuidado que prepara e alinha.
Compartilho, nesse momento, as encantarias de uma mulher que, pelo simples fato de narrar sua vivência, já exerce a cura em suas múltiplas dimensões, traço comum na sua existência.
A história da Dona Cléia começa ainda na infância, e sim, obviamente nossas histórias começam antes mesmo da infância. Mas imaginem uma menina começar a trabalhar com encantarias tão cedo? Ela nos aponta para a sua realidade, trazendo à tona as vivências de um território1Território e cultura trata-se da referência à concepção de território como espaço vivido proposta por Milton Santos, geógrafo brasileiro. Na sua obra “O espaço do cidadão” ele discute territorialidade e cultura e apresenta a importância da cultura popular para construção de novos mundos onde possamos ultrapassar o modelo globalizado da pessoa que vive em experiência solitária para alcançar o modo ser a pessoa que vive a experiência solidária. Conhecer essa cultura nunca foi tão importante. em extinção.
Dona Cléia lamenta que algumas regras antigas de respeito às águas e à natureza tenham se perdido, resultando no que vê hoje como uma geração espiritualmente adoecida. “Hoje acabou essa cultura”, afirma ao falar da falta de respeito que foi normalizada sobre os saberes ancestrais.
Todavia, ao sentar-se na sua mesa de trabalho, após suas práticas de cuidado comigo; exalando o cheiro da fumaça do tabaco, ela é a prova viva de que as encantarias resistem. Esse é um território que seguirá vivo.
Registrar essa entrevista e enviar sua história para o mundo é um lembrete necessário de que proteger a Amazônia, a natureza, o respeito aos que vieram antes de nós, é garantir que o rio continue fluindo. Esse rio segue fluindo tanto nas terras como nos corpos-territórios de quem zela pelos seus mistérios.
Para mergulharmos nesse banzeiro de saberes e memórias, leremos a seguir a narrativa da própria Dona Cléia. O que se segue é o registro do nosso diálogo, autorizado por ela e com a permissão dos encantados. Nele, sua voz flui com a força e mistérios dos igarapés de sua infância, evocando a cobra do rio que via desde menina e ecoando na pintura corporal de jenipapo (com elementos de uma cobra jararaca) traçada na minha perna esquerda na véspera dessa entrevista por uma artista indígena. Assim como o movimento das cobras e pela força de sua língua, que transmite o veneno ou a cura, escolhemos partilhar palavras de resistência, cura, cuidado e afeto a partir da experiência com as encantarias da Amazônia.
Adria Sousa: Conte um pouquinho da sua história, seu primeiro contato com esse mundo da encantaria… eu já sei que é desde criança, mas como foi?
Dona Cléia: Com 7 anos de idade, né… eu morava no interior do Pará… e quando estava em cima de uma ponte no igarapé, que é comum a gente morar no interior e ter essa água corrente… eu vi uma cobra… saí correndo de medo… E essa cobra, quando foi de noite, não me deixou dormir… ela virava homem… aí virava cobra… virava homem, virava cobra… E me deu muita febre, muita dor de cabeça, meus pés gelados, minha mão gelada… E de manhã minha avó, que era curandeira… ela não incorporava, trabalhava só com o povo das águas… ela me benzeu, né… E disse que era porque eu era sacaca e para trabalhar com os sacacas2Sacacas são encantados da Amazônia, povos das águas com práticas de cura e proteção a partir das floresta e dos rios.… A partir daí eu comecei a vê-los e começou a chegar gente lá em casa… eu fazia adivinhações… As pessoas chegavam lá, eu falava as coisas sem saber o que estava falando…, mas dava certo… porque eu era só uma criança, então não entendi… Minha infância foi só cuidando de pessoas… e não foi com remédio de drogaria, né… medicamento, né… Remédio é o nosso remédio do povo… agora medicamento é dos médicos das pessoas.
E quando começaram a incorporar mesmo, não tem esse negócio de vai fazer roda, vai fazer batuque, nada disso… Era simplesmente uma lamparina acesa, o café e o cigarro de tauari. Mas o cigarro não é o que chamam hoje… Os pretos velhos chamavam antigamente de “porronco”. Agora, se a gente perguntar hoje para quem trabalha nessas outras linhagens, eles não sabem o que é cigarro de tauari… O cigarro de tauari é feito com ervas, casca de tauari, que é uma fibra que se tira e a gente faz o cigarro pra fazer incenso com alfazema, mirra, benjoim, alecrim, breu branco… coloca tabaco de corda… Minha avó fazia… ela secava o tabaco, fazia aquelas cordas de tabaco… E aí moía o tabaco e fazia… E esses materiais aí que eram o cigarro de tauari… quando a pessoa chegava judiada de bichos, de boto, dessas coisas… as entidades vinham e faziam os trabalhos.
Antigamente a gente tinha muito isso no interior, mulher não podia ir menstruada para o igarapé, não podia passar por cima de carvão quando menstruada. E tudo isso eles (encantados) me ensinavam. E hoje acabou essa cultura e temos muita gente doente por causa disso.
E eu fui vivendo minha vida assim, sem ter liberdade de fazer outras coisas. Eu vivi exclusivamente a espiritualidade desde criança. Quando eu quis fazer outra escolha, aí eu comecei a apanhar porque eu quis parar. Quando eu fiquei moça e menstruei pela primeira vez, aí conversei com uma senhora, e ela disse pra mim: “Agora tu tá moça, já sabe fazer um monte de coisa e vai decidir o que tu vai fazer.” Aí entendi que era para parar de trabalhar e podia tirar minha mesa, que eu tinha uma mesa de caixote que vinha um monte de barra de sabão. Eram umas tábuas e minha mãe fez uma banquinha com aquilo. As pessoas vinham lá desde criança.
Na minha mesa tinha um São Jorge, uma Nossa Senhora de Aparecida e o Sagrado Coração de Jesus. E o que mamãe chamava de Divino Espírito Santo. Então, todo mundo que tocava ali com a fé deles aquilo curava. E eu achava graça, dizia “isso é leseira desse pessoal, eu não sei é nada”. Então meu primeiro contato com eles foi assim e quando resolvi sair, aí comecei a sofrer as consequências… não que eles sejam ruins… eles queriam me ensinar como qualquer pai quer ensinar seus filhos… então eu não vejo que eles eram ruins comigo, mas eu era rebelde, revoltada e apanhava.
Adria Sousa: Como assim, apanhar?
Dona Cléia: Apanhar é quebrar a cabeça. É ficar sem dente. E eu apanhei muito… Eu não tenho dente… tô fazendo implante com 65 anos… Eu tenho cirurgia na cabeça espiritual que foi eles que fizeram (os encantados) … foi muito complicada minha infância… Eu nunca tive infância, nunca brinquei de boneca. Hoje, se você chega na minha casa, tenho um monte de boneca, porque eu nunca tive. Eu tinha o maior sonho de brincar de boneca. Às vezes, eu brinco.
Não tenho muito tempo porque eu vivo para a espiritualidade. Eu não vivo dos meus santos, eu vivo com os meus santos. Então, como você é conhecedora há muitos anos e já frequenta aqui, você vê que as pessoas vêm em busca de ajuda e o que a gente pode fazer, a gente faz… O que não é para fazer, a gente não faz…
Adria Sousa: A senhora fala que é uma zeladora de santo e não uma mãe de santo. Qual é a diferença?
Dona Cléia: Na minha religião, na minha concepção, que eu me criei assim… eles chamavam os curadores antigamente… Vamos dizer que alguém dizia: “Leva teu filho pro curador, que ele tá mordido de cobras”. Aí levavam o menino pra mim e lá os guias cuidavam dele… Se eu estivesse no meu normal, eu não sabia nada, mas eles ensinavam uns remédios que eu nunca tinha visto nem falado na minha vida… Aí eu começava a colocar um monte de coisa na minha cabeça… que eu estava ficando doida. E quando se fala de pai de santo, mãe de santo, eu respeito todos os credos como funcionam na casa deles. Mas na minha casa, na casa do meu pai, que eu sou zeladora, não existe nem mãe nem pai de santo.
Adria Sousa: Qual seria o termo mais adequado para usar?
Dona Cléia: Uma pessoa que orienta espiritualmente… Mas eu não sou mãe de santo… Eu sou zeladora de santo… Mas quando foi pra eu fazer minhas provas, as sete provas que eu fiz, as provas de fogo, água, mata, que eu fiz tudo… irmã, as coisas funcionam assim, por exemplo, você vai fundar um local agora, a pessoa vai lá e já tá incorporada, não sei como funciona em outro lugar, mas para eu chegar nesse patamar de ter toda essa evolução, eu tive muito aprendizado… Tanto que eu nunca fui pra terreiro de ninguém… Nunca ninguém botou a mão na minha cabeça… Eu aprendi diretamente com eles… Indo pra reunião com eles… Nos meus sonhos… Indo pro fundo do rio… Eu sempre fui…
Pra fazer esses trabalhos grandes, eu sempre vou primeiro pra reunião. Eles me orientam primeiro tudo que tem que ser feito, aí que eu venho me preparar. Por isso existe a preparação, de não ir pra rua, de não comer carne vermelha, não manter relação, não beber… Eles chamam de preceito. Aqui chamam de cuidado com a espiritualidade, porque a espiritualidade não é receber entidade, ela é cuidar do teu corpo para tua entidade vir livre pra fazer os trabalhos.
Adria Sousa: A senhora aprendeu o que sabe diretamente com os encantados3Encantados são entidades e também guias espirituais presentes em cosmologias amazônicas, associadas às águas e à floresta bem como os elementos da natureza presentes no mundo.?
Dona Cléia: Sim. Eu ia para a reunião no outro mundo, no outro plano… Por isso existe o assentamento, a firmeza… Firmeza não é escrever ponto no chão, riscar no chão. Nossa firmeza é acender uma vela de palito que a gente chamava antigamente ou uma lamparina. Eu trabalhei muito com lamparina… E aquelas roupas de saco… Isso é muito importante, porque os guias, os orixás, os encantados, os sacacas, eles não gostam de roupa espalhafatosa. Eles gostam de roupa de saco. Eu trabalhei muito com roupa de saco de açúcar… Minha mãe fazia aquela calça e a blusinha de manguinha… eu era só a caveira, né, e era com isso que eu trabalhava.
Eu trabalhava na rede. Então, quantas e quantas vezes minha mãe deixou de fazer as coisas dela para cuidar de mim…porque o dia que eu trabalhava, que era sessão, não era trabalho, não era gira. Agora tem um monte de nome que falam. Era sessão que se chamava. As sessões dos trabalhos de cura. E como era que funcionava. No início do trabalho, como eu era criança, era minha mãe que comandava isso. Eles diziam para minha mãe como era para agir e diziam para mim: “tem que fazer isso, isso e isso”. E eu ficava igual um robô, né. Aí, quando eles assumiam, tudo bem, mas quando iam embora, eu ficava doente. No outro dia, eu não conseguia me levantar de fraqueza porque minha mãe tinha que fazer caldo de caridade para me dar para eu me restabelecer de novo. Porque eles são muito fortes…São seres que vivem no fundo do mar, no fundo do rio… Eles são os seres mais lindos desse mundo.
Falar de sacaca é falar de uma vida plena, cheia de amor, de progresso, de aprendizado. Eu sou muito apaixonada por eles. Eu trabalho com a princesa Flora, que é uma velhinha. Eu trabalho com… eu me emociono porque é muito importante isso. E tá acabando. Está acabando essa grande riqueza de respeito, consideração, caráter. É muito triste. Imagina, não sei se você estava naquele dia, rapidinho fizeram uma cauterização. Foi lindo e todo mundo sentiu (ela se refere a uma cirurgia espiritual realizada na última festa na casa). E eles não precisam de nada. Só da fé da pessoa, da pessoa estar ali entregue para fazer. Então é muito importante não deixar isso acabar. Porque respeitar é uma coisa fora do comum. Eu posso dizer assim, com meus 65 anos, que só quem vive o que eu vivi desde os meus 7 anos é quem sabe.
Adria Sousa: Como funcionam os encontros e essa chamada viagem para outros mundos?
Dona Cléia: É uma viagem para outra dimensão e por isso que precisa estar preparado, o físico, o psicológico e o espírito. Eles me ensinaram. Eu não tenho estudo. Eu nunca li um livro a não ser a Bíblia. Eu nunca aprendi a mexer em nada de internet porque eu não sei mexer na internet, eles não deixam. Eu não sei. Tem horas até que passo mensagem errada.
Adria Sousa: Mas eles vão deixar a gente escrever sobre?
Dona Cléia: Sim. Isso foi algo que eu pedi muito. Estou escrevendo um livro da minha vida que vai ser publicado quando eu fizer a passagem. Então é muito lindo. É muito importante. Você imagina assim, uma pessoa chegar na tua casa 1 hora da manhã do interior, vir remando doze dias para chegar com uma pessoa doente, e você, uma criança, olhar e se esconder com medo, porque eu me escondia dentro do mato com medo e me perguntava: “O que esse pessoal está fazendo aqui? O que eu sei fazer? Por que eles estão aqui?” E aí, no outro dia, pela manhã, minha mãe dizer: “Olha, fulano já se levantou, o fulano tá bem. Olha minha filha, vem ver aqui”. E eu dizia: “Não quero ver não. Não falem para ninguém vir aqui. Eu não quero que ninguém saiba.” Tanto que até hoje não é publicado nada, não é vazado o que é feito aqui. É isso que é espiritualidade.
Agora foi um pedido meu, quando completei 50 anos, eu fiz um pedido para os meus guias porque queria ver como ficava incorporada. Eu tiro fotos, mas não pode sair daqui. É tudo sigilo. Se faço doação, não posso mostrar que faço. Fazer o bem, só Deus sabe.
Adria Sousa: A senhora gostaria de deixar alguma mensagem?
Dona Cléia: A minha mensagem é só uma: ser honesto, que é o que nos fortalece no espiritismo. A espiritualidade é assim: você tem que se doar. Não adianta eu dizer pra você: “Você tem que ser.” Você que tem que querer ser porque não pode ser imposto nada pra ninguém. Todo mundo tem seu livre-arbítrio para fazer o que quiser. Hoje mesmo eu atendi uma pessoa que tentou se matar três vezes e eu disse: “isso não é para mim. Eu não posso te ajudar, mas posso te encaminhar para um psicólogo”. A gente trabalha aqui com vários psicólogos.
Adria Sousa: E quando a senhora diferencia o que é espiritual e o que é encaminhado para psicólogos, médicos ou outros profissionais de saúde?
Dona Cléia: Quando chega uma pessoa doente, eu acendo uma vela da guarda pro anjo da pessoa, aí já sinto a presença deles dizendo: “tem que fazer isso, isso e isso”. Às vezes, eu ainda tenho muito medo, porque todo ser humano tem medo, então eu tenho medo de não dar conta porque eu não sei fazer nada, eu, no meu normal, não sei fazer nada, mas quando eles vêm e fazem a obra deles, é muito lindo. A espiritualidade é isso. É parceria, é amor, é caráter. É vivenciar. Não é só falar porque viu na televisão… então as coisas funcionam muito errado. Eu fico muito triste porque as pessoas fazem um cavalo de batalha num negócio tão simples.
Uma coisa bem importante é diferenciar. Tem gente que está doente para médico, tem gente que está doente espiritual ou está doente com um feitiço, vamos dizer… Que agora o pessoal chama de macumba, que nem esse estudo fazem que macumba é esse instrumento aqui (aponta para o instrumento utilizado para os rituais). E isso não tem nada a ver com macumba, fazer mal para os outros. E o mundo não é mal. As pessoas que ainda não conseguiram ser boas. A partir da hora que a pessoa começar a aceitar ajuda, porque a união faz a força, se todas as doutrinas e religiões se unissem em prol de ajudar o ser humano, a gente viveria muito bem. A gente teria um mundo melhor, famílias melhores, pessoas melhores. Porque a gente não é dono da verdade, a gente é instrumento. Então, é bem interessante isso.
Então, quando se fala em remédio, remédio pra mim, pelo que aprendi com eles, é folha, é mato, é água, é essas coisas. Da floresta, do fundo do mar, das cachoeiras, das pedreiras. Esse é o remédio caseiro que a gente chama. E esses remédios vêm… As nossas folhagens do Amazonas, a nossa folhagem é que faz toda a diferença em todos os laboratórios pra fazer todas as coisas e as pessoas não preservam essas coisas que são importantes, que os encantados ensinam… É muito bonito quando você faz um chá de uma folha e a pessoa toma com fé e fica boa. Às vezes tem pessoas que não precisam tomar nem um medicamento e nem um remédio, mas ele precisa que alguém diga que vai ficar tudo bem, de um abraço, do cuidado, do amor, da segurança.
Eu não posso te dar segurança se você chega na minha casa e eu tô brigada com meu marido, meus filhos estão desunidos, minha casa tá suja, as coisas tudo jogadas… eu não posso te ajudar porque eu não estou me ajudando. Então, pra eu ser um líder, um pai de santo, e não vivenciar, não procurar fazer o bem sem interesse… Então eu sou mais apegada em pessoas que vêm e eu digo:
Olha, tua patente ficou lá fora, aqui é outra coisa, outro mundo. A gente vai fazer isso e isso da maneira que os guias estão orientando. E se não quiser fazer, tudo bem também porque ninguém é obrigado a acreditar na minha crença.”
Quando eu fiz meu teste de fogo, de água, de mata, foi bem difícil porque eu tinha entre 13 e 14 anos. Era quando eu já tinha meu centro. Que é tenda, que é diferente de terreiro, diferente de casa. O que é uma tenda? É uma casa que se recebe pessoas de toda diversidade: homossexual, lésbica, preto, pobre, rico, todos com o mesmo amor que o rico recebe. O rico, para a gente, na minha concepção, não é que ele não tenha o direito de ser cuidado, mas ele tem o direito assim como todos têm na mesma medida. Ele não pode ser olhado porque tem mais dinheiro. O pobre tem que ser mais olhado porque ele não tem as condições que o rico tem. Essa é nossa doutrina.
Adria Sousa: Que bonito seu trabalho. E como a senhora aprendeu a fazer os tabacos de ervas com folhas? Poderia falar um pouco mais?
Dona Cléia: Essas ervas todas quem me ensinou foi o amor da minha vida, que é o Mestre Aruan. Como eu trabalho com Mestre Aruan, Mestre Dário, Seu João da Cruz, que são entidades de antes de Cristo e eles estão trabalhando aqui para se tornar pessoas melhores. Tanto que sábado mesmo eu tive um aprendizado que eu fiquei assim: “meu Deus, vou viver 100 anos e não vou aprender tudo”. Porque eu estava brava com o pessoal que só faz mal para o outro. Meu minuto de ser humano… aí uma entidade veio e se sentou do meu lado, porque vejo ele como vejo vocês. Aí veio um preto velho, pai João de Angola, e falou: “Ora, ora, minha filha, você tá tão zangada, né?” E eu falei: “Pois é, meu pai, esse pessoal faz mal pra vida dos outros”, meia chorosa, com raiva. E falei: “E vocês não fazem nada, eles fazem tudo de errado.” Aí ele disse: “Ora, ora, se eu tivesse que fazer alguma coisa, não tinha um ser nessa terra, porque quando a gente viveu aqui, tiravam orelha de preto, colocavam a gente no tronco, faziam isso e aquilo, e agora a gente viria aqui para se vingar… mas, minha filha, a gente vem aqui é para evoluir. Aprendizado.” Então, santo, entidade, espírito, exu, não faz mal para ninguém.
Agora a gente vai mudar dos encantados pro povo da rua, que é muito rápido para fazer isso. Eu tinha muito medo do seu Tranca Rua porque eu nunca tinha visto. Não sabia quem era. “Então, opa, quem é esse daí?”. Tranca Rua não tem chifre. Exu não tem chifre. Exu não bebe sangue. São as pessoas que fazem isso para que a pessoa que tá na plateia, que eu chamo de plateia, fique com medo. Mas é o ser humano, não é o espírito. Porque exu é caminho. Exu é saúde. Exu é, assim, vamos dizer, uma floresta cheia de frutas, um jardim cheio de rosas. Assim que é exu.
Adria Sousa: Dá para trabalhar com todos os encantados da Amazônia e todos os guias?
Dona Cléia: Sim, de todas as denominações, quando você é feita no Santo. Não que você vai aprender de algum lugar. Você não pode ficar aprendendo de livro e achar que o livro vai funcionar na tua cabeça. Você não pode. Você tem que vivenciar. Se hoje eu sou essa zeladora da casa do meu pai, é porque eu aprendi como lidar com o ser humano, aprendi a lidar comigo e aprendi a lidar com como se faz para viver bem. O mal e o bem existem. Se tu me fizer uma pergunta: “Cléia, tu acredita no inferno?”, eu digo que não acredito, não. Existe inferno? Existe. Existe diabo? Existe. O diabo somos nós, que ficamos perturbando um e outro e o inferno é aqui mesmo, né. Então, se tua vida é harmonizada, a tua vida não é um inferno. Tu não precisa de um inferno. Mas se tu vives uma vida atribulada, tu vives uma vida de inferno.
Adria Sousa: E o que é viver bem para a senhora?
Dona Cléia: Viver bem é ter paz de espírito, não mentir pras pessoas, não enganar. É viver bem, é dividir o pouco que você tem.
Adria Sousa: Posso colocar seu nome na publicação ou usamos outro termo?
Dona Cléia: Pode colocar porque isso vai ser o futuro do amanhã. Muitas vezes eu fico muito triste de ver como nosso povo está sendo achacado. Cara, eu não consigo entender que uma entidade tão sagrada, tão pura, tão importante para a humanidade seja desrespeitada, vamos dizer. Na minha opinião, respeito todos os segmentos e lugares. Mas, na minha opinião, é a coisa mais sagrada do mundo, porque eles vêm de um lugar tão importante pra nossa terra, que é uma coisa tão ruim. Fazer o bem e não precisa tomar teu dinheiro, teu brinco, não precisa de um monte de roupa, de um monte de penduricalho. Não precisa de nada disso. A nossa segurança está no nosso pé. A nossa segurança está nas nossas mãos. Só depende da gente. A nossa espiritualidade é tão bonita que, se você sentir qualquer coisa, pode ver que o teu estômago já dói, né… porque a gente é nosso chacra que eles chamam, quem é nosso umbigo sagrado na nossa doutrina… então é muita coisa que, se hoje a gente for falar de espiritismo… eu nunca aprendi de livro, mas se você quiser falar de como funciona a espiritualidade tanto nos encantados, nos sacacas, na umbanda, eu sei explicar… porque a umbanda eu não tinha, eu adquiri com respeito… eu não sei se você lembra, mas você tinha uma pergunta sobre Dona Mariana…
Adria Sousa: Sim, e a Dona Mariana, como chegou na sua vida?
Dona Cléia: A Dona Mariana4Cabocla Mariana é uma entidade espiritual presente em práticas de matriz afro-indígena na Amazônia.Cabocla Mariana é reconhecida nas encantarias amazônicas como uma presença forte, associada às águas, à cura e à proteção. Muito presente no Pará, sua força atravessa práticas de cuidado, cantos e memórias coletivas. Em expressões da cultura popular, como no carimbó do artista paraense Pinduca, sua chegada é celebrada. Na vida das pessoas e nas festas sobre ela também “chegou Dona Mariana…”. Ela sempre chega com muita presença, gargalhadas, elegância, beleza, movimento e força. Para quem deseja conhecer mais a partir das batidas musicais do norte, a música “Dona Mariana” pode ser acessada nesse link: https://www.letras.mus.br/pinduca/1674363/significado.html chegou na minha vida através de uma filha dela… Ela tinha um terreiro de chão batido… Ela tinha muitos problemas na família dela e era muito desobediente… era dona de um bordel que ia contra o que Dona Mariana falava, mesmo assim ela fazia… E um belo dia… ela desmaiou… vieram me chamar que ela estava morrendo e tal, e ela sempre me respeitou… Eu não queria ir, até brinquei que não era médica, sempre fui assim. Ela infartou…, Mas meu guia falou: “Vai lá socorrer.” Eu fui… E a Dona Mariana incorporou nela… E ela falou: “A partir de hoje eu tenho todo meu respeito por você e a partir de hoje eu vou passar na tua coroa.” Eu disse: “Mas não pode, porque você não é Sacaca…” Ela disse: “Eu posso… porque já tenho permissão. E o mal foi necessário. Ela precisou desmaiar pra você tá aqui.”
E aí Dona Mariana começou… quando eu ia trabalhar, ela sempre aparecia. Aí eu falei: agora que virou bagunça mesmo. Todo mundo vai querer vir. Aí ela passou um dia sem vir. E um dia essa senhora passou muito mal de novo e ligaram pra mim. Aí eu fui visitar, ela estava entubada, aí ela abriu o olho e pediu para eu pegar na mão dela e, de repente, disse bem assim: “Tome conta da minha banca. Vá lá e desmanche tudo. Eu lhe autorizo. A partir de hoje você vai receber todas as minhas entidades.” E a partir daí eu ganhei essa responsabilidade de umbanda através da Dona Doquinha. E depois disso, após 21 dias, minha tia morreu, ela também trabalhava com os encantados e tinha uma linhagem de caboclo. E quando eu cheguei no hospital, ela disse: “Nunca faça mal para ninguém e nunca desobedeça a seus guias. Porque eu desobedeci e tô aqui. Nunca faça o que as pessoas queiram para agradar alguém. Faça o certo.”
Adria Sousa: Agora gostaria de saber o que a senhora não atende? O que não trabalha nas encantarias?
Dona Cléia: Aqui não aceita matança de jeito nenhum, não aceita amarração, não aceita esse negócio de fazer um corte no corpo porque uma vida não é por uma vida, não existe isso. Porque se for para fazer isso, a gente faz o alimento, como tu sabe que a gente faz, e distribui para as pessoas que estão com fome. Então, resumindo, a gente não trabalha com o que as pessoas querem que a gente trabalhe: com amarração, com fazer mal para os outros, com destruir famílias, com fazer essas coisas. É amor, é paz, porque umbanda é paz e amor. E encantaria é prosperidade, caridade, caráter acima de tudo…Resumindo, a Dona Mariana, há um tempo, disse que pode se englobar no que quiser e onde estiver limpo e eu perguntei da princesa Flora e ela disse: “Ela pode vir como eu e eu como ela… nós somos uma só.” A princesa Flora é uma sacaca.
Dona Cléia faz um encerramento me abençoando e deixando uma mensagem:
Nunca abandonem suas entidades, nunca cresçam passando por cima dos outros. Sejam honestos, porque os guias querem caráter.”
Ela lembra de quando perdeu a sua mãe e se emociona ao recordar do recado da matriarca, que disse, depois de sete dias sem falar nada após um derrame: “Minha filha, nunca abandone seus santos por nada e siga em frente”. Ela contextualiza:
Minha mãe foi meu porto seguro. Minha mãe foi tudo para mim e quando eu vou trabalhar, às vezes eu dou uma chorada porque vejo ela na minha vidência. Ela sempre está perto de mim por ter uma evolução grande. Ela fica perto de mim. Se eu tô doente, sinto o cheiro dela e a mão dela me tocando. Eu amo o que eu sou. Eu amo o que eu faço. Eu não quero que ninguém fique doente, mas se ficar, eu cuido. Tudo que eu fiz aqui (aponta para a tenda) não foi ninguém que me deu, foi vendendo meus remédios, e vou fazendo e evoluindo cada vez mais”.
Banzeiro de memórias
Narrativas sempre revelam muito mais que histórias individuais, revelam o singular-universal do mundo a partir da experiência vivida. Ao expor um pouco mais da sua vida, Dona Cléia sustenta essa rica cultura e fortalece nossos corpos-territórios e nossas águas sagradas.
Digo “nossas” porque as encantarias também fazem parte da minha história, embora esse texto não seja focado em mim, ele inevitavelmente a revela. Desde criança, as encantarias fazem parte da minha vida, pois estavam presentes nos benzimentos feitos por familiares que trabalhavam com encantados no interior de Santarém, no Pará, cidade onde nasci e cresci. E cresci entendendo que há coisas que não se explicam, ou até havia tentativas diversas sobre algumas aprovando outras demonizando em uma lógica colonizadora pela racionalização excessiva ou pela atribuição de um único modo de religião e fé que ditava algo certo.
No entanto, o modo como as encantarias eram vividas pelas pessoas ao meu redor sempre foi sentido por mim. Eu sempre olhei com curiosidade, encantamento e até um certo medo do desconhecido e inexplicável, mas nunca com distanciamento. Mais tarde, no encontro com religiões de matriz africana, especialmente com Dona Cléia, talvez também por nossa base com raízes paraenses migrantes moradoras da terra irmã Amazonas, fui reconhecendo essas experiências como parte de uma cultura viva. Uma cultura que também é minha.
Na minha atuação profissional aprendi a escutar o outro a partir do lugar de onde parte a sua experiência. Aprendi, na prática, que não reconhecer o lugar da espiritualidade na vida das pessoas – especialmente na Amazônia – é ignorar uma dimensão fundamental da vida. Como alguém que também busca mediar práticas de cuidado, compreendo que é preciso conhecer mais sobre nossos corpos e sobre territórios como sinônimo de cultura, relação e experiência.
* A entrevista com Dona Cléia foi realizada, na sua Tenda, território sagrado dela e dos encantados. Quinta-feira, 19:30. Manaus-Amazonas. 26 de março de 2026.
Darcicleia Bentes é Mestra nas encantarias. Com 65 anos de idade, nasceu em Óbidos (PA). No momento da entrevista, estava morando em Manaus, Amazonas. Atua com práticas de cuidado vinculadas às encantarias amazônicas, trabalhando com sacacas, mestres e encantados, aprendendo diretamente com essas entidades ao longo de sua vida.
Adria de Lima Sousa é apaixonada pelas encantarias da Amazônia e do mundo. Filha do norte, neta do nordeste. Paraense morando no Amazonas há quase vinte anos. Psicóloga, professora universitária e pesquisadora das existências e das territorialidades amazônicas. Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário do Norte. Especialista em Psicologia Existencialista e Psicologia Clínica. Mestra em Psicologia e Processos Psicossociais (UFAM); Doutora em Psicologia (UFSC). Professora Adjunta do Curso de Psicologia na Faculdade de Psicologia (FAPSI) da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Psicologia -UFAM.
Revisão, Edição e Montagem de página: Juliana Carvalho
Direção: Marcos Colón
